, ,


Bling Ring – A Gangue de Hollywood (Sofia Coppola, 2013)

Sofia Coppola cresceu em Hollywood. Ser filha de um dos maiores cineastas norte-americanos lhe proporcionou uma vida diferente. Seu cinema é puro reflexo da sua criação. Os filmes de Coppola só poderiam ser dela. Uma obra que vem sido construída com autoria, onde observamos uma conexão evidente entre todos os seus longas. Assim, qualquer esforço em permanecer nessa unidade soa legítimo – e até um filme pequeno como “Um Lugar Qualquer” toma proporções mais dramáticas se inserido na filmografia da diretora. Dessa forma, Sofia apropria-se duma história real (especificamente, de um artigo publicado na revista Vanity Fair por Nancy Jo Sales) para compor um filme com seu rosto. Bling Ring só poderia ser dirigido por Sofia Coppola, num caso curioso onde uma história real serve ao diretor, e não o contrário.

A trama é simples: um grupo de amigos pequeno-burgueses decidem assaltar a casa de algumas celebridades de Hollywood. De fato, há semelhanças em vários aspectos com o filme Spring Breakers, de Harmony Korine. O estudo da juventude do século XXI está presente nos dois filmes, idem quanto à crítica feroz. Porém, enquanto a denúncia de Korine é silenciosa, refletindo o próprio vazio das protagonistas, Sofia nos apresenta um filme-tese. Enquanto Spring Breakers pode soar, à primeira vista, como um filme de “girls just wanna have fun”, onde a crítica reside mais no olhar do espectador, Sofia Coppola trilha um caminho não menos legitimo. Sua alfinetada é intrínseca ao filme. Se Bling Ring é “moralista” ou “cheio de pudor”, como gritam os críticos mais ingênuos aos quatro cantos, é porque tem que sê-lo, pois renega, justamente, o estilo de vida da juventude contemporânea.

E enquanto filme-tese, Coppola não poupa esforços para defender seu ponto de vista. Afinal, até os personagens são detestáveis, nada sendo feito para reverter-se o quadro. Quando punidos, nós vibramos. Ou seja, não é a eles que Bling Ring se volta. Sua potência está justamente no estudo do seu comportamento. É um filme sobre a futilidade da fama enquanto aspiração de modo de vida. Um processo que se deve, dentre outros fatores importantes, à exposição exacerbada da privacidade das celebridades, somada à popularização dos paparazzi. Assim, os leitores dos tablóides se tornam íntimos das protagonistas das fofocas, invadem suas privacidades e buscam ter o mesmo estilo de vida delas. O prazer não está na pura transgressão, definitivamente. O olhar de Sofia é mais aguçado do que isso. Ora, qual jovem de Los Angeles não desejaria a vida de ostentação de Paris Hilton?

Todavia, Bling Ring vai em busca de explicações para o efeito provocado nesses jovens inócuos, por meio de seus breves, mas esclarecedores, diálogos. Ou, simplesmente, por ações – não se trata dum filme dos mais verborrágicos. Desdobra-se, portanto, a trama dos dois protagonistas, Rebecca e Marc (respectivamente, os talentosos Katie Chang e Israel Broussard) para expandir o estudo. Marc, por sempre ter se sentido isolado e feio, encontra nas roupas de grifes e nos saltos altos um estilo de vida repleto de liberdade. Rebecca, por outro lado, é a típica garota que aspira pela fama per si, pela vida das celebridades pura e simplesmente. Ambos narcisos, paparazzis de si próprios. Roubam e postam as fotos com os artefatos no Facebook para mostrar aos amigos o quanto são descolados.

A câmera é incisiva ao exibir o vazio da existência dos garotos e a artificialidade de suas vidas pela fotografia naturalista e estourada. Parece um verdadeiro reality show. Nos assaltos, as cores quentes produzem o efeito da sedução. De quão atraente podem ser aqueles produtos vazios para uma juventude sem muitas perspectivas e de mentalidade reduzida. É a aberração social produzida pela maior indústria do cinema. Nas baladas, os jovens desfrutam de toda a riqueza adquirida. São banhados por uma pala de cores intensas: gozo fácil, imprudente, sem muito significado, acompanhado por um vazio existencial.

O palco é armado para logo ser desmontado. A fragilidade das relações humanas é exposta, onde melhores amigos se traem. Todo aquele prazer revela-se fugaz. O destino, porém, é doce para os jovens transgressores: a fama é, finalmente, adquirida. O discurso final da personagem de Emma Watson é um tapa. Pergunto-me, por fim: o que a “gangue de Hollywood” acharia da fama proporcionada por um filme dirigido por uma cineasta de renome? Nesse sentido, Bling Ring é involuntariamente irônico.

Comments

Leave a Reply

Leave a Reply

Your email address will not be published.

Loading…

Loading…

Comments

comments