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Depois de Horas (Martin Scorsese, 1985)

Por Rafael Lopes

Esse é o tipo de filme que após o termino fica a constatação: somente Martin Scorsese poderia dirigi-lo. Depois de Horas é um filme aparentemente tão inofensivo e calmo que é totalmente surpreendente ver o filme moldando todo um caráter politicamente incorreto de maneira genial. É o ponto de partida para fazer Depois de Horas figurar entre os trabalhos mais singulares do diretor. No início, um pouco da enfadonha vida de Paul Hacket (Griffin Dunne), um cara que trabalha num escritório e ao que tudo indica, pouco consegue sair daquela monotonia. Num café, lendo Tropico de Capricórnio, de Henry Miller, conhece uma moça que transformaria sua noite num grande rebuliço.

Ao marcar um encontro com ela (vivida por Rosanna Arquette), tudo na vida do cara começa a dar errado. Entre dinheiro voando pela janela do táxi – e acreditem, é o mais leve dos azares para ele – e ser confundido com um ladrão, Paul vai ver que as noites pelas ruas escuras de Nova York muita coisa pode acontecer, e é a partir desse pretexto que Scorsese desenha uma das tramas de encontro e desencontro mais geniais do cinema. Como cenário, claro, a já citada Big Apple, algo que Scorsese decididamente ama, principalmente o subúrbio, é magnífico o seu trabalho de imersão e apresentação daquele universo. Sobra até uma referencia a Taxi Driver, uma de suas obras primas.

Mas em Depois de Horas o enfoque é outro.

Ele não fica mostrando aquele lado da cidade pelos olhos de um protagonista, mas decide por o espectador dentro dos bueiros, dos bares, das lanchonetes, das ruas, das boates e até das casas. A visão que nos oferece daquelas personagens nem de longe parece caricato, muito pelo contrário, é uma versão das paranoias da cidade grande, algo que transformou Travis (Robert DeNiro em Taxi Driver) em um “justiceiro” nos conturbados anos 70, e nesse caso, transformou toda a população dos liberais, brega e tecnológicos anos 80. Adentramos uma boate punk – com direito a Martin Scorsese “iluminando” todo mundo – com a mesma naturalidade de ver um casal gay se beijando tranquilamente.

Essa aparente falta de pudor é uma arma mortal nas mãos de Scorsese, que consegue com esse artifício criar a realidade da maneira que só ele consegue sem perder o enfoque no fator cinema. Une essa criação fantástica de realidade em meio a todos os truques que o cinema ensina. Essa brincadeira leva a uma estrutura narrativa impecável, que só tende a fazer o filme crescer a cada cena. O melhor talvez, fica por conta do flerte com a fantasia, o que da mais liberdade para que Scorsese com seus personagens desenhem um mundo completamente paralelo ao mundo real, mas que não abandone suas raízes na própria realidade. É como ver fantasia coexistindo pacificamente com o mundo real.

O brilhantismo para criar toda essa atmosfera é tal, que o filme voa, num roteiro redondinho, com reviravoltas bem encaixadas e tudo com ligações bem orquestradas. Scorsese além de dar forma a isso consegue com sua maestria dominar muito bem os limites entre o que é e o que não é e faz disso a cereja do bolo. Sua direção é tão aparentemente simplista, mas é só atentar aos detalhes e perceber toda uma riqueza escondida que o diretor consegue explanar sem desviar os focos do filme. Depois de Horas vai caminhando e se desenvolvendo quase com vida própria, no que se pode chamar de um grande trabalho de atmosfera, criado por Scorsese.

É um filme de certa forma diferente em sua filmografia, pois não se envolve com mafiosos e nem crime, mas enxerga em toda a paranoia da sociedade careta americana um ótimo argumento pra sair metralhando piadas no melhor estilo humor negro. O desfile de sujeitos, trejeitos e tudo mais, muito bem captado pelas câmeras do diretor e soberbamente interpretado por seus atores só tende a somar ainda mais com o filme. E o mais legal é poder junto de Paul, Martin Scorsese e Cia, ter uma visão tão ampla de tudo e com isso ver que Depois de Horas, tudo pode acontecer.

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