No Limite do Amanhã (Doug Liman, 2014)

No Limite do Amanhã (Doug Liman, 2014)

Por Vítor Nery

Acompanhando uma constante tendência do gênero sci-fi, No Limite do Amanhã é ambientado numa Terra invadida por alienígenas, cujos habitantes, vulneráveis, estão prestes a ser subjugados. A premissa, saturada e amplamente conhecida no universo cinematográfico (vide Guerra dos Mundos, também estrelado por Tom Cruise), regride as expectativas do público mais exigente, que já se prepara para ver fórmulas prontas e pouco inovadoras na sessão. Surpreendentemente, nada disso se concretiza – a exposição inicial do clichê como alicerce da narrativa acaba fornecendo ao diretor Doug Liman plena liberdade para explorar as minúcias do enredo, resultando num trabalho competente que mostra, pouco a pouco, a que veio.

Com sagacidade, o filme elucida a convencional maneira americana de resolver os problemas – mediante repressão bélica (“É isso que fazemos”) -, para logo em seguida disparar sua crítica, demonstrando a covardia e a insegurança do major William Cage (Cruise) perante as forças armadas que ele próprio coordena. Na ocasião, quando o oficial contraria um superior que requer sua presença na linha de frente do exército, vemos o espelho de uma sociedade hierarquizada e marginalizadora. Prova disso é a constante associação de guerra a heroísmo feita pelo sargento Farrel (Bill Paxton) a fim de robotizar os soldados, não bastasse a submissão destes ao uso massificado de “supertrajes”.

Com referências visuais a Matrix Revolutions (2003) no embate armado, e a O Resgate do Soldado Ryan (1998) na alocação praiana, é em Elysium (2013) que “No Limite” encontrará semelhanças estruturais: no segundo ato de ambas as películas, a crítica social é subposta à ação. Isso não significa, porém, que a conduta de Liman se torne leviana como a de Blookamp, haja vista, no presente projeto, a predominância de uma natureza blockbuster desde o trailer. O que se sucede à introdução, de fato, é a construção de uma trama autêntica pautada na jogabilidade dos games.

Forçado a se unir às tropas de base, Cage se familiariza ao campo de batalha e aos controles de seu armamento naquilo que seria o prólogo de um jogo. Analogamente, “dá-se início à partida” quando o protagonista, em confronto direto com um espécime alien, adquire o dom de reviver (ou retornar ao início da fase) sempre quando morto em combate. Destaca-se, aqui, o claro saudosismo aos jogos de fliperama, cuja progressão nos estágios era condicionada à habilidade de repetição advinda da prática.

Neste ínterim, à medida que avança na guerra, o major reúne experiência e capacidade para prever os passos dos inimigos enquanto busca uma maneira de eliminá-los, contando, para isso, com a ajuda da guerreira das Forças Especiais Rita Vrataski (Emily Blunt). Empenhado, o casal passa por um envolvimento gradativo, muito bem favorecido pela adoção de um roteiro clean que evita divagar/distrair o espectador com explicações complexas sobre os diversos fenômenos da trama.

É interessante como essa simplicidade abre espaço para uma montagem dinâmica e pontual que, além de empreender ritmo à narrativa, permite aos alívios cômicos um perfeito funcionamento dentro dela (há algo mais caricato que sofrer mortes estúpidas durante uma jogatina?).

Considerando toda a sua extensão, No Limite do Amanhã tem seu ápice no instante em que Cage assume o controle da situação, trejeitando Ethan Hunt (o personagem de Cruise em Missão Impossível) a torto e a direito. Na verdade, a predisposição do par de atores à ação, imprimindo-lhes confiança e naturalidade em seus papéis, constitui um ponto forte da metragem.

No entanto, nem tudo são flores na película de Liman. O desfecho, por exemplo, é problemático porque dispensa a ousadia de outrora, convertendo-se numa tentativa enfadonha de imprimir uma perspectiva humanizada à história. Em outras palavras, busca esclarecer que o enfoque do protagonista é feito sob o viés da subjetividade, enaltecendo seus sentimentos em detrimento do patriotismo americano.

Dado o exposto, embora dotada de um equilíbrio louvável que intercala pitadas de reflexão a um entretenimento conveniente, a obra acaba tendo seu andamento um pouco prejudicado pela postura assumida no encerramento. Afinal, há limites em “No Limite”? No mais, uma experiência inventiva, instigante e proveitosa. Mérito de seu conjunto.

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