O Bandido da Luz Vermelha (Rogério Sganzerla, 1968)

O Bandido da Luz Vermelha (Rogério Sganzerla, 1968)

Por Rafael Lopes

Hoje, são poucos os que dão um sentido mais profundo ao processo de percepção e que transformam seus ideais em experiências cinematográficas, em busca de uma nova linguagem possibilitada pela imagem em movimento
(Stan Brakhage, Metáforas da Visão, p.343)

Assistir a O Bandido da Luz Vermelha é quase um exercício de descobertas. Um dos grandes títulos do cinema marginal, conduzido com muita genialidade por Rogério Sganzerla é marco para o cinema nacional. Nunca se viu um filme com um poder tão grande de retórica e idéias ousadas como esse. Sganzerla pega todo tipo de referencia que pode para montar uma narrativa devastadora sobre o Terceiro Mundo.

Seu Terceiro Mundo é “estrelado” por um bandido que abalou as estruturas do Brasil por 6 longos anos, matando, roubando e quem sabe até estuprando. João Acácio Pereira da Costa é o pano de fundo e uma São Paulo caótica e moderna o cenário. Adaptando livremente a história do famoso Bandido da Luz Vermelha – que antes de assaltar uma mansão cortava a energia e entrava na casa munido de uma lanterna com o bocal vermelho e uma máscara – ele constrói um país com medo e devastado pela bandidagem, mas não pela bandidagem marginal que corrompe favelas e periferias, mas sim a bandidagem que vem de cima, a que estragou o sistema, a que fez nascer os bandidos das favelas e periferias.

O diferencial de sua obra está no fato de ele não precisar atingir o sistema tão diretamente, apontar acusados ou qualquer tipo de coisa que tornaria fácil sua alegoria. Sganzerla monta um roteiro recheado de ironias que muito bem prega esse objetivo, transformando suas personagens em caricaturas de tudo o que se vê numa cidade. Há o bandido, o político populista gordo com charuto na mão, o policial sem sorte, a prostituta que muda a vida de alguém, o jornalista oportunista e por aí vai. Todos eles montam uma base bem trabalhada e construída com uma maestria ímpar pelo diretor.

E por falar nele, é sentido durante boa parte do filme que ele quer falar uma coisa diretamente ao espectador. Há muitas cenas onde as personagens se pegam conversando diretamente com quem assiste, e ele chega ao ápice de tudo isso dizendo com todas as palavras: “Eu sou boçal”. E sim, ele é realmente boçal e se veste como João Acácio Pereira da Costa e externa suas idéias, atirando pra todo lado o que quer dizer e assim como o personagem, abala todo o sistema. É uma metáfora deliciosa, e a forma como ele conduz é melhor ainda.

Trata-se de um faroeste sobre Terceiro Mundo!

O filme é divido em dois atos: no primeiro tem o bandido e suas ações e depois, temos o bandido realmente causando na sociedade, chegando a debochar do retrato falado que estampa o jornal. Numa interpretação excepcional, Paulo Villaça constrói um homem perturbado, sofrendo com conflitos existenciais que ironicamente, sendo um bandido extremamente violento, se mostra frágil, abandonado, esquecido e fraco psicologicamente.

Essa fraqueza talvez explique o por que age daquela forma, roubando e gastando tudo com mulheres e bordeis. O bandido evidencia ainda mais esse problema em vários momentos onde se pega perguntando “Quem sou eu?” e tentando encontrar uma explicação plausível para tal. O que sabe é que virou bandido porque o mundo o fez ser assim. Sua mãe queria abortá-lo – e culpa a falta de amor materno por ter deixado se transformar naquilo
– cresceu no meio da pobreza e do lixo, e de certa forma, como todo ser humano, queria melhorar. O caminho mais fácil foi o crime.

Incrível ver toda essa conjuntura ser sintetizada em poucos minutos. Sganzerla com sua câmera rápida, suas idas e vindas e a narração em off muito bem executada, consegue resumir o nascimento de um monstro dentro da podridão onde foi parido. Depois disso, a história já conhecemos. Ele parece sentir uma tara por mansões, e entra nelas com uma facilidade assustadora. E como bom boçal, se acha no direito de estuprar a mulher depois de pedir que ela fizesse uma omelete bem temperada.

Mas graças a seu charme de ladrão (a mascara e a lanterna que deu nome a ele, de qualquer forma chama atenção da população) e por ser o zorro dos pobres – pelo fato de roubar e doar as sobras aos pobres ou a cordialidade e paciência que apresentava em seus crimes – deram a ele uma pequena fama de herói, que muito atrapalhou a polícia e sua investigação. O delegado Cabeção (Luis Linhares) é um personagem fascinante dentro da trama. Sua vida se cruza com a do bandido, pelo fato de também sofrer psicologicamente com uma doença que está o matando aos poucos, o estresse e o sistema que todos os dias só produz mais porcaria.

