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Ninfomaníaca Vol. 1 (Lars von Trier, 2013) – II

Um espectro ronda os cineastas desde sempre: a crise autoral. Em um dado momento na vida, um diretor de cinema poderá cair na bobagem de querer reafirmar seu estilo, imprimir sua marca. A Origem, por exemplo, é um filme que sofre disso, onde percebemos o quanto Christopher Nolan se desespera para consolidar uma identidade cinematográfica. Parece-me que Lars von Trier, o marqueteiro maior do cinema (mais até do que Cláudio Assis), afundou-se nessa busca há alguns anos, atingindo seu auge em Ninfomaníaca.

Na primeira parte deste filme, dividido em dois por fins comerciais, von Trier narra o passado da vida de Joe (Charlotte Gainsbourg, adulta, e Stacy Martin, jovem), através dum diálogo entre a protagonista e Seligman (Stellan Skarsgård). Desde sua infância, acompanhamos o desabrochar sexual de Joe, sua adolescência sexualmente intensa e todos os seus affairs até o momento em que ela perde a capacidade de “sentir algo” – o gancho para a segunda parte.

No meio dessas narrações sexuais, Lars von Trier busca sempre associações imagéticas. Se a personagem comenta sobre uma maçã, não tem erro: a fruta aparecerá na tela. Como se estivesse a brincar, sem muito sentido narrativo, pura firula de um diretor em crise. A sequência dos pintos, por exemplo, é puro choque pelo choque. Ora, qual o propósito da metáfora da pesca além de uma mera associação entre pesca e sexo por si – o que nunca se embasa ou diz a que veio, exceto reafirmar a personalidade astuta de Seligman? Dessa maneira, o veterano diretor dinamarquês, talvez afetado por essa histeria autoral, comete um erro pedestre: a Joe adulta apenas narra o que vemos na tela. Ou seja, para quê narração? É um pleonasmo incômodo. Se vemos uma cena de sexo, ela não precisa ser contada por ninguém. Porém, travestido de estilismo, pode mesmerizar os mais deslumbrados com o diretor. Na busca pela autoria, o cineasta é capaz, inclusive, de tentar emular Tarkovsky – o que alguns dirão ser muito original.

Há uma grande diferença entre von Trier e Ingmar Bergman, por exemplo. Enquanto o sueco filma apenas a confissão, sendo esta a catarse por si só, a fim de que o espectador possa pensar por conta própria, o dinamarquês cerceia nossa interpretação. No mundo de Lars von Trier, psicólogos passariam fome. Todos os personagens do filme são bastante inteligentes, capazes de se auto-analisarem de forma apurada – com Joe se auto-diagnosticando como ninfomaníaca, inclusive – e de dissecar o próximo, buscando até mesmo as origens patológicas da personagem em sua infância. O diretor precisa aprender que há algumas coisas que devem ficar para o público.

Se todo esse didatismo incomoda, o mais cômico mesmo são as ligações forçadas tecidas pelo roteiro. Desculpem-me, mas há poucas coisas mais broxas do que associar o sexo à sequência de Fibonacci. A pseudo-esperteza do diretor é facilmente quebrada quando percebemos a ausência de sentido na correlação. Essa frigidez é corroborada pela fotografia de tons pastéis, deixando o filme ainda mais seco. O que poderia ser um reflexo narrativo da personalidade da própria personagem, teoricamente muitíssimo racional. Ainda assim, o filme se trai porque, pelas nuances de Joe, observamos que ela é extremamente emocional e sente prazer no sexo, em contradição com a fotografia sem vida. Assim, o tom insípido adotado destoa das cenas em absoluto.

No elenco, Charlotte Gainsbourg e Stellan Skarsgård brilham em suas curtas aparições, enquanto a insossa Stacy Martin ao menos convence no papel de ninfeta, sendo fruto da frieza do filme. Shia LaBeouf permanece o mesmo canastrão de sempre. E Uma Thurman está hilária, protagonizando a melhor sequência da obra.

Sem a sua sisudez costumeira, Lars von Trier volta, pelo menos, sabendo rir de si mesmo por meio de uma série eficiente de cenas cômicas. O que não salva Ninfomaníaca de ser uma completa bobagem de um cineasta cada vez mais dominado por seu ego enorme. Auto-indulgente, esse soft-porn faz com o sexo algo parecido com o que Christopher Nolan faz com os sonhos em A Origem: mecaniza e racionaliza tudo. Pode ser impressionante… para os impressionáveis.

Obs.: esta é a segunda crítica do filme no Cinetoscópio, por isso o “dois” do título.

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