X-Men: Dias de um Futuro Esquecido (Bryan Singer, 2014)

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Sabe o kitsch sessentista de X-Men: Primeira Classe, a cafonice bem-humorada emprestada dos HQs, o rolê dos mutantes se divertindo com a descoberta dos poderes? Esqueça. Quem assume a direção de X-Men: Dias de um Futuro Esquecido é Bryan Singer (responsável pelos dois primeiros capítulos da franquia – particularmente sérios), não o pop Matthew Vaughn, de Kick-Ass. Não que Singer seja contaminado pela sisudez de um Christopher Nolan, nem que seu filme supere o anterior. Simplesmente não há espaço para uma aventura bem-humorada no futuro distópico ao qual somos introduzidos.

Os mutantes foram perseguidos pelos Sentinelas, robôs criados pelo Dr. Task (Peter Dinklage), capazes de rastrear qualquer mutante e absorver seus poderes, habilidade desenvolvida graças à captura do gene de Mística (Jennifer Lawrence). Para salvar o futuro de sua raça, Magneto e Charles Xavier (respectivamente, Michael Fassbender e James McVoy quando jovens e Ian McKellen e Patrick Stewart quando velhos) unem-se, enviando Wolverine ao passado – por um motivo especialmente interessante, explicado no filme – para tentar impedir a ação que levará à legitimação do projeto de criação dos Sentinelas.

Ecoando em nossa realidade, X-Men constrói um universo que, embora fantasioso por natureza, serve de metáfora clara para todas as “minorias” (termo problemático) marginalizadas socialmente. Assim, um futuro onde as diferenças não sejam aceitas não soa assim tão absurdo, levando ao extremo um problema responsável por verdadeiros massacres atuais – qual a diferença simbólica, aliás, entre o discurso do cientista do filme e, por exemplo, o de um Silas Malafaia? Os personagens, portanto, nunca são tratados com o maniqueísmo típico dos filmes de herói, sendo o antagonista maior um humano (!). Quando Magneto ou Mística cometem qualquer ato considerado cruel pelo senso comum (ou pelo próprio Xavier) tendemos, pois, a não condenar, já que os mutantes são alvos constantes de uma discriminação cruel, o que torna absolutamente compreensível se fecharem a um diálogo com humanos, desenvolvendo um verdadeiro ódio à raça que os causou tanto sofrimento.

Propõe-se, dessa forma, uma forte discussão moral na decisão de matar ou não o responsável pela criação das sentinelas, algo presente desde o início da obra. Haveria, de fato, essa necessidade de vingança? Não estariam apenas alimentando esse ciclo de ódio, justificando o preconceito? Embora, nesse sentido, simplifique muito o debate, adotando uma postura conservadora e óbvia em certo sentido, não deixa de ser, de alguma maneira, um trunfo apostar na misericórdia enquanto arma maior para a salvação da humanidade. Por outro lado, o filme aposta em uma dinâmica conflituosa entre os próprios mutantes, gerando alguma confusão entre os humanos, e fugindo de uma possível dicotomia simplista – curioso observar como os poderes dos personagens são muitas vezes utilizados como potenciais dramáticos em discussões, tal como a briga no avião. Dessa forma, instaura-se a imprevisibilidade, já que, movidos por relações complexas, traumas passados e conflitos mal resolvidos, os personagens podem estar de um lado do jogo e, por um motivo ou outro, mudar para o oposto, sem jamais soar inverossímil.

Desenvolvendo os personagens com uma atenção rara no gênero, Bryan Singer não deixa de criar momentos de ação realmente memoráveis. Sabe ser muito claro e direto ao organizar o espaço numa sequência complicada como a de abertura, com vários saltos espaciais dentro da mesma cena, por exemplo, ou quando surgem os efeitos especiais monumentais, como os que envolvem a megalomania de Magneto. Não deixa de ser estiloso, porém, mesclando comicidade e ação com destreza na cena em que contrapõe o tempo natural com o de Mercúrio (Evan Peters), ao som de Time in a bottle (Jim Croce), provocando humor com muita elegância. Essa tônica humorística marca a obra com naturalidade, já que as piadas surgem mais como efeito natural de situações inusitadas – sempre orgânicas – ou do próprio poder dos personagens, sem serem pensadas como alívios cômicos óbvios.

Embora inseridas na medida certa, as cenas de ação não são as responsáveis por boa parte da empolgação gerada por X-Men. Bryan Singer aposta numa atmosfera de tensão permanente, a qual guia todos os filmes da franquia dirigidos por ele, sobretudo através do paralelismo entre futuro e passado. Os personagens da trilogia anterior surgem muito mais enquanto constituintes de uma narrativa própria a este filme do que feito mimos pra fãs, evocando um senso de urgência na trama por estarem sempre em risco de vida. Ficamos ansiosos pela decisão de Mística num momento-chave justamente por sabermos como isso pode acarretar no futuro. Através de uma montagem que não eclipsa o presente, os dois momentos são unidos no clímax, aumentando o suspense por estamos diante do perigo mais iminente. Afinal, mais do que no filme inteiro, as ações do presente têm que dar certo.

Com um saudoso adeus à turma de Ian McKellen e Patrick Stewart, X-Men: Dias do Futuro Esquecido assume novos rumos definitivos. Perpetua-se a melhor saga de heróis do cinema. Resta a nós, meros humanos, apenas aguardar por uma próxima visita.

Obs.: com o texto finalizado, li uma notícia que há uma forte possibilidade de alguns atores da trilogia anterior retornarem ao próximo filme da franquia. De qualquer maneira, X-Men: Dias de um Futuro Esquecido permanece como uma despedida àquele universo, de certa maneira.

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