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Cidade de Deus (Fernando Meirelles, 2002)

Por Rafael Lopes

No emblemático início de Cidade de Deus, Buscapé dita a regra: naquele lugar, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Encurralado, com os bandidos fortemente armados na sua frente e a polícia nas suas costas, fica como a galinha que escapou minutos antes para sobreviver e também estava ali. O filme todo é isso, uma sucessão de encontros e desencontros, personagens e mais personagens interagindo e contando uma mesma história, a história daquela favela.

Mas dessa vez, sem ser pelos olhos de um bandido ou pelos olhos de um policial, que ofereciam lados opostos de uma mesma guerra, aqui tudo é mostrado aos olhos de um garoto, que tem o sonho de ser fotógrafo e se ver livre daquele inferno todo. Os olhos do garoto nas lentes lhe oferecem boas oportunidades, mas a vida que ele leva acaba lhe mostrando o caminho oposto. Filho de peixeiro, trabalhando desde cedo, lidando com o fato de ter um irmão bandido e a pobreza que leva alguns infelizmente a esse caminho. A fase anos 60 do filme é exatamente isso, um panorama social de como a Cidade de Deus se tornou um lugar esquecido por Deus.

Com o descontrole populacional, onde ricos e pobres e cartões postais brigam por atenção, os menos favorecidos acabam nas favelas e os ricos aproveitam o que a cidade tem de melhor, e isso sem fazer dos cartões postais cariocas lar de marginalizados. A idéia era perfeita, pôr todos eles num mesmo lugar e pronto. Mas de que adianta isso? Sem oferecer qualquer perspectiva àquela gente, suas crianças crescem a mercê de qualquer coisa.

Os anos 70 mostram bem a falta de controle. A boca do Apê e sua história são a chegada do tráfico e do crime organizado. A cada vez mais milionária venda de tóxicos, transformam o aspirante a bandido Dadinho no temido Zé Pequeno, destinado a ser grande segundo a umbanda, que comanda a favela inteira, exceto a área do Sandro Cenoura.

É de conhecimento de todo mundo, mas no meio de uma polícia que sobe para vender arma e receber dinheiro para não agir, de que adianta denunciar? E nisso, Zé Pequeno consolida sua fama, só que a paz da favela está por um triz. Afim de sempre ter mais e mais, Zé declara guerra a Sandro e os dois lados vivem em constante conflito, que só piora quando Bené, seu melhor amigo, aconselhador e quase um irmão, é assassinado. No meio de tanta briga, a única coisa que pode explodir é ódio. Histórias de vingança como a de Mané Galinha, cara gente fina que acaba entrando pro movimento apenas para se vingar, ou o menino que quer matar o assassino de seu pai, oferecem um estudo sobre o funcionamento desse sistema todo.

Ao mesmo tempo, enquanto testemunha tudo isso, Buscapé quer perder a virgindade, arrumar um emprego, viver a vida, mas tudo isso sempre conflitando com o fato de estar lado a lado convivendo com bandidos, traficantes e guerra. Cidade de Deus é facilmente o filme definitivo sobre favela.

Favela não é só bandido e policial corrupto e violência, como infelizmente alguns filmes fizeram entender, mas é um lugar com gente honesta e correta, que infelizmente está sempre sob a ameaça de perder a vida por causa de nada. A câmera rápida e movimentada de Fernando Meirelles conta não apenas o nascimento daquela favela, mas os fatores são bem trabalhados e em momento algum deixam parecer se tratar de algo documental, mas sim um relato sincero de um caos urbano.

A fotografia e a direção de arte excepcionais desenham muito bem essa imagem, tudo feio, bagunçado, mas sem soar estereotipado. Na verdade é uma conseqüência do fabuloso trabalho da equipe técnica do filme, que fez com que fosse muito bem captado essa aura tensa e pesada de uma favela, conseguindo fazer com que quem assiste se sinta imerso dentro de tudo aquilo e absorva o que quer ser dito. Obedecendo a lei de que a natureza transforma o indivíduo, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come, o filme vai fundo na ideia de que se o individuo tivesse ao menos a esperança de ser melhor, talvez não existiria tanta violência. As crianças da parte baixa estão lá para provar. Há ódio em seus olhos, há ódio em suas falas, há ódio em tudo o que vêem. Mas porque?

O ritmo frenético que a edição maravilhosa e a direção veloz empregam vai muito bem desenvolvendo cada personagem importante, cada história que mereça destaque, cada situação de encontros e desencontros, tudo bem encaixado e sem enrolação. As cenas de ação muito bem orquestradas e a direção de elenco primorosa passam o ar de verdade que o filme tem de uma forma arrebatadora. Por esse motivo, é o filme definitivo sobre favela. Conseguiu ser realista e cinematográfico ao mesmo tempo, coisa que muito filme se aventurou e não conseguiu ser.

Mas além da técnica muito primorosa, há de se destacar o trabalho do elenco. Meninos tirados das favelas cariocas, que enfrentaram muito tempo de preparo e entregaram atuações espetaculares. Ninguém é mais estrela do que ninguém, todos tem sua chance de aparecer, todos desempenham muito bem seus papeis. Por isso não dá de enxergar um ou outro protagonista, uma vez que todos arrasam, até mesmo os figurantes sem fala, todos conseguem um pouco da atenção do espectador.

O resultado de todo esse empenhado e autentico trabalho é o melhor possível. Um filme visceral, real, espetacular, onde ação, drama, comédia e suspense é o cinema contando uma história, como um filme tem que ser.

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Comments

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  1. A fotografia do filme é sensacional , a roteirização sem fugir da obra de Paulo Lins é impecável , enfim , uma obra prima. Aliás , boa resenha.

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