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Invocação do Mal (James Wan, 2013)

Vivemos em tempos difíceis para os afeitos aos filmes de terror – não sou nenhum entusiasta do gênero, adianto. Hollywood nos empurra porcamente, todo ano, pastiches dos pastiches do gênero em grandes quantidades. Se o found footage pode ter sido responsável por maravilhas como [REC] e A Bruxa de Blair, a indústria nos fez tomar nojo pelo estilo, de tanto repetir a fórmula. Quando comentei a respeito de Sobrenatural (Insidious) em seu lançamento, constatei algo muito triste: o melhor terror do ano era um filme, no fundo, muito oitentista. E assumia-se como tal. Ou seja, trata-se de “modernizar o passado”. Porque artifícios antigos podem ser extremamente funcionais dentro do contexto em que são inseridos. E James Wan sabe bem como fazer isso.

Baseado supostamente numa história real, pois ficcionalizar a “realidade” é muito mais verossímil do que filmar como se fosse um documentário e deparar-se com evidentes obstáculos conceituais, o roteiro de Carey e Chad Hayes é simples e sem rodeios. Dois dramas diferentes se entrelaçam pela ocorrência de caso eventos sinistros na casa de Carolyn e Roger Perron (respectivamente, Lili Taylor e Ron Livingston) e suas filhas. Quando o clima se torna insustentável, Carolyn busca a ajuda de dois especialistas no caso, Lorraine e Ed Warren (Vera Farmiga e Patrick Wilson, idem). Como o próprio filme indica, trata-se do caso mais significativo do casal de “caçadores de fantasmas” – e não espere nenhuma participação especial de Bill Murray.

Assim, o núcleo dramático se expande. Invocação do Mal passa a ser um terror de personagens, portanto. Quando alguma das crianças é ameaçada, nós não nos aterrorizamos somente pelo sobrenatural em si (tendência dos novos filmes do gênero, diga-se), mas também por nutrirmos afeto pelo personagem e, sobretudo, por sua mãe. E a prova cabal disso é o ápice do filme, no qual a tensão se instala muito menos pela possessão do que pelo conflito imposto na sequência – refiro-me, claro, à sequência no porão. Aliás, Wan investe pesado na relação entre mãe e filho(a), questionando e potencializando o elemento dramático, mister para a obra.

Sua mise-en-scène busca também explorar todos os cantos da casa e a montagem astuta dá luz a todos os personagens. Desde o policial até o assistente do casal dos Warren, todos possuem seu próprio momento de tensão, formando um mosaico que explode em terror, do qual nem os céticos saem ilesos. Em cada canto da casa descoberta, sabemos os perigos que ali residem. E sempre que um dos personagens acaba, de uma maneira ou outra, caindo naquele ambiente, o suspense se instala de imediato. É o típico susto anunciado, embora você não saiba exatamente quando acontecerá.

James Wan sabe elevar principalmente o suspense. Os três atos do filme são muito bem delineados pelo próprio casal de especialistas, que indicam os três estágios dos espíritos demoníacos nos lares. Não se engane: Invocação do Mal não é um filme esquemático. A evolução dos suspenses é natural. Dessa forma, assume-se, num primeiro momento, um terror de detalhes mínimos. Uma porta rangendo pode nos sugerir muito. Quebra-se, nisso, a expectativa em vários momentos. Afinal, uma escuridão atrás duma porta é muito aterrorizante. Não precisamos saber o que lá existe, isso se houver algo: basta a mera possibilidade. Nesses pequenos detalhes, qualquer movimento diferente pode causar temor. E uma câmera filmando os personagens sob uma perspectiva de dentro da casa já semeia a desconfiança.

Na segunda metade, o terror implícito cede lugar ao explícito sem jamais vulgarizar a obra. Vemos, finalmente, os demônios. Sabemos quem são e o que pretendem – o que nos angustia ainda mais. Percebemos o tamanho do problema a ser enfrentado. Prepara-se o terreno para culminar no último ato do filme. O desfecho da obra é percorrido pela mistura do horror físico com o sugestivo. Dessa forma, bonecas voltam a assustar, os demônios escancaram seus rostos e apavoram qualquer um. Novamente, não se precipite. Não pense que falamos dum filme de sustos fáceis. Os poucos ali presentes têm sua razão de ser – tanto é que Wan não força nenhum artifício para gerá-los, por serem intrínsecos a trama. O medo reside muito mais na carga dramática construída e no exagero da caracterização dos demônios – é difícil não se assustar com o rosto feio duma mulher filmado em close-up.

Todavia, a eficácia de Invocação do Mal parece residir na simplicidade. Wan sabe que não precisa tremer a câmera para nos arrepiar nas poltronas. É muito mais eficiente o jogo de luzes proposto. Nesse sentido, a sequência de Vera Farmiga sozinha no porão é brilhante: tudo está iluminado – menos o local onde ela se encontra – para mostrar que não há nada ali, para depois tudo se escurecer e constatarmos que alguém a assombra, enquanto procura desesperadamente por um fósforo. Perceber a importância da sombria fotografia para o clima constantemente soturno é fundamental.

Talvez o meu entusiasmo em relação ao novo filme de James Wan não seja compartilhado por todo o público, afeito a filmes frenéticos do gênero. Talvez seja tão ignorado quanto Sobrenatural. Espero que não. Não é um filme que entrega nada de novo, de fato. Não chega nem perto, porém, dum pastiche. Ou um trabalho formuláico. É, sim, uma obra que assombra. Usando de artifícios bastante inteligentes, diga-se.

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