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Virgínia (Francis Ford Coppola, 2011)

Embora os cineastas da Nova Hollywood (Martin Scorsese, Steven Spielberg, Robert Altman, Peter Bogdanovich, William Friedkin e, dentre outros mais, Francis Ford Coppola) estivessem rompendo estética e mercadologicamente com uma Hollywood engessada e dominada por estúdios, bebendo muito na fonte da Nouvelle Vague francesa, havia algo saudosista em relação ao clássico cinema norte-americano. Reinventavam os filmes de estúdio, mas sem abandoná-los completamente. Afinal, muito do cinema dos jovens cineastas marginais devia aos velhos dinossauros, vários deles já mortos à época. Não por acaso, essa nostalgia, demonstrativa do profundo conhecimento do cinema por parte dos diretores egressos da Nova Hollywood, perpetua-se até hoje. Coppola, por exemplo, saudara o melodrama em seu penúltimo filme, Tetro.

Em “Virgínia”, o diretor retoma, de maneira bem peculiar, os terrores linha B dos estúdios hollywoodianos. Escrito pelo próprio Coppola, o roteiro conta a história do autor de uma série best-seller de livros sobre bruxaria, Hall Baltimore (Val Kilmer), que vai para uma pequena cidade fazer uma sessão de autógrafos de sua obra. Chegando lá, se depara com um xerife (!) bastante excêntrico, Bobby LaGrange (Bruce Dern), que lhe propõe co-escrever um livro sobre um misterioso caso local. O que a princípio soa apenas oportunista se mostra uma verdadeira preciosidade literária.

Coppola não desdenha do gênero B. Todavia, vale-se de todas suas características e cacoetes para provocar humor, justamente porque sabe que tudo isso parece muito anacrônico atualmente. Engana-se quem pensa que o diretor é desleixado. Ele sabe muito bem o que faz. Na apresentação da cidade, com uma narração meio sinistra falando de todos os mistérios do local, não há terror. É propositalmente cômico. Existe o xerife estranho, o escritor melancólico (meio álcoolatra e amargurado pela vida, no que o tom apático de Kilmer provoca um efeito inevitavelmente humorístico), um grande mistério e os cidadãos que pouco sabem sobre ele. Toda essa cafonice, essa estética kitsch com cores vibrantes, tornam árdua a tarefa de levar o filme a sério – e a intenção é justamente essa. Coppola se apropria dos clichês do gênero para fazer chistes, brincar de fazer cinema, testar o espectador para saber onde acaba a piada. É anunciando sempre algo sinistro, com a névoa permanente e a trilha fantamasgórica, que nunca se concretiza muito bem. E quando o faz, de maneira bastante caricata, que o diretor constrói seu humor.

Se o filme recorre ao cômico justamente por não se levar a sério e tornar tudo bem caricato, fragiliza-se, claro, quando se leva a sério demais. Coppola começa a se perder em toda sua pretensão. Resolve, de uma hora pra outra, aprofundar-se no personagem, algo desnecessário por falarmos dum filme que brinca com gêneros. Bastava o arquétipo para a fórmula funcionar. Uma vez que se propõe ao desenvolvimento maior do personagem, porém, gera a cobrança. E o resultado é dos piores, já que todo seu drama é tratado com um tanto desleixo, sendo toda a confusão mental do personagem risível, deixando o espectador totalmente perdido dentro da megalomania do diretor. Assim, toda a fotografia sombria, os filtros exagerados e caricaturais e o cenário estranho se desmancham, perdendo o seu propósito por ficarem sérios demais. E a vergonha alheia bate forte. Ou seja, esse tom cartunesco, definitivamente, não combina com, por exemplo, uma sequência tão forte como a de Elle Fanning com o padre. E, quando o roteiro ameaça retomar toda a gozação, com uma sequência quase surreal no fim, nos surpreende (negativamente!) trazendo à tona a realidade.

Não que a pretensão de Coppola arruíne todo o filme. Longe disso. O que impera, ainda, em Virgínia, é seu bom humor, sua homenagem, seu saudosismo. Um filme, afinal, fundamentalmente para cinéfilos.

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