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Adeus, Lênin! (Wolfganger Becker, 2003)

A história por outros olhos

Por Rafael Lopes

Talvez o melhor de Adeus, Lênin! seja o fato de contar uma história utilizando outra. Nesse caso, a história de Alex e seus problemas familiares e como pano de fundo o declínio do regime socialista numa Alemanha Oriental prestes a explodir. Comparações entre ambos problemas são inevitáveis, e temperam muito bem o enredo do filme, dando ao espectador não apenas uma aula de história, mas um entretenimento saudável e com muito conteúdo.

Podemos ver a separação de seus pais como a Alemanha – que vemos como sua casa – também sendo separada. Em ambos casos, o vergonhoso muro de Berlim os separa, tanto o país, quanto a distância entre seu pai. Nisso já é traçado todo o perfil das personagens e do que o filme quer passar. A mãe de Alex é simpatizante do partido e o pai não. Por falta de uma comunicação mais direta entre eles, Alex ficou sem pai – que ficou do lado capitalista e não mais pode regressar – e ele e a irmã sob os cuidados da mãe (e da ideologia comunista).

O processo mostrado dela se reerguendo, seria o mesmo do país cercado pelo muro também se reerguendo, mas sem muitos sinais de solidez. O tempo que ela fica calada e os filhos a mercê de toda uma construção ideológica vindo de todos os lados também montou o perfil deles. Seria como se nada além daqueles muros fosse o mundo que eles viviam. Só que ela voltou, porém sequelada, como o socialismo, que começava a mostrar sinais de fraqueza.

Ela encontra conforto difundindo os ideias socialistas, ensinando o que seria o modo correto de levar a vida dentro daquela conjuntura. Ela começa a viver o socialismo, ela é o socialismo. Mas acaba sucumbindo ao ver seu filho sendo reprimido numa passeata, e fica em coma. Acabou não assistindo ao regime socialista declarar falência. E acabou não assistindo seus filhos se renderem aos luxos do lado capitalista. Seu retorno é o ápice de tudo. Temendo pelo susto da mãe fervorosa socialista ver sua cidade abalada por uma avalanche liderada pela Coca-Cola e produtos industrializados e mudanças em todos os hábitos e costumes, faz os 3 anos de coma serem apenas 8 meses, e representar o atraso social que aquele regime trouxe é a saída para não ver a mãe se chocar com tamanha – e repentina – mudança.

Tentar de todas as formas agradar a mãe é como ver a população que sentiu na pele esse regime. Alimentar uma ideologia que foi se quebrando e se mostrando de caráter duplo apenas para acompanhar o caos que estava se instalando. Alex luta para manter vivo no coração da mãe o sentimento socialista, camarada, mas na verdade ele vendia televisão e flertava com a ideologia capitalista e maquiava sua verdade. Sua vida vira uma bagunça, como a vida da população que sofreu com o fim do regime socialista e teve que se atualizar depois de anos de regressão.

Em meio a verdades e mentiras que vão surgindo, até a reunificação da Alemanha, e conseqüentemente o reencontro de mãe e pai, muita coisa vai acontecer, muita coisa pode acontecer, muita coisa acontece, e essa fervura de situações e reviravoltas fazem denotar uma situação verídica. Um show de ironias e associações entre realidade e ficção.

O tom cômico e trágico vão ali, segurando as pontas, e as lentes do diretor captam não apenas um drama familiar, mas também um evento histórico, de uma forma documental bastante precisa e interessante. Não falta no filme momentos que passem essa ideia. Seja quando Alex e seu amigo que quer se Stanley Kubrick gravam noticiários falsos para enganar a mãe – mostrando a maquinação que os meios de comunicação eram, verdadeiras máquinas ideológicas a favor do socialismo – seja na vontade de tapar o sol com a peneira, quando ele tenta evitar a mãe de enxergar um poster da Coca-Cola – denotando a situação que já se encontrava no frágil regime, que não viu o problema crescendo embaixo do nariz.

O filme é de uma sinceridade ímpar e maravilhosa. Expressado nos olhos dos atores, que dão o melhor de si para não apenas reviver aquilo tudo, mas também construir todo um panorama do que se tinha naqueles longos dias até o fim da vergonhosa separação ideológica que pairou naquele país e no mundo. No fim das contas, talvez tudo não tenha passado de mentira, como foi a vida de Alex e a vida curta da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Tudo uma grande mentira, mantida por meio de ideologias pregadas, show de imagens do espaço, demonstrações militares e dizeres de que tudo está bem. E o filme ainda quer ir longe. E se essas mentiras ainda não continuam hoje?

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