A Rosa Púrpura do Cairo (Woody Allen,1985)

A Rosa Púrpura do Cairo (Woody Allen,1985)

O jeito que Woody Allen encontrou de nos fazer amar o cinema

Por Rafael Lopes

Woody Allen facilmente pode ser considerado como um dos diretores mais criativos do cinema. Sempre de maneira simples, porém com detalhes que dizem muito, seja nas comédias ou nos filmes mais sérios, deu um jeito de falar sobre as coisas da vida com tanta perfeição que nunca precisou de grandes orçamentos e nem de um arrasa quarteirão para consagrar seu nome. É um monstro do cinema, que em roubos de banco, tiques de Fellini, revivendo Guerra e Paz ou analisando psicologicamente tipos da sociedade, disserta a cada filme sobre a vida e sobre viver. A Rosa Púrpura do Cairo, um exemplar da safra mais criativa do diretor, é uma amostra dessa capacidade.

Cecilia (Mia Farrow) vive em dois mundos, o da grande depressão que assola a economia nos Estados Unidos e o dela mesma, onde ela por meio de um cinema consegue se desprender das dificuldades de uma vida e levar outra onde ela pode se sentir feliz. O marido (Danny Aiello) é um troglodita que a pisoteia, por ela ser desastrada ganha uma demissão da lanchonete onde trabalha. Em meio a tanta dificuldade, o cinema parece a melhor saída. É assistindo ao filme em cartaz – que também é o título do filme – ela acaba fazendo parte daquela realidade, que só o cinema é capaz de proporcionar, com viagens a lugares exóticos, aventuras e situações que ninguém se imaginou um dia, e com isso, ela desperta a paixão em um dos personagens do filme, que faz questão de sair da tela para viver com ela.

É aparentemente tão absurdo, mas é acima de tudo belo. É uma declaração de amor a arte de fazer filmes, onde se nota numa metáfora a constante busca de quem trabalha com cinema: pessoas querendo a vida da ficção e a ficção querendo ser a realidade – como muito bem Allen contextualiza em seu roteiro essa ideia. O choque entre a realidade da vida real com a de um personagem do cinema é trazida com o eficaz bom humor e o olhar atento de Allen para certas nuances que é importante destacar. A champanhe e o dinheiro de mentirinha; o carro que não anda só; o fade que não entra quando se beija e as possibilidades que tornam as vezes a ficção mais encantador que a realidade.

Obviamente um principio de caos se estabelece na indústria cinematográfica, levando o ator galã interpretado por Jeff Daniels ir em busca de seu personagem e assim salvar sua carreira. Mais uma vez Woody Allen deixa seu olhar crítico em relação a essa situação de personagem e ator. Cecilia coitada fica no meio desse jogo de interesses, mas o que cresce entre ela e os dois é algo aparentemente idêntico, só que muito distinto. Com o personagem ela experimenta a falta de limites, ainda mais quando entra no filme, mas com o ator, o que se tem é a admiração que é usada contra ela no que pode ser a conclusão mais severa e realista para todos no filme – porem, ainda que seja inacreditável, feliz.

E Woody Allen? Ele divide essa ideia, uma vez que não se encaixaria em nenhum personagem, uma vez que não tem porte para ser galã e tampouco para ser um brutamontes. Mas ele exerce a melhor das funções, ele dirige o filme, e só ele é capaz de adentrar nesse universo proposto pelo filme e sair brincando com isso de maneira formidável. É tanto que ele deixa sua visão nos convencer de que tudo aquilo simbolizado no filme é pura e simplesmente a relação publico e arte existente na cultura.

O que ele faz é nos permitir criar asas para sempre buscar por meio de escapes, como a de Cecilia, uma maneira de nos sentirmos vivos novamente, nos permite sonhar e continuar sonhando, renovando toda a crença existente na magia que é a sétima arte. O teor nostálgico de quando se entra numa sala de cinema ou a sensação única de prazeres como um beijo ou uma declaração de amor são as formas que ele encontra para transmitir essa mensagem tão bonita e sincera. É tanto que A Rosa Púrpura do Cairo possui uma personalidade tão presente e tão confortante que o próprio Woody Allen o considera seu melhor filme, e nem é preciso citar quantas obras primas ele já fez.

E tudo o que se pode dizer sobre esse filme, é que por mais que a realidade seja dura, por mais que os sentimentos sejam injustos, sempre haverá uma tela de cinema capaz de lhe renovar a esperança e confortar a alma. Fred Astaire cantando “Heaven, I’m in heaven” dançando com Ginger Rogers estão lá para provar.

 

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