, ,


Pelo em Ovo – Ida

A seção Pelo em Ovo é basicamente uma crítica baseada em teorias ilógicas ou improváveis. O filme da vez é Ida (Paweł Pawlikowski – 2013).
(TEXTO COM SPOILERS)


 

Fazia um tempo que não escrevia pra seção, mas esse filme chegou tanto em mim que não tive escolhas!
Não, esse filme não é apenas um retrato do holocausto pra mim. E também não é só a “fotografia maravilhosa” que todos comentam.
Ele mostra a dualidade do ser humano. E acredito que é isso que o diretor queira passar.

O filme, ganhador do Oscar estrangeiro, conta a história de Anna, uma garota que vive em um convento e que está prestes a prestar seus votos, porém, por insistência da Madre Superiora, ela decide ir visitar a sua única parente viva, uma tia chamada Wanda Cruz (a cruz no nome já).

De cara, já vemos todo o simbolismo no filme. No início, Anna aparece pintando uma escultura de Jesus Cristo e essa cena aparece em uma lentidão única, assim como as tomadas iniciais.
Ao chegar à casa de sua tia, Anna se depara com o seu oposto, uma mulher mundana e cética, que, por muitas vezes, critica e debocha da religião da sobrinha. Tanto nesse primeiro encontro quanto no decorrer do filme, notamos que a tia vive de Preto e Anna aparece sempre com uma cor mais clara, mostrando todo o cuidado do diretor para conseguir a conotação certa para demonstrar essa dualidade entre as duas.

Na casa da tia, Anna descobre que é judia e que na verdade se chama Ida (no começo eu havia achado que o nome do filme era Ida porque ela estava indo visitar a tia como em uma viagem sem volta, algo do tipo) e, a partir disso, resolve ir atrás do túmulo de seus pais que faleceram durante a Segunda Guerra Mundial.
Essa busca pelo túmulo é magnífica, assim por dizer, pelo fato de Anna (ou Ida agora) ir junto de sua tia. E o contraste entre as duas é evidente. Enquanto a tia, de preto, se embebeda, flerta com rapazes pelos lugares que elas passam, se impõe, discute, tinha um emprego de poder e tem uma postura firme, Ida aparece sempre de hábito de freira, mais calada, não conversa muito e aparece sempre rezando. O que é legal aqui é que Ida sempre aparece seguindo a tia pelos locais e nunca o contrário. Como se fosse uma nova seguidora. Como se não tivesse força para tomar as decisões.

Percebemos a personalidade da tia Wanda logo no início da jornada, quando ela entra (praticamente invade) na casa de um rapaz atrás do paradeiro dos pais de Ida. Lá, um diálogo sobre o enterro dos pais da sobrinha é colocado em questão com uma câmera por uma porta apenas pegando a tia sentada. Quando a câmera vira de volta para a sobrinha, notamos uma cruz na parede. Aqui se faz outra referência ao simbolismo. Ida sempre aparece em locais onde há uma cruz ao fundo (no início do filme, na casa da tia, na casa do homem, na igreja que se hospeda), o que remete à sua crença inicial que a acompanha.
Mas toda a descoberta sobre a origem judaica, somado ao falecimento dos pais por parte de um cristão e também ao encontro com um saxofonista que haviam dado carona e que havia despertado um interesse nela, começam a entrar dentro da mente de Ida.
O saxofonista tem com Ida duas conversas com duas fotografias esplêndidas que exaltaram a dualidade entre religião e paixão:
1 – Na primeira, aparecem só a parte de cima do corpo dos dois de longe. Ao fundo, vemos um portão que lembra a formação de corações e cruzes (imagem).
2 – Na segunda, os dois aparecem em uma bancada, mais focados pela câmera. E ao fundo, mais uma vez, podemos ver luzes (formando o amor) e cruzes na frente.
Apesar de toda essa dúvida que Ida tem em se entregar para o saxofonista (e a tia vê isso nela também), ela resolve partir.

Ao encontrar o cara que ajudou os pais em uma cama de hospital definhando, temos um diálogo carregado, na qual deduzimos que ele havia matado os pais dela.
O filho do cara promete mostrar onde os pais dela estavam enterrados se ela parasse de incomodar o pai, e nessa cena da busca pelo local, vemos a sobrinha andando na frente da tia, mudando a rota que se seguia pelo filme, mostrando uma Ida já mudada.
Nessa cena temos a revelação do filho do cara que ajudou os pais, ele diz que fora ele quem matou os pais e o irmão de Ida. Após a cena, temos Wanda e Ida levando os restos mortais dos pais e do irmão (que a tia tentou encobrir a notícia no começo) para enterrá-los na cidade natal delas, e aqui notamos Ida focada em realizar seu objetivo, mostrando-se uma pessoa mais forte.

