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Inverno da Alma (Debra Granick, 2010)

O gelado coração humano

Por Rafael Lopes

Inverno da Alma provavelmente deixará em aberto alguns detalhes. Seu maior mérito provavelmente seja esse. Ao encobrir tudo isso, abre espaço para que a história da jovem Ree seja além do que se vê. Junto com o filme, cresce uma atmosfera realmente difícil. Há violência, há descaso, há tudo de ruim, exceto piedade. Ela vive com seus dois irmãos pequenos, por quem demonstra um cuidado realmente maternal, e vive também com a mãe doente. As dificuldades são obvias, mas a verdade é que nunca, nenhum deles, fez mal a alguém.

Os problemas deixados pelo sumiço do pai complicam toda a situação. Como garantia do pagamento de sua condicional, ele deixou a propriedade da família, que na verdade nem é lá tanta coisa, e que, nem de longe justifica a liberdade dele. Perder aquela casa pode significar o fim para a jovem Ree, que como todo mundo, tem sonhos e quer viver. A necessidade de encontrar uma forma de continuar com a sua casa a leva a confrontar com os erros do pai. Ela desafia o silencio e o mistério que envolve tudo isso, só que quanto mais profundo ela cava nisso tudo, vai descobrir algo que está fora de seu controle: o mundo real.

E quando se diz mundo real, se diz aquele mundo que cobra caro por suas lições, o mundo que impõe dificuldades e medo, o mundo que não alivia. É nesse contexto que justiça, lei, fé, esperança, tudo é questionado e confrontado, e sem dó, nem piedade, como a vida da menina tem sido. Seria onde ela cederia às pressões. Mas acabou sendo onde demonstrou toda sua força. Inverno da Alma bem como a estação em que se passa, é um filme frio e que exige frieza, pois é pancada e revelações a todo instante, e é preciso estar preparado.

Não é um filme que vai tratar de fatores externos, de fatores da natureza, que imponham toda uma rédea nas pessoas e às controlam, mas vai falar sobre o íntimo e sobre o psicológico. Ree é uma personagem rica e muito bem explorada. Sua coragem e determinação são o que movem o enredo. A brilhante interpretação de Jennifer Lawrence asseguram a força que ela tem, e é preciso ser forte para suportar aquilo tudo. A problemática família, o passado obscuro do pai e o que ela tem a viver mas não pode, são com precisão cirúrgica explorados pela diretora Devra Granick, que não alivia.

O clima pessimista e muito bem em contraste com o inverno do lugar vão dando espaço a um ar sufocante e claustrofóbico aonde medo, tensão e em certos momentos conformação vão se juntando e criando a atmosfera perfeita para a trama. Adentrar naquele ambiente, onde drogas e descaso social imperam descontroladamente, atestam ineficácia de um governo que vive mascarado com progresso e superioridade. Seja por meio de um sonho, onde Ree é comparada a esquilos perdendo suas árvores ou a frieza devastadora de ter seus sonhos impedidos porque legalmente ela não pode fazer do dinheiro oferecido pelas forças armadas uma alternativa para resolver seus problemas.

E entre surras, ameaças e a dura realidade, o momento onde encontra seu pai é o ápice do filme – e uma cena bastante angustiante. Ali todos os extremos da protagonista são alcançados, porém, não há redenção nem nada do tipo, pois durante todo o filme, ela não foi agente de nada, apenas vítima de tudo o que há em sua volta, seja o lado da lei, seja o lado obscuro da sociedade, ela apenas foi jogada ali e precisou achar um modo de escapar. Ree é uma condenada, e precisa lutar para dar a volta por cima, e essa forma, mesmo que cruel demais, é o único jeito de encontrar a sua liberdade.

O mais interessante está em como a diretora consegue fazer essa pegada intimista brotar dentro de um conto de thriller. A forma como constrói a tensão – e que vai gradativamente afunilando a vida de Ree – não deixa de levar em consideração o que ela pretende. O inverno como pano de fundo para a frieza de um mundo tão selvagem é o que demonstra todo a maravilha e humanidade existente em Ree. É claro que ela poderia se igualar a todos aqueles que a rodeiam, há drogas oferecidas pelo próprio tio, há a oferta de ela deixar seu irmão ser cuidado por uma família, há a oportunidade de vingar as crueldades que fizeram com ela, entre outras coisas.

Só que a força que a protagonista demonstra é o que faz aparecer dentro de toda essa atmosfera suja e cruel, uma pontada de esperança e fé, mas não em um mundo melhor e sim nas pessoas. Essa mensagem, acima de tudo, assegura a força que esse humilde – porem riquíssimo – filme tem conseguido.

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