, ,


Pink Flamingos (John Waters, 1972)

Pink Flamingos (John Waters, 1972)

O culto ao escroto

Por Rafael Lopes

É difícil falar sobre Pink Flamingos sem ser óbvio ou redundante. Cultuado no cenário underground religiosamente, o filme representa a síntese de uma contra cultura grosseira e repugnante. O filme não possui nenhuma qualidade, mas deixa uma mensagem forte sobre quebra de regras e padrões que para alguns soa chocante e para outros uma grande piada. Ver Divine se auto intitulando Deus ou tentar crer na sua visão política de “matem todos” é para alguns libertária, e para outros, se encarar com o devido bom humor, uma bela brincadeira.

Distorcendo tudo o que uma história tem de melhor, com protagonistas horríveis, lutando para saber quem é mais asqueroso, de um lado temos Divine e sua família: a mãe obesa dentro de um cercadinho, o filho desgraçado e pervertido e a acompanhante igualmente pervertida. Divine é assassina e vive nos mais altos níveis de nojeira, e se orgulha disso, tanto que conseguiu ser eleita pela imprensa sensacionalista como a mais asquerosa do mundo, pelas crueldades que cometeu e por ser procurada por assassinato.

Do outro lado, Connie e Raymond Marble, se sentem injustiçados por não ter esse tão cobiçado status de mais asqueroso. Eles se esforçam: sequestram moças para depois engravidar e vender seus filhos para casais lésbicos; assustam de forma doentia moças fazendo piquenique no parque e se amam de uma maneira pra lá de estranha. E acham que com isso podem competir com a doentia Divine. Eles não passam de reles mortais comparados a divindade gorda e maquiada.

Uma guerrinha é declarada. Os ataques começam do lado que quer o posto de mais asqueroso. O casal de cabelo colorido manda de presente para Divine um belo pedaço de merda. Por hora ela não sabe que indivíduo em sã consciência e sem amor a vida faria isso, mas é questão de tempo até descobrir. E quando descobre, consegue com sua porca saliva transformar a casa em algo mais repugnante do que seus donos. E quando os coloridos são capturados, os mais cruéis atos de tortura e humilhação serão feitos, e mostrados publicamente.

O diretor John Waters, grande nome do cinema underground e Cult, faz aqui a sua grande piada. Satiriza o cinema e o seu modo clássico e redondo de fazer filme, satiriza o sistema e seu jeito redondo e clássico de fazer justiça – vide a cena do aniversário, onde a polícia é devorada literalmente – e claro, satiriza os bons costumes e a forma redonda e clássica que as pessoas vivem – volto mais uma vez à festa, com vários psicopatas e o ânus cantor.

Não me admira ele mesmo declarar que todos os envolvidos no filme estavam chapados de maconha na hora de fazer o filme. Usam e abusam de todo mau gosto possível para compor momentos antológicos como o sexo com galinha ou o lanche coprofágico ao final do filme. O mais engraçado é ver os atores realmente empenhados em fazer aquilo. São tão ruins, mas tão ruins que convencem nos momentos onde realmente são postos à prova.

E aí o diretor chega onde realmente queria (ou não), que é nos fazer pensar sobre pessoas tão doentias e asquerosas que sentem amor e sentimentos mais humanos. Ou seriam as personagens belas metáforas de péssimo gosto do que seria realmente um ser. Agindo pela natureza desprendido de razão e altamente perigoso, violento, nojento e cruel. A proposta realmente é mostrar pessoas despidas de seu papel na sociedade e dissertar sobre sua “importância” em meio às ideologias vigentes. E essa sucessão de confrontos é sentida em cada cena. Um filme que se mostra anti tudo o que possa existir.

Caminhando na tênue linha do exploitation, o filme trás bizarrices de uma forma que incomoda e ao mesmo tempo soa engraçado. Carregado de uma subversão deliciosa, ao som de The Centurions, The Trashmen, Patti Page e Little Richard em seus melhores B sides escolhidos a dedo pelo diretor, e que se encaixam perfeitamente no filme. Beirando o ridículo com sua técnica porca e hilário em quase todos os momentos – sim, em muitos momentos é impossível não segurar o riso – e brincando com o mau gosto rindo do bom gosto, há algo no meio dessa feiura que justifica seu sucesso?

Creio que sim. Há algo que atinge quem assiste. É terminar o filme e pensar no seu inconsciente sobre o confrontamento de idéias que vão surgindo. O filme quebra parâmetros e subverte o cinema e a cultura com tudo o que tem. A protagonista, gorda, feia, assassina, desgraçada, e sua família ainda mais improvável. Os “vilões” tão quanto irreverentes. Isso não se vê em qualquer filme, e o diretor, inteligente, se aproveita de toda criatividade possível e de toda a liberdade de seu cinema underground para cutucar com gosto tudo o que quer – uma vez que se fosse um filme para ser distribuído mais comercialmente, ainda mais no mundo cada vez mais puritano de hoje, teria apenas uns 30 minutos de duração.

Um filme indigesto, porém, interessante. E no mínimo, inteligente.

~~

Comments

Leave a Reply

Your email address will not be published.

Loading…

Loading…

Comments

comments