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Pelo em Ovo – Mr. Nobody

A seção Pelo em Ovo é basicamente uma crítica baseada em teorias ilógicas/improváveis.
O filme da vez é Mr. Nobody (Jaco Van Dormael – 2009).

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O eterno retorno em um das ilusões de Nemo…

Sabem aquelas críticas que listam diversas teorias para explicar o filme Mr. Nobody?
Teoria do Caos, efeito borboleta, teoria das cordas, flecha do tempo, Big Crunch…
Esqueça tudo isso.
Nessa versão não há nenhuma dessas leis temporais. (mas oi?)

É. Mas como explicar um filme que de cara nos lembra um Efeito Borboleta atemporal?
Bem, que o filme é atemporal é verdade, pois nos deparamos com diversos Nemos Nobody durante a sua história contada no programa.
Mas será que ele viveu todas elas?

Nemo é um idoso, astro de um reality show do futuro chamado “O último mortal”, pois no ano de 2092, todos os humanos se tornaram imortais em Marte.
No programa, ele começa a contar a sua (enrolada) história. Ele conta a história em sua confusa memória e aí que não sabemos qual delas é a verdadeira.
No organograma abaixo, tento descrever as histórias (algumas) contadas de Nemo.
Obs: os símbolos de diferença são algumas das decisões que Nemo teve de tomar em sua vida. Os pontos de interrogação são momentos em que não identifiquei as decisões ou o fim da vida (mas não são importantes para a teoria, continue lendo).

As vidas de Nemo (?)
As vidas de Nemo (?)

Ele vive em quatro, cinco, inúmeras histórias, e nas quais ele sempre se depara com as mesmas situações (as difíceis escolhas, o arrependimento, a relação fria com a mãe ou com o pai, a garota que gosta).
Na minha visão, Nemo não viveu nenhuma dessas histórias, tanto que no fim do filme ele diz “talvez eu seja só a imaginação de um garoto que não conseguiu decidir uma situação difícil”, até por isso o seu nome é Nobody, pois ele não é ninguém no futuro, é apenas a sua imaginação. E nesses cenários imaginativos, Nemo se perde entre diversas dificuldades, escolhas, caminhos trocados, arrependimentos, depressão, morte, infelicidade, perdas e coincidências. É o Eterno Retorno.

Pausa para a passagem filosófica de Nietzsche sobre o Eterno Retorno:
“E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: “Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência – e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez – e tu com ela, poeirinha da poeira! Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: “Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!” Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: “Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?” pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?” (A Gaia Ciência, 1882)

O que é, então, o Eterno Retorno?
Primeiro, vamos esquecer essa visão sisífica* de que a vida é uma história constante que viveremos para todo o sempre, que repetiremos a nossa história exatamente do mesmo modo que estamos vivendo agora. O Eterno Retorno é interpretado também como não temporal, como uma teoria que descreve que durante nossa vida há fases de felicidade e tristeza que se repetem em diversos momentos.
Ou seja, estamos sempre presos a um número de acontecimentos, que ocorreram no passado, acontecem no presente e voltarão a se repetir no futuro.
Com essa visão menos pessimista da teoria, notamos que no filme, Nemo se depara toda aquela lista acima em todas as suas vidas imaginadas, ou seja, por mais que Nemo escolhesse ficar com o pai ou com a mãe, entregar a carta para Elise ou não, dizer para Anna que não queria nadar com idiotas ou não, ele teria uma vida repleta de dúvidas, arrependimentos e coincidências negativas.

Ou seja, Nemo Nobody é um pessimista de primeira, que não se imagina atingindo a felicidade em sua vida futura, muito pelo fato de seus pais estarem se separando no momento. É a primeira escolha difícil que Nemo terá que fazer (escolher com qual dos dois ficar), e a partir daí, ele acredita que terá que se deparar para sempre com situações de escolha que trarão infelicidade e sonha que com o Big Crunch de 2092, toda sua vida possa voltar a este momento da separação dos pais.
Nemo está emperrado nesta decisão, não consegue escolher, pois o Eterno Retorno de sua vida é pessimista, pois ele é pessimista, então ele é nada, ele é Ninguém.

Esta é a minha teoria. Claro que Nemo pode ter vivido alguma das histórias, ou todas, ou ele pode ter sido um Evan de Efeito Borboleta ou o Big Crunch realmente aconteceu, mas não nessa versão aqui. Nesta teoria o que foi apresentado é o Eterno Retorno presente nas vidas imaginadas de Nemo Nobody.

 

*O Mito de Sisífo – Sisífo foi um personagem da mitologia grega, que foi condenado a empurrar uma pedra até o topo de uma montanha, mas toda vez que estava quase alcançando o topo, a pedra rolava novamente montanha abaixo até o ponto de partida. Sisífo foi condenado a esta missão inconclusiva por toda eternidade por ter enganado a morte.

Written by Felipe Yuzo

Aquela dose de alma na penumbra diária.

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  1. Parabéns pelo texto, você resumiu bem o que foi o anticast 164 e essa analise serve também para o filme “Sorte Cega (1987)” do Kieslowski, que é também, talvez, a maior inspiração do Mr. nobody.

  2. Eu sempre quis fazer um diagram do mr. nobody mas nunca tive tempo. Entao, ao meu ver o mr. nobody e’ o nemo mendingo que encontra e casa com a Anna pois e’ o unico que atingiu sua felicidade e morreu de causas naturais e feliz. As outra opcoes dele ficando com Elise e jean, mostram todos os efeitos da vida com elas enquanto a de Anna nao tem breakpoint. De qualquer forma, o big crunch representa o fim do universo do nemo, onde nao vai haver mais nenhuma decisao consequentemente mais nenhum caos: o fim da vida.

  3. Na verdade no começo do filme tem um acontecimento que explica toda a história, sem precisar de teorias (acredito eu).
    Antes do Nemo nascer, quando ele ainda está no céu, ele diz que os Anjos colocam o dedo acima do lábio superior da criança, antes de mandá-la para a terra, deixando uma marca em sua boca e fazendo com que ela esquecesse de tudo, como se “zerasse” ela. Só que o Anjo acaba esquecendo de fazer isso com o Nemo, então ele nasce já (ou ainda) sabendo de tudo, inclusive do futuro. E na verdade, ele só “viveu” (no filme) até a primeira grande bifurcação da vida dele, que seria a separação dos pais no trem. Daí pra frente tudo são possibilidades, e ele apenas é uma criança (com onisciência) vendo todas essas possibilidades acontecendo diante de seus olhos (na sua cabeça) sem escolher nenhuma. Ou seja, sem fechar nenhum caminho. O futuro, os casamentos, as mortes, e o seu “eu velho” são tudo potencialidades. É como se ele tivesse que parar e ver tudo isso, pra no final da sua consciência ele/o “velho” concluir que não importa qual aconteceu (ou acontecerá) porque todos os caminhos vão ser feitos a partir de escolhas e prioridades, e vão carregar arrependimentos e gestos inacabados.

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