Depois, ela resolve voltar ao convento para fazer seus votos.
Notamos uma tia, que no início parecia não querer receber a sobrinha, mais sentida após a despedida. No decorrer do filme, vemos as duas com dúvidas em suas vidas.
Ida chega a dizer para a escultura que esculpia no início que não estava pronta e na hora de fazer os votos (para mim a cena mais marcante do filme) vemos uma lágrima escorrendo em seu rosto.
A tia se mantém na vida boêmia, bebendo, fumando e se envolvendo com homens. E aí que temos outro baque do filme: a tia, em uma cena fenomenal, ao som de música clássica ao fundo, se atira pela janela (para salvar a sobrinha do convento?)
Em seguida, vemos Ida no apartamento da tia se transformando. Veste uma roupa preta, acende um cigarro e encontra o saxofonista em um bar.
No último encontro entre os dois, temos em uma sala escura pegando todo o corpo do casal. Aqui já não há mais luzes, corações ou cruzes ao fundo. E sim o chão xadrez. Mais uma vez o preto e o branco, juntos, em contraste. Como se Ida estivesse no meio dos dois, em dúvida entre o branco e o preto, entre o profano e o sagrado.
E aí, em um dos diálogos mais marcantes do filme, temos os dois na cama, onde ela pergunta “e depois daqui? o que faremos?”, e a resposta do saxofonista é “sei lá, compraremos um cachorro, teremos filhos”, ela rebate “e depois?”, ao que ele responde “os mesmo problemas. a vida”.

Ida, no dia seguinte, se levanta, coloca seu hábito de freira, como se tivesse decidido voltar ao convento. O final é genial pois, diferente do início onde estava tudo tão parado e travado, temos uma truculência na câmera, como se fosse a mente e a vida de Ida agora. E o filme se encerra aí.

E o que o filme quer passar com tudo isso?
Não creio que a mensagem do filme seja apenas a de como o holocausto interferiu na vida de cada uma das personagens. Acredito que seja a questão da escolha, da dualidade das escolhas. Todos temos escolhas na vida, Ida havia escolhido ser freira e o conhecimento de sua origem, sua tia, uma paixão, tudo isso pôs em cheque essa decisão que havia tomado. Mas ela volta a essa decisão ao fim, mostrando ser, no fim das contas, mais segura do que a tia, que no começo despontava com uma personalidade forte e cheia de si.

Qual caminho era o certo? Não sei, Ida teve que mudar antes de se decidir. E no começo do filme, até pensamos “como deve ser parada a vida das freiras”, mas o diálogo no final com o saxofonista na cama mostra que a vida que esperamos é um tanto quanto similar à delas.
Longe de dizer se o certo era a igreja ou a vida da tia, o diretor quis nos fazer pensar nessas escolhas bruscas, que envolvem a dualidade entre o que é dito certo e errado, entre religião e paixão, entre origem e aprendizado, que temos que tomar na vida.
Se não é isso também, não importa, o filme é, indiscutivelmente, um dos melhores filmes do ano e merecia um texto aqui.

E assistam o filme, porque ele é uma Ida. E sem volta.

Written by Felipe Yuzo

Aquela dose de alma na penumbra diária.

Comments

Leave a Reply
  1. Vi muitos comentários na internet de pessoas dizendo que não foi justo Ida ganhar, que era o mais fraco da lista. Discordava e continuo discordando depois de rever o filme. Foi um ano muito bom pra filmes estrangeiros, qualquer um que ganhasse da lista seria muito justo.
    Mas Ida foi muito interessante de ganhar primeiro por ser um filme independente; segundo porque o roteiro e a fotografia se casam de uma forma que é difícil ver nos filmes de hoje (na categoria de fotografia do Oscar, o que mais vale é a beleza visual, o HD). Tanto que o filme têm poucos diálogos, conseguindo transmitir sua mensagem só pela composição da tela.
    Texto muito bom! Não tinha lido muito sobre esse filme na internet, as pessoas só ligam normalmente para as categorias principais e mais reconhecidas.

  2. O claustro, a confusão mental diante da verdade biológica, a curiosidade, a recusa, o contato com o mundo, o perdão, a incerteza, a experimentação, o medo e o retorno à segurança proporcionada pela ignorância no claustro. Tudo muito interessante.

Leave a Reply

Your email address will not be published.

Loading…

Loading…

Comments

comments