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Jogos Vorazes: Em Chamas (Francis Lawrence, 2013)

Katniss Everdeen plantou esperança nos distritos. Eclodem motins em vários deles. O modo de vida insustentável levado pelos seus moradores provoca revoltas populares. Enquanto na capital existem bebidas que fazem vomitar para que as pessoas possam comer mais (artifício um tanto óbvio, mas bastante ilustrativo), muitos passam fome nos distritos. No segundo filme da série, Em Chamas, o casal vencedor dos jogos tem de fazer um tour pelos 13 distritos para anunciar a chegada dos 75º Jogos Vorazes. A fim de sabotar a jovem Katniss, que representa um símbolo de resistência para o povo, o presidente Snow (Donald Sutherland) decide que os tributos do da nova edição dos jogos serão escolhidos entre os vencedores dos distritos nos anos anteriores.

Se no primeiro filme a ação se desenvolvia por mais tempo, o foco político é muito maior nesta continuação. Parece que já nos acostumamos com o sistema coercivo e opressor no qual vivemos, sendo que a série cria uma caricatura pra nos evidenciar uma realidade nossa. Ora, não percebem isso justamente aqueles que possuem as condições financeiras para pagar por uma sessão de cinema, atividade cada vez mais cara. Assustamo-nos com o figurino e a direção de arte escrachados da Capital em detrimento dos farrapos vestidos pelos pobres, mas não vemos isso como uma alegoria para a desigualdade geral no mundo. A diferença é que naturalizamos isso porque convivemos lado a lado com a miséria, enquanto na obra o pobre fica distante do rico. Ou seja, o espectador sequer percebe que Jogos Vorazes é sobre ele, também possivelmente um dos moradores alienados da Capital. A barbárie promovida no reality show enquanto forma de opressão encontra ecos na força exercida pela publicidade na sociedade de consumo, por exemplo. Podemos divagar sobre a obra traçando paralelos entre a repressão policial nas favelas com a truculência dos policiais do filme.

Todavia, se o cenário chama atenção, a adaptação encontra suas forças, novamente, na protagonista. Enquanto no primeiro o drama se intensificava pela sobrevivência por si só, há um sentido político-social na sobrevivência de Katniss neste filme pelo que ela simboliza. Se o fascínio advém da força da garota contra a classe dominante e seus mimos (note o excesso de purpurina ofuscando a beleza rústica de Jennifer Lawrence), enfrentando todos os perigos, o roteiro escrito a quatro mãos explora todas as suas fraquezas. Ela não tem certeza se o que está fazendo é correto, a princípio. Se deveria ter morrido, de fato, pelo bem comum. Não é necessariamente uma ativista ou um ser político, passando a sê-lo com o tempo, mas sua revolta é intrínseca. Ora, as dúvidas têm de ser plantadas na personagem, para que, embora turrona, encontre-se vulnerável em face aos obstáculos constantes e com ela possamos nos identificar.

Alicerçando Katniss – narrativamente e na própria trama – surgem personagens curiosos. Philip Seymour Hoffman consegue ser o mais ambíguo possível o tempo inteiro, saindo do seu personagem usual de cinquentão acabado e deprimido. Peeta, interpretado pelo insosso Josh Hutcherson, consegue sair do papel de bobão para tomar algumas atitudes decisivas e realmente corajosas. Woody Harrelson, como de costume, nos diverte com uma atuação espontânea e altamente irreverente. Além disso, os tributos novos são personagens fascinantes.

É claro: falamos de Hollywood. E o filme tem que se virar para vender. Jogos Vorazes é esperto, enfim. Todo esse romance entre Katniss e Peeta é manobra para enganar bobo – tal qual os jogos dentro do universo diegético. Inclusive, para vender o material para jovens reacionários que não conseguem extrair nada deste blockbuster. Perceba que o namoro da heroína jamais é aprofundado, por exemplo. Não é essa a ideia do filme, afinal.

De fato, Jogos Vorazes: Em Chamas é um filme romântico. Aliás, disso tenho certeza. Politicamente romântico.

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