, ,

Interiores (Woody Allen, 1978)

Atenção: o texto a seguir contém spoilers e informações sobre o desfecho da trama. Caso ainda não tenha visto o filme, não recomendo a leitura.

Uma ode à Ingmar Bergman

Woody Allen sempre se declarou um fã confesso do aclamado cineasta Ingmar Bergman, que pauta grande parte de sua obra nas relações interpessoais, a incomunicabilidade dentro da própria família e o vazio existêncial. E é nesse trabalho, que o sueco tem seu estilo homenageado pelo nova iorquino, através da história de uma típica família burguesa de Nova York que precisa lidar com uma separação, que desencadeia nas filhas do casal, todo o novelo de frustrações, angústias e amarguras, alimentadas durante todos esses anos, guardadas no interior de cada uma.

Eve (Geraldine Page) é uma designer de interiores, que sempre conduziu a família da mesma forma que o trabalho: de maneira metódica e controladora. Desde sempre, essa mulher se viu à frente da própria vida, como se ela pudesse ser controlada por completo. E quando ela percebe que nem tudo é como ela havia planejado, adentra numa profunda depressão, causada pela angústia de não poder conter o fim de seu casamento. Com isso, inicia sua jornada por uma reconciliação, para que assim possa ter novamente as rédeas daquela família – e consequentemente de seu destino – de volta.

As filhas Flyn (Kristin Griffith), Joey (Mary Beth Hurt) e Renata (Diane Keaton) são reflexos disso tudo. Mulheres que cresceram em busca de uma vida perfeita, do sucesso profissional, mas que hoje se encontram aterradas em meio à frustrações; sejam profissionais ou pessoais. Flyn é uma atriz que precisa se contentar com papéis medíocres na TV. Renata é a mais bem sucedida profissionalmente, uma escritora de sucesso, mas que se vê às voltas com um casamento infeliz, resultado do déficit de honestidade que existe entre ela e seu marido Frederick, um escritor frustrado. Enquanto isso, Joey se vê sufocada por ser a única naquela família que supostamente ainda não encontrou seu lugar no mundo, ainda não sabe o que fazer da vida, pois não possui nenhum talento artístico como as irmãs e a mãe, não tem nenhum dom especial; isso numa família onde não há espaço para erros e fracassos.

Toda a suposta perfeição – juntamente com a frieza – em que essas filhas sempre estiveram acostumadas, é colocada em confronto justamente com a chegada de Pearl (Maureen Stapleton), a nova mulher de Arthur (E. G. Marshall). Uma pessoa totalmente oposta à Eve e de suas filhas: solar, cheia de vida e que encara tudo com simplicidade. É ela quem traz vida à aquele homem sufocado por um casamento infeliz e por uma esposa controladora. Destaque para uma cena em os dois dançam e Renata comenta que não lembra de já ter visto seu pai dançar antes. Ela transmite – sem intenção alguma – às enteadas que, muitas vezes a intelectualidade pode ser um fardo à se carregar e que a ignorância, pode ser a salvação para uma vida feliz. Na cena do jantar onde ela é apresentada, todos comentam sobre uma peça de teatro que assistiram, e enquanto cada um tenta tirar uma reflexão filosófica da trama, Pearl tem uma percepção simplória, bruta e sem firulas. Ou durante uma conversa sobre a Grécia, enquanto todos perguntam sobre os museus e sobre toda a arte que Pearl possa ter apreciado e ela surpreende ao dizer que o que mais gostou foram das praias. É uma fresta aberta na janela que permite que o sol entre, num ambiente frio e obscuro, inóspito à felicidade. Pearl não é uma delas, é uma intrusa e isso as incomoda. Aliás, importante destacar o excelente trabalho da direção de arte de Mel Bourne, em parceria com a fotografia de Gordon Willis que trabalharam todos os cenários com uma paleta de cores frias, que condizem com a personalidade dos personagens principais.

Entretanto, Eve ainda sonha com uma reconciliação, e não aceita que a história termine de outra forma. Na cena da igreja, quando ela questiona Arthur se ele tem outra pessoa, ele se recusa à dizer, e ela insiste e pede honestidade. Mas quando ele então revela que tem outra mulher e lhe dá a honestidade solicitada, ela se levanta e diz não querer mais ouvir. Na verdade o que ela transparece é diferente do que sente em seu interior. E toda essa angústia e essa sensação de que algo está fora do lugar só é compreendida por Eve quando ela percebe que não é a vida que tem que se adaptar à ela, e sim, ela que precisa se adaptar à vida. E quando isso acontece, ela se dá conta que este mundo não é para ela, ou pelo menos, ela não está disposta a encarar a realidade porque acredita que é tarde demais. No fim das contas, resolve abdicar da própria vida.

E assim, Woody entrega uma grande homenagem a um dos maiores cineastas de todos os tempos, conseguindo captar de maneira muito honesta e sem perder a sua identidade como realizador, toda a alma que Bergman procura transmitir em seus trabalhos. Interiores pode até ser uma homenagem ao sueco, mas ainda sim consegue manter a personalidade de um típico Woody Allen, o que não é menos do que admirável já que é um projeto que facilmente poderia cair na caricatura ou na cópia rasa. Um grande filme, na filmografia de um grande diretor e que deve ser conferido.

Comments

Leave a Reply

Your email address will not be published.

Loading…

Loading…

Comments

comments