Entra o segundo ato, e entra em cena também J.B. da Silva (Pagano Sobrinho), um político muito safo, acusado de várias atrocidades, mas que possui o carinho das massas. Ele é a grande graça que Sganzerla tira do filme. Um político de fala fácil, que conquista a todos e facilmente ganha o coração da população. Mas ele é um grande safado, com vários crimes políticos no currículo e ainda dando asilo na sua casa azul para Martin Bormann, um carrasco nazista que segundo suspeitava-se na época, estava escondido aqui na América do Sul – e claro, no Terceiro e bestializado mundo, rodeado de seres da sua laia: bandidos – (mas na verdade seu corpo foi encontrado numa escavação lá em Berlim, comprovando que essa praga estava morta).

J.B. também mostra uma ligação forte com a “Mão Negra”, um grupo responsável por espalhar o terror numa cidade já aterrorizada pelo Bandido da Luz. Sua falácia e audácia acabam por criar uma rinha mortal com o bandido, que de certa forma nada mais quer do que o fim de J.B. e assim ter sua paz de volta, uma vez que ele estava mais quieto de seus crimes e ser perseguido por um cara tão desgraçado quanto, não dá. Bomba no carro dele.

E nesse segundo ato também, Sganzerla trabalha melhor o lado humano do bandido, adentrando seu íntimo na pessoa de Janete Jane (Helena Ignez), uma bela prostituta que rouba o coração do bandido e faz repensar nos seus atos e na vida marginal e errônea que leva. Ele encontra nela a válvula de escape que precisava para começar uma vida nova, mas é só ver ela com seu cafetão e tudo novamente desmorona. É quando ele volta a matar e é pego justamente pelos erros que nunca cometia.

Seu fim é pura graça. Ao imitar estar sendo atingido no ombro que caindo rindo, Sganzerla tira graça da incompetência do sistema, que só errou e se quebrou e nunca conseguiu achar esse cara. E continuando sua piada, acaba experimentando uma surpresa ainda pior: a morte. E o mesmo destino está escrito para o Delegado Cabeção, que também, em mais uma ironia do diretor, a da queda do sistema pelas mãos de um coitado, acaba no mesmo monte de lixo. O filme em cerca de 90 minutos trabalha com uma grandiosidade e abrangência assustadoras, montando uma paródia da situação deplorável do Brasil nos anos 60. Sganzerla faz uma abordagem de política, problemas sociais e cultura popular de uma forma vanguardista deliciosa. O cinema é explorado e atinge níveis de criatividade fascinantes. Contando com uma técnica incrível, unindo a perfeição de sua narração em off com sua montagem louca e muito propositalmente bagunçada, para justamente rir da bagunça que o país se encontrava graças ao bandido, graças ao sistema, graças a todas as porcarias das quais fez piada.

Com influências ao cinema americano, onde podemos notar tiroteios, planos e montagem e até narrativa, ele suga tudo aquilo que a arte estava projetando e usou com muito sucesso aqui. A montagem ousada lembra muito Orson Welles e a narrativa louca, Jean-Luc Godard (inclusive cenas que muito lembram O Demônio das Onze Horas). Essa salada de estilos e vanguardas muito bem aplicadas dentro do filme, cria cenas sublimes, deslumbrantes, que de fato destrincham as entranhas da podridão nacional e fazendo graça, no meio de toda a sua boçalidade, sintetiza um período que de certa forma, ainda é bastante atual.

Algumas propostas do filme são muito presentes, como a violência e os problemas sociais que ainda persistem. O filme em momento algum aponta culpados, mas ironiza o trabalho ineficaz que o sistema tem feito para conter o avanço da violência. Diferente das bobagens que mostram a polícia como culpada de tudo e a bandidagem como personagens românticos que levam justiça a todos, Sganzerla com sua ironia e brincadeiras audiovisuais consegue ser muito mais crítico e muito mais direto ao ponto mantendo uma imparcialidade que destrói.

E o legal é ver ele e sua imparcialidade usando a imprensa para ligar os pontos em seu filme
. É tudo narrado por duas vozes que parodiam aqueles programas policiais de rádio que faziam sucesso na época, com seus sensacionalismos e ênfases em palavras chave apenas para chocar. Há ainda o lendário Chico Laço, que une os fatos com sua abordagem apenas no intuito de incriminar e ver as ruas banhadas em sangue, mostrando o poder da imprensa escrita na época.

O que mais encanta nesse filme é justamente o fato de transformar uma vida real em cinema em estado bruto. Unindo as vanguardas que inspiram essa arte com a simplicidade de um popular, culmina num momento espetacular para a cinematografia no Brasil. Sganzerla com apenas 22 anos demonstra uma maturidade fantástica na condução de seu filme longa metragem de estréia.

E bem como nos momentos finais do filme, onde o fato de seres extraterrenos e suas naves redondas e brilhantes tirarem a atenção do povo, funcionando como um belo presente de grego para desviar a atenção popular do significado da morte do Bandido e do fim da Mão Negra. Tudo ao som do samba e da guitarra furiosa de Jimi Hendrix, com o terceiro mundo explodindo a nossa volta, mas todos satisfeitos e continuar sendo enganados e servir de marionetes para o sistema que impera.

 Estou buscando aquilo que o povo brasileiro espera de nós desde a chanchada: fazer do cinema brasileiro o pior do mundo.”
Rogério Sganzerla em entrevista para o Jornal do Brasil, 1969

~~

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *