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Pelo em Ovo – Sonhos

A seção Pelo em Ovo é simplesmente uma crítica baseada em teorias ilógicas/improváveis.
O próximo filme a ser analisado é o Sonhos (Akira Kurosawa – 1990).
(TEXTO COM SPOILERS)

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A grandiosidade estética do filme de Kurosawa é algo indescritível. Nos deparamos com imagens belas e únicas durante o filme.
O filme é composto por 8 curtas que mostram sonhos que Kurosawa teve durante sua vida.
Mas não analisarei os sonhos psicologicamente. Vou analisar o ciclo de vida mostrado no filme.
Esqueçam o inconsciente. Pelo menos nessa versão.

O que Kurosawa quis mostrar com os sonhos, além de aprendizagens passando pelas etapas da vida, foi o ciclo de vida que todos nós possuímos. Passamos por fases em nossas vidas, e em cada sonho, Kurosawa quis deixar como cada época de nossas vidas reflete em nosso desenvolvimento.

Dividirei os sonhos para explicá-los um a um.

1- Um raio de sol através da chuva – Infância (5 a 12 anos)

Neste sonho, vemos uma criança desobedecendo à mãe por conta de uma curiosidade (como a maioria das crianças). A curiosidade era de ver as raposas casando, pois segundo crenças, em dias de sol e chuva, as raposas se casam. Aqui notamos outro aspecto bastante presente na infância: a superstição (quem nunca desvirou o chinelo, evitou passar embaixo de escada ou evitou pisar em linhas nas ruas?).
O menino vai para a floresta e as raposas o encontram. Ao voltar para casa, a mãe diz que as raposas estão bravas com ele e que ele deve encontrá-las para pedir desculpas e caso elas não aceitem, ele deve se matar. Outro aspecto da infância nesta cena: a culpa. Quando pequenos, após uma travessura, nos sentimos culpados e não queremos a reprovação de nossos pais.

2- O jardim das pessegueiras –Pré-Adolescência (10 a 15 anos)

No começo do sonho, notamos um garoto levando comida para sua irmã e as amigas. Um aspecto muito visto na pré-adolescência é a tentativa de surpreender as pessoas que gostam. No caso, ele queria surpreender as amigas da irmã mais velha.
O sonho continua com o sumiço de uma das amigas (pela visão do garoto apenas) e a aparição dela como um fantasma o convidando para ir para a floresta (aqui ele vai atrás de outra garota).
Mas a garota era na verdade o espírito de uma pessegueira que foi cortada pela família do garoto. Neste momento, os espíritos das pessegueiras cortadas ficam com raiva do garoto, que tem a atitude de ser contra o ato cometido (a rebeldia de ficar contra a família na pré-adolescência). Os espíritos o perdoam e fazem uma dança de presente dado o seu arrependimento.

3- A tempestade – Adolescência (15 a 18 anos)

Quando adolescente, os jovens procuram sair, tentar ser livre. Por isso a viagem com outros amigos. Mas assim como na vida real, ele sente falta de sua casa, ainda não está preparado pra enfrentar as tempestades da vida.
A mulher que aparece e o tenta o levar para morte é o reflexo de uma vida repleta de loucuras que se vive na adolescência.

4- O túnel – Jovem (18 a 25 anos)

Servir o exército não é o desejo de todos os jovens, porém ao servi-lo, você ganha experiência e maturidade. No sonho, ele atravessa um túnel e ganha a companhia de seu pelotão, que morreu na guerra.
Aqui o que se faz presente é o sentimento de culpa e arrependimento que o jovem passa e a maturidade de suas escolhas. A partir do momento em que nos tornamos “adultos”, somos responsáveis por nossas decisões. Ele sente-se culpado pelo pelotão e cabe só a ele o fato de deixar isto para trás, de deixar os arrependimentos para trás e seguir, sem o apoio da família.

5- Corvos – Jovem Adulto (25 a 28 anos)

O sonho mostra o quadro de Van Gogh. O que remete ao desejo do homem de seguir uma carreira relacionada à arte. Ele vê que Van Gogh era infeliz com o seu trabalho (por problemas psicológicos, não pela qualidade), mas mesmo assim, o homem tenta até o último momento perseguir o sonho de trabalhar com arte, mas desiste por não ver futuro nela. É o que muitos de nós fazemos ao deixar nossos sonhos por medo do insucesso.

6- Monte Fuji em vermelho – Adulto (28 a 40 anos)

Depois de escolhermos nossas carreiras, seguimos por ela. Nesse sonho, Kurosawa mostra a dúvida que vai seguir presente em nossas mentes medrosas. A dúvida tem a ver com a carreira novamente. No sonho, um homem diz que errou uma fórmula e contaminou a sociedade japonesa e se mata em seguida. O protagonista do sonho, então, vê que todos morrerão e não quer aquilo pra ele e pra ninguém. Por analogia, estamos condenados a “morrer” ao fazer algo que não gostamos. É a dúvida do adulto, que não vê mais caminhos a arriscar para se salvar.

7- O demônio que chora – Adulto Velho (40 a 60 anos)

No sonho, um homem com um chifre chora, pois o ser humano ocasionou holocausto nucleares que radiaram para aquele povo. E como um adulto velho, o homem não tentou mudar isso, não foi contra as guerras, pois levava uma vida de pacato cidadão. Mas é aí que ele vê que a vida não é só trabalho e dinheiro. Ele não estava feliz. Era necessário pensar na sociedade também, olhar para a natureza (o demônio mostra uma rosa para ele). A mudança pode vir tarde para o adulto, mas pode vir.

8- O vilarejo dos moinhos – Idoso (60+ anos)

Este sonho para mim é o mais belo. Nele temos um vilarejo que não se usa energia. O homem fica impressionado com o vilarejo e vê que nessa idade o importante é ser feliz. Aliás, em qualquer idade o importante é ser feliz e fazer o que gosta.
Um idoso fala para o moço: “Dizem que a vida é dura. É uma mentira. É bom estar vivo, é excitante!”.
O homem, como um idoso arrependido, quer viver aquilo que ele não viveu. Ele não quer ser “O Velho” de Chico Buarque.

“O velho vai-se agora
Vai-se embora
Sem bagagem
Não sabe pra que veio
Foi passeio
Foi passagem”

(Passagem da música O Velho, de Chico Buarque)

Então ele esquece os arrependimentos da vida e as decisões erradas e passa a viver sem se preocupar, pois assim como no sonho, ele quer que no fim de sua vida, as pessoas não chorem em seu caixão e sim que comemorem o que ele viveu.

O filme Sonhos do Kurosawa dispensa essas teorias por ser por si só belo e reflexivo.
Apenas encontrei Pelo em Ovo, de novo.

Written by Felipe Yuzo

Aquela dose de alma na penumbra diária.

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