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O Lobo de Wall Street (Martin Scorsese, 2013)

Se pode soar repetitivo dizer que a influência católica no cinema de Martin Scorsese é determinante, fica latente o senso de moral em toda sua obra. Em Caminhos Perigosos, por exemplo, há o retrato do submundo gangster de Nova York, com uma visão extremamente religiosa – observada tanto no discurso do personagem de Harvey Keitel como na própria linguagem do filme, em especial na sua fotografia vermelha e pecaminosa. Quando soube da sua adaptação de O Lobo de Wall Street, achei estranho, levando em conta a carreira do diretor. Enganei-me. Não há nada mais natural do que este ser um projeto de Martin Scorsese. Profundamente baseado na moral, feito toda a sua obra – falamos dum grande aprendiz de Elia Kazan, afinal.

Não confundam: O Lobo de Wall Street não é um filme moralista, que isto Scorsese nunca foi. O que há é a moral inerente ao tema. O diretor não precisa, de fato, julgar o personagem, já que ele constrói sua sina e o espectador, inevitavelmente, irá julgá-lo. Há uma evidente condenação dos excessos. Justamente por isso os conservadores norte-americanos não apreciaram a obra: o nova-iorquino escancara tudo o que a sociedade estadunidense não gostaria de encarar sobre si. Diferentemente do que a crítica de cinema reacionária aponta, não trata-se da glorificação de um certo estilo de vida. Não há conivência com Jordan Belfort, o protagonista. Se Scorsese filma a luxuria, é porque ela existe. E o faz armando o cenário para a completa decadência. É algo parecido com Os Bons Companheiros: mostra-se o ápice para a inevitável queda.

Escrito por Terence Winter (produtor executivo de “Boardwalk Empire”), baseado na autobiografia escrita pelo próprio Belfort (interpretado por Leonardo Di Caprio), o roteiro conta a história dum rapaz de classe média baixa que transforma-se num grande magnata de Wall Street, abrindo uma empresa de corretores de títulos de valores, especializada em ações-tostões, assim chamadas pelo seu baixo valor, onde a comissão para o vendedor é de 50%.

Jordan Belfort é um personagem absolutamente detestável. Dito isso, suas atitudes são mesquinhas e meramente movidas por dinheiro. Seu emprego é, basicamente, roubar dos outros para enriquecer. O excesso de drogas consome sua relação familiar. Seus discursos eloqüentes, à moda de um pastor evangélico, disfarçam sua fragilidade. Ou seja, alguém difícil de se afeiçoar. Para contornar isso, Scorsese aposta num voice-over que nos coloca dentro da cabeça do protagonista (recurso muito utilizado em sua filmografia), acompanhando sua linha de raciocínio, o que permite inúmeras piadas com isso ao imaginar o pensamento dos personagens, contraposto ao que falam. Além disso, a quebra da quarta parede, ou seja, a comunicação direta com o público, aproxima o espectador do personagem, fazendo nos sentirmos íntimos e vítimas de uma suposta honestidade discursiva.

Acompanhando toda a loucura do protagonista, Scorsese permite-se brincar um pouco, girar a câmera, colá-la em DiCaprio cheirando pó. Tudo captado em cores muitos berrantes – o que muda radicalmente no terceiro ato, onde a fotografia, inclusive, torna-se muito mais sombria, devido ao caráter descontrolado, machista e violento que o protagonista assume. Thelma Schoonmaker, habitual parceira do diretor, monta o filme de maneira que três horas passam muito rápido. Esse, porém, é o menor de seus méritos. Há muito não se via uma relação tão complexa e harmoniosa entre música e montagem como em O Lobo de Wall Street: enquanto toda a freneticidade impressa na obra não recai em cacoetes do cinema moderno (à lá Ipod), a trilha sonora, escolhida a dedo pelo diretor (de Cream a Foo Fighters!), guia o decorrer do longa. Se “Spoonful” pode aludir significativamente a drogas, outras canções, como a utilizada na sequência do telefone, trazem uma fina ironia ao filme – e observe como, no momento em que há um diálogo nesta canção, corta-se para um ambiente que não o habitual onde ela é executada. Além disso, responsável pelas mudanças de ritmos duma cena para outra, consegue provocar, diga-se, humor com a música, interrompendo-a num momento chave para provocar um efeito cômico.

Aliás, poucas vezes Scorsese esteve tão ácido – e histérico (no melhor sentido possível). Numa construção de humor complexa, passando por várias vertentes, o diretor permite-se brincadeiras como a cena em câmera lenta de Jonah Hill tendo uma trip, a qual funciona justamente porque não há nada de tão grandiosa nela – enquanto a montagem a trata dessa forma. Já o humor físico – neste sentido, Scorsese bebe muito em irmãos Marx e Harold Lloyd, por exemplo – é empregado sempre de maneira inteligente, como prova a antológica sequência da “viagem” dos personagens num momento absolutamente inapropriado – e essas “trips” são utilizadas a esmo para provocar humor, sempre com eficácia. Mais uma vez dando aula de narração, Scorsese vale-se das observações de Belfort para criar comicidade, sendo um bom exemplo uma sequência na qual a percepção do personagem é alterada por droga. E quando nos deparamos com a realidade, diferente do que ele narra, o choque cômico é imediato. O efeito narrativo do humor é essencial para a obra. Embora alguns personagens e situações sejam inevitavelmente engraçados por si só, o humor nos insere ainda mais no universo caótico retratado na obra, a ponto de perdoarmos (quase) todos os atos repreensíveis dos personagens, ao menos momentaneamente – algo fundamental para a fluidez da narrativa.

Com timing preciso, o elenco consegue se superar – e refiro-me a praticamente todos os atores. Contando com uma gama de coadjuvantes brilhantes, quem brilha mesmo é Leonardo DiCaprio. Compondo seu personagem como um sujeito cínico – sua palestra de “despedida” é reflexo disso – e com um discurso quase messiânico, o ator entrega sua melhor performance, acertando na comicidade do personagem e em sua histeria, sendo visceral quando Belfort revela-se um monstro. Jonah Hill, por sua vez, está melhor do que nunca, interpretando um personagem um tanto patético que se transforma num milionário e fica ainda mais imbecil, sendo que só ele se leva realmente a sério – e seu sorriso tapado é hilário. Ademais, Matthew McConaughey rouba a cena sempre que aparece.

Ridicularizando por completo o protagonista, Martin Scorsese condena todo o “sonho americano”, os excessos dos magnatas e os roubos dos “lobos” da Wall Street. Dessa vez, os personagens retratados pelo diretor soam mais perversos e condenáveis do que os mafiosos de seu cinema. Absolutamente, o melhor Scorsese em tempos.

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