Dexter – O Retrocesso de um Símbolo

de_4

Por Vítor Nery

Historicamente, o lado esquerdo já foi relacionado a inúmeras características, dentre elas: pecado, sujeira, lógica, julgamento e punição. Tratado por seu criador literário (Jeff Lindsay) como “a mão esquerda de Deus”, portanto, o personagem Dexter Morgan seria o anjo da morte da sociedade; aquele que realiza o trabalho sujo. Tanto na plataforma televisiva como na literária, o anti-herói se encarrega de livrar Miami de perigosos assassinos, estes que, devido às falhas do sistema judiciário, acabam por permanecer impunes e prontos para novas execuções.

Nesse contexto, os espectadores são apresentados a um seriado de premissas consistentes e diferenciadas. E não pára por aí. O programa, além de relatar o cotidiano do serial-killer vivendo sob um código elaborado pelo pai, objetivando canalizar seus impulsos homicidas, ainda revela um protagonista cheio de dúvidas e conflitos existenciais – e esse é o maior triunfo de Dexter.

Elucidados pelas narrações do perito forense, tais questionamentos são brilhantes não só por transcenderem a variante psicológica de um sociopata, mas também por criticarem acidamente a nossa sociedade. Afinal, estamos inseridos num mundo onde as pessoas “vivem mentiras”, são hipócritas e se utilizam de divindades e falsas redenções para encobrir e justificar seus erros. Cada indivíduo tem seu próprio “passageiro sombrio” – alguns mais graves, outros, nem tanto.

Após ter em si todas as fichas investidas pelo canal Showtime, contudo, a saga começa a lidar com o comodismo de ter se tornado refém de sua própria fórmula. A necessidade de adicionar à história múltiplos enfoques para agradar o espectador a qualquer custo é o principal elemento que passa a integrar essa equação.

Muito embora o componente citado ajude a reciclar continuamente a trama, munindo-a de vários clímaces, a série perde originalidade e acaba deixando pontas soltas – o que aconteceu ao outro irmão Fuentes após o tiroteio na boate? (5ª T.). Qual foi a origem do comportamento de Jordan Chase? (5ª T.). E o encerramento do plot do Louis, ficou por aquilo mesmo? (7ª T.). Muita coisa se manteve nebulosa.

A partir desse panorama, inicia-se a 8ª temporada. Apesar de ter construído bons momentos envolvendo a relação fraternal entre Dexter e Debra, a última série de episódios trouxe diversas incoerências que impediriam um desfecho digno ao show.

A dra. Vogel, que entrara no seriado para justificar as manifestações sentimentais de Dex, tem seu papel modificado, passando a ser a mãe que o protagonista nunca teve. A mudança, obviamente, acaba guiando o anti-herói para novos e imoderados impulsos afetivos, ultrapassando o limite de aceitação emocional por parte do espectador.

Toda a atmosfera de fechamento que poderia ser impressa à temporada é dispensada em detrimento da temática familiar, que, convenhamos, não leva a lugar algum. Especificamente, personagens outrora proveitosos acabam se inutilizando, a exemplo de Zach e Vogel – esta última, ainda por cima, desnecessariamente conectada ao antagonista.

Incrementando a estrutura da trama com a desvalorização dos personagens secundários, finalizamos a receita para um final fracassado. Os roteiristas, que já não sabiam mais o que fazer com esses caracteres, agora preferem optar por esquecê-los – que fim levaram Angel, Jamie, Quinn, Masuka, Nikki, Astor e Cody? E a Rita, que mal é mencionada a Harrison por seu pai?

Contabilizados os principais infortúnios dos últimos capítulos, pode-se, então, discutir o desfecho problemático da série. O que desagradou à audiência não foi a maneira como ele se deu, mas sim todo o processo preparatório que o antecede. Os espectadores desejavam um encerramento condescendente com os pontos fortes do show, que levasse em conta os principais questionamentos e críticas feitas pelo personagem-título, permitindo-lhe tirar conclusões mais abrangentes e significativas.

Onde foi parar tudo isso? Os fãs mereciam mais que apenas um sonoro “não” como resposta a uma pergunta que, teoricamente, já havia sido respondida ao final da 4ª temporada. Dexter é mais que um psicopata com desejo ardente de se tornar humano. É mais que uma história com início, meio e fim. Dexter é, acima de tudo, a responsabilidade de trazer à tona os diversos aspectos da moralidade humana.

__
Fica aqui o meu adeus à série. Apesar de tudo, os fãs serão eternamente gratos pelas horas de entretenimento.

20 Comments

Leave a Reply

One Ping

  1. Pingback:

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *