, ,


Uma Aventura Lego (Phil Lord e Christopher Miller, 2014)

“A burguesia rasgou o véu do sentimentalismo que envolvia as relações de família e reduziu-as a simples relações monetárias.”Karl Marx, O Manifesto do Partido Comunista.

Descobre-se, já no final da obra, que todo o universo construído em Uma Aventura Lego é uma metáfora das relações familiares. O Senhor Negócios pode ser visto como um pai ausente por causa do trabalho. Dito isso, é válido comentar que estamos falando duma animação muito mais inteligente do que meramente esta metáfora.

Na trama, o sistemático Sr. Negócios rouba uma arma superpoderosa para dominar o mundo e torná-lo “perfeito” – segundo sua visão, claro. Porém, segundo um certo mito, um bravo e lendário guerreiro achará a peça que falta, capaz de destruir essa arma, e restaurará a paz no mundo. Eis que um operário, acidentalmente, entra em contato com a peça, tornando-se responsável pela missão que ela traz consigo. Para ajudá-lo, surgem os “mestres criadores”, pessoas capazes de gerar vários objetos com sua imaginação, escondidas e acuadas pelo regime totalitarista presente na trama.

Uma Aventura Lego poderia ser uma crítica aos regimes totalitaristas impostos, sobretudo, durante o século XX. Todavia, acho essa leitura um tanto ingênua e conformista. O retrato do filme é o da nossa própria realidade, de liberdades condicionadas, da música pop dizendo “tudo é incrível” para nos esquecermos de que é exatamente o contrário, das instruções do que devemos ou não fazer – ainda que bem menos explícitas em nossa realidade. Embora eu tenha citado Marx no início do texto, trata-se dum filme anarquista, sobretudo pela aspiração à igualdade de direitos e ausência de normas e mecanismos de controle, sendo que o filme defende este modelo como o mais feliz, onde tudo pode ser criado.

Além disso, é interessante a busca constante do filme em valorizar as capacidades individuais – formando, assim, o coletivo. Ou seja, a força de salvação do mundo, nesta animação, está no trabalhador. Entretanto, há um processo revolucionário pela sua conscientização, já que, tal como o proletário, o personagem do filme encontra-se alienado do seu trabalho, seguindo exclusivamente suas instruções e cumprindo sua função designada – o que claramente cria um ser de visão limitada. É curioso observar, inclusive, uma característica presente em certa esquerda, simbolizada nos “mestres criadores”, tendo uma real aversão às massas, julgando-se superiores e portadores de toda a inteligência, não percebendo que, como o filme nos mostra, essas massas se encontram presas, alienadas (ideologica e culturalmente) e massacradas pela elite. Necessitam, portanto, serem libertadas e adquirirem consciência de seus potenciais únicos a fim de que haja uma verdadeira mudança. (Sim, estamos falando dum filme voltado para o público infantil.)

Se é difícil dizer que os personagens são tridimensionais, tampouco podemos afirmar que são desprovidos de profundidade. No meio de toda essa jornada de herói, o roteiro se preocupa muito mais em desenvolver seus personagens e relações – o romance típico, a autodescoberta do protagonista – do que um universo onde tudo isso é possível. Facilita o fato dos Legos serem brinquedos preconcebidos no nosso imaginário. Assim, é muito cabível que uma personagem possa montar uma moto potente – e depois transformá-la em nave, diga-se – com apenas umas tralhas encontradas na rua, não sendo necessária a explicação ou detalhamento disso. Da mesma forma, é divertido observar que uma explosão, por exemplo, ao invés da mera destruição, se constrói antes – quer dizer, blocos de lego formando o fogo.

Toda essa anarquia visual e ideológica acaba se unindo a essa crítica das relações familiares baseadas na mera relação monetária – uma vez que o próprio nome, metafórico, do pai é “Sr. Negócios”. Quem diria: Uma Aventura Lego é um filme político. E importantíssimo para as crianças, diga-se!

Comments

Leave a Reply

Your email address will not be published.

Loading…

Loading…

Comments

comments