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Gravidade (Alfonso Cuarón, 2013)

Voar, voar, subir, subir

Por Rafael Lopes

De Georges Mélliès a Alfonso Cuarón muita coisa aconteceu no cinema. Nesse espaço de tempo, do pioneirismo do ilusionista francês ao filme do mexicano conhecido pelo seu domínio peculiar da técnica de realizar um filme, toda a evolução do cinema permite o empolgante resultado de Gravidade. É como se tudo o que aconteceu no cinema desde então estivesse se preparando para projetos realmente desafiadores como esse (e que convenhamos há muito não se via), e por ter sido tão bem realizado, merece todo o sucesso que vem alcançando.

A história dos astronautas que ficam à deriva no espaço não é tratada como um conto de superação ou um filme que vá tratar de questões filosóficas e existenciais pondo seus protagonistas no limite. É na verdade, por incrível que pareça, apenas um simples filme de suspense sufocante de duas pessoas que precisam sobreviver. Tanto que num dos poucos momentos de alívio do filme, Sandra Bullock em posição fetal flutuando na Estação Espacial Internacional é como o renascimento dela. No resto do filme, segure-se na poltrona: o bicho pega. Cuarón como poucos domina muito bem a arte de conseguir longos planos sem cortes para atenuar toda a tensão que precisa. Se ele foi tão elogiado por isso em Filhos da Esperança, parece que em Gravidade ele apurou mais ainda essa sua qualidade.

Os primeiros minutos do filme são tão sensacionais que já fazem valer a entrada. A imensidão do espaço e o trabalho cirúrgico dos astronautas em missão num fabuloso 3D de fazer perder a respiração é maravilhoso. E sem cortes, construindo de maneira a la Hitchcock a tensão para a grande reviravolta da trama, o plano sequencia que abre o filme é por demais espetacular. E o que segue ao longo dos 90 minutos do filme é uma tentativa quase narcisista do diretor em mostrar a cada cena seu talento para construir situações que coloquem o público em quase estado de choque. Num de seus momentos mais tensos estamos dentro do capacete da personagem da Bullock e ela tentando por tudo se agarrar a alguma coisa e toda aquela sensação de desespero nos contagia e compartilhamos toda a taquicardia da personagem fazendo realmente faltar ar, como se estivéssemos ali.

Toda essa simplicidade de seu enredo não ofusca a qualidade impressionante do filme. Tanto que rolou aí uma história de um jornalista perguntando como foi filmar no espaço. A simplicidade do roteiro do filme nos faz até desconsiderar os erros científicos que bem da verdade nesse caso não valem de nada como argumento para criticar a obra. E daí se não foi 100% fiel à ciência? Diferente de 2001 Uma Odisseia no Espaço o filme nunca se vendeu assim. E tem aí seu maior mérito. Se vendeu como uma diversão pipoca em 3D e nisso faz valer a investida. Conta com dois dos atores mais carismáticos do cinema (Clooney e Bullock arrasam) e um diretor que como poucos não perdeu sua essência mesmo trabalhando para grandes estúdios. E ver ele ao longo dos 90 minutos se gabando de seu talento em conduzir um filme pretensioso é bem legal. Mélliès aprova.

Enfim, Gravidade é tudo isso mesmo. Não dá pra perder um filme desses e é imperdoável não assistir esse filme senão no cinema. É abrir mão de uma das mais interessantes experiencias cinematográficas em anos.

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*Leia também o artigo da Roberta Figliolino destacando 10 curiosidades sobre o filme. Clique AQUI para ler a publicação.

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