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Ensaio de um Crime (Luis Buñuel, 1955)

Ensaio de um Crime (Luis Buñuel, 1955)

Por Rafael Lopes

A cena inicial de Ensaio de um Crime é antológica. O mimado Archibaldo assiste à morte de sua babá. Mas note que, ele sente prazer nisso. Explode aí ideias de descobertas, realizações e sexo. Sim, sexo. O protagonista sente na presença da morte da babá um prazer imenso, uma sensação que lhe deixa realmente extasiado. Encantado com uma história que a moça havia lhe contado, tudo o que ele mais queria era ver seus malévolos planos de matar alguém sendo realizados. Ele cresce e vira um homem cheio de posses e influencia, e após uma tentativa frustrada de matar uma freira, decide se entregar à polícia pelos crimes que se culpa por ter cometido. Um flashback e a vida de desastres de Archibaldo – com um humor negro delicioso – proporcionado pelo louco genial Luis Buñuel é um deleite. Aproximadamente 90 minutos de um estudo de uma mente perturbada que cativa e surpreende, assusta e involuntariamente nos faz rir.

Baseado na obra de Eduardo Ugarte (o qual queixou-se no sindicato dos roteiristas por não ter gostado do resultado final), o filme fala de muita coisa de uma maneira que só mesmo o cinema para fazer – e a genialidade de Luis Buñuel para por em película. Cenas metaforizadas, diálogos ácidos, reviravoltas e conclusões que de tão absurdas são geniais na mesma proporção, e tudo que o cinema do espanhol costuma proporcionar.

Algo que devemos admirar nos filmes dele é justamente como ele consegue construir tensão com coisas improváveis e como ele consegue nos chocar com fatos do cotidiano. Logo no início do filme, ao mesmo tempo que o sangue escorre do pescoço da pobre babá, ele corta para suas belas pernas e olhamos a pobre com o mesmo olhar do jovem Archibaldo. A sensação que ele nos faz ter de tudo isso é justamente o que ele quer com seu filme. Fazer um corte com lâmina de barbear ser o início de uma doentia fome de matar e o simples fato de ele se livrar de uma caixa de música (dado pela sua mãe e que ativa seu lado “assassino”) fazendo-o abandonar esse perfil, é fabuloso.

E o caminho percorrido até esse resultado, é mais intenso ainda.

Ernesto Alonso personifica o Archibaldo mais velho. Frio e calculista na medida certa, seus olhares e mudanças bruscas de feição denunciam a mente criminosa que nunca teve a oportunidade de concluir sequer uma de suas matanças. E enquanto ele planeja os crimes e, sem sucesso, vê suas possíveis vítimas morrendo de maneiras tão engraçadas, o diretor escancara temas, assuntos e idéias em boa parte das cenas.

Em um dos momentos mais incríveis do filme, Archibaldo queima um manequim idêntico a uma mulher que tentara matar, e as sensações que ele imprime, quase uma masturbação macabra, assusta e nos faz rir. Mas rir de que? Tudo o que o personagem título faz é saciar uma vontade ou necessidade que lhe traga prazer. É como os chocólatras e sua fome insaciável por chocolate, masoquistas, enfim, todos os prazeres individuais de cada um. Abordando temas difíceis como sexualidade e fraquezas que nos tornam mais humanos, cada frame do filme nos põe contra a parede, surgindo aí uma crítica não muito dura, porém muito direta ao que ele quer cutucar. Incomodados, sei que muitos ficam. E ele atinge isso com maestria e maturidade, o que faz seu cinema de longe soar gratuito ou pesado demais. Sem contar o cuidado estético que consegue imprimir a todo momento.

O diretor que usufruiu bem de sua fase mexicana, entrega um filme denso e corajoso, que prima pela usual ousadia que tanto fazia questão de por em seus filmes. O legado de Buñuel influencia e encanta até hoje. Sua obra imortal ainda atinge os propósitos dele. Ver Ensaio de um Crimeou qualquer outro filme dele, certamente trará ao expectador alguma inquietação própria, algo que atinja seu íntimo e lhe faça perceber que não há como se esconder de trás de uma carapuça. Sempre o que se passa dentro de si e o que se faz na penumbra da vida, terão suas conseqüências. No caso de Archibaldo, ele as sente quando se vê envolto de suspeitas de traição, quando não consegue ter a oportunidade de realizar um de seus atos e isso o faz sofrer calado. O fato de o protagonista fazer jarros é, na verdade, uma terapia para não se ocupar pensando em como matar alguém. Suas frustrações são a verdadeira piada dentro do filme. Somos marionetes de nós mesmos.

O único problema, no entanto foi arrastar demais alguns momentos. Ainda que o diretor seja claustrofóbico e construa um clímax para depois rir de nossas caras quebrando todo esse clímax, alguns momentos são um pouco chatos e pode rolar aí uns bocejos, mas nada que comprometa a apreciação. Você não escapa das alfinetadas do espanhol. O filme é humano, nota-se pelo empenho dos atores, todos ótimos. O mulherio mais ainda. O charme das mulheres é incrível (nada discreto ou burguês demais *BADUMTSS*), suas falas, trejeitos, gracejos, curvas, tudo nelas bem aproveitado e mostrado. Os homens no filme são ocos, fracos, seria esse o público alvo do filme?

A direção é maravilhosa. Cada quadro surge uma coisa que nos faz acompanhar o filme já esperando a próxima brincadeira que o diretor fará. E o México, valorizado em seus detalhes mais encantadores, sua arte e sua arquitetura exaltados em passagens no filme. Ele não deixou escapar nada. E com ousadia e de maneira até brincalhona, nos pondo um espelho do que há por trás da pele que vestimos para viver aos olhos de uma sociedade (e no fundo se algo até em partes completamente diferente), o diretor põe em sua filmografia mais um baita filme.

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*Assista o filme no Youtube, legendado e com ótima qualidade clicando AQUI!

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