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Hardcore – No Submundo do Sexo (Paul Schrader, 1979)

Jake: “Não ligo para o que acontece em Nova York ou Los Angeles. Não me importa os filmes na TV, ou quem está no Johnny Carson.”

Niki:  “Com o que você se importa?”

Jake: “Eu me importo com minha filha.”

Paul Schrader é um autor único. Embora seja o maior roteirista norte-americano dos últimos quarenta anos, o que chama atenção é a forma como expandiu o conceito de autoria. Defendi, em um texto recente, o diretor como “mãe” do filme, o autor da obra. De fato, ainda acredito nisso. Ainda assim, esqueci-me de citar casos raros, como o de Schrader, em que o roteirista consegue criar uma identidade para seus escritos a fim de dirigir suas próprias ideias. Dessa forma, ao mesmo tempo em que podemos atribuir Taxi Driver como parte integrante da coesa carreira autoral de Martin Scorsese, podemos creditá-lo como um filme da carreira (também autoral) de Paul Schrader, o roteirista. É uma dupla que se relaciona muito em temática.

Em Hardcore – No Submundo do Sexo, evidencia-se isso. Flertando com a sexualidade, Schrader conta a história de Jake (George C. Scott), um calvinista fervoroso, cuja filha “desaparece” num acampamento em Los Angeles, Califórnia. Descobre, por meio dum detetive particular (Peter Boyle), que ela está atuando em filmes pornográficos. Devido à ação ineficaz da polícia e do detetive, decide procurá-la por conta própria.

E Schrader leva Jake ao fundo do poço. Há de se entender que Hardcore trata justamente dos limites do ser humano pelo amor familiar. Acima de tudo, o personagem de Scott ama sua filha. O olhar desolado do ator denota muito bem a solidão sentida ao perder seu ente mais querido. É pela potência do amor paternal que Paul Schrader glamouriza e justifica a violência. Nós sabemos que um pastor não se renderia ao submundo dos Estados Unidos – transformando-se num ser violento – por nada. São os limites do bom senso e da coerência ideológica em prol do amor pela filha.

Assim, Paul Schrader pode afirmar mais ainda sua autoria: Hardcore é uma história religiosa. Uma narrativa de moral. O diretor foi criado, afinal, por uma família de calvinistas holandeses. Se Martin Scorsese carrega consigo o peso da moral católica, Schrader imprime em seus filmes sua criação religiosa protestante. Para alcançar seu objetivo, o protagonista passa pelas mais diversas tentações e depravações – se vistas sob uma ótica religiosa. Não obstante seu amor, sua filha contraria todas as suas crenças. Simbolizadas, por sua vez, pela sigla “TULIP” (explicada no longa). Sendo assim, ele necessita se manter firme em sua religião para conseguir passar por essa fase de sua vida, mas contraria seus princípios ao utilizar métodos pouco conservadores para encontrar sua filha. Não importa para ele. Muito menos para nós. Tendo em vista o objetivo do personagem, qualquer ação se legitima.

Pode-se observar, por outro lado, o moralismo de Paul Schrader no filme. Não falamos da visão ainda conservadora sobre sexo (Hardcore, definitivamente, não é sobre a libertação sexual da garota, já que ela mal aparece na tela), mas de sua câmera que capta L.A. como “a cidade pecaminosa”. Para filmar os bordeis, carrega na luz vermelha – remetendo, como faz Scorsese, ao inferno e o pecado. Nas ruas da cidade, vê-se, por todo lado, cinemas pornográficos – ainda sobra espaço para uma alfinetada na indústria cinematográfica, quando diz-se que o diretor de um filme erótico é estudante de cinema da UCLA. Para Schrader, é a geração perdida, para quem “tudo é sobre sexo” (como pontua Jake).

É com sua condução sóbria de costume que o diretor aborda um assunto tão visceral. A potência do discurso religioso se concretiza no final, quando a tese de João Calvino da predestinação é confirmada: Deus escolhe quem vai para o céu antes de nascer, sendo que, dentre os escolhidos, mesmos os que desvirtuam o caminho traçado por Ele para a aceitação no paraíso acabam se rendendo e descobrindo Deus em algum ponto de suas vidas. É exatamente o que acontece com a filha de Jake. Por ironia do destino, o próprio Paul Schrader parece ser um predestinado, pela percepção calvinista: depois de se “desviar” do seu caminho, entrar na loucura do cinema de contracultura dos anos 70 e se drogar bastante, está sóbrio há um tempo e, quem sabe, voltou ao caminho trilhado por Deus.

Particularmente, sou ateu. Não acredito nessas baboseiras. Mas acredito na existência de gênios. E, definitivamente, Schrader é um deles.

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