, ,

Abbas Kiarostami: Onde Fica a Casa do Meu Amigo?

Abismo entre gerações em uma odisseia movida pela empatia

Nascido em Teerã, no Irã em 1940, Abbas Kiarostami graduou-se em belas artes antes de começar a trabalhar como designer gráfico. Em seguida, se juntou ao Centro de Desenvolvimento Intelectual de Crianças e Jovens Adultos, onde começou a participar de uma seção dedicada ao cinema. Iniciando sua carreira como cineasta aos 30 anos, Abbas dirigiu muitos filmes e tornou-se um dos mais importantes cineastas iranianos contemporâneos. Também sendo uma figura importante no mundo das artes, teve inúmeras exposições de fotografia, curtas-metragens e poesia. Faleceu em 04 de julho de 2016 na França, em decorrência de um câncer gastrointestinal.

Entre algumas características de seus filmes estão o uso de não atores, planos longos e panorâmicos, enredos mínimos que fogem do dramático e a aparição de estradas em ziguezague. E é isso que pode ser conferido em “Onde Fica a Casa do Meu Amigo? ” (Khane-ye doust kodjast?, 1987). Com um enredo bem simples, mas ao mesmo tempo forte em seu discurso sobre a infância e a força da amizade entre duas crianças, o roteiro (também de Abbas) narra a história de Ahmed (Babek Ahmed Poor), um menino de oito anos que ao perceber que ficou por engano com o caderno de seu amigo e colega de sala, Mohamed (Ahmed Ahmed Poor), decide devolvê-lo para que o garoto não seja expulso da escola por seu professor.

É através dessa simplicidade que Abbas toca em temas como o conflito de gerações e o abismo entre o universo infantil e o universo adulto. Algo também recorrente no filme, é o uso das portas. A primeira delas surge logo na primeira cena em que vemos a porta da escola bem simples onde estudam Ahmed e Mohamed, ser aberta pelo professor das crianças. O homem que parece ser bem rígido, cobra os deveres de casa de seus alunos e repreende Mohamed por ter feito a lição de casa em uma folha de papel avulsa ao invés de usar seu caderno. O olhar de empatia de Ahmed é notório, principalmente quando o amigo começa a chorar por ter sua folha rasgada pelo professor. Aliás vale destacar a expressividade dos dois garotos que não eram atores. Com um olhar bem expressivo, Babek transparece sua preocupação e empatia com seu amigo sem precisar dizer absolutamente nada. Até suas breves olhadas para a câmera são facilmente perdoadas.

Essa narrativa bem realista contempla planos inteiros que visam explorar bem a rotina de seus personagens e seus afazeres, como quando Ahmed ajuda sua mãe a cuidar de seu irmão ainda bebê. Ao perceber em casa que ficou com o caderno de seu amigo, o garoto mais uma vez apenas com sua expressão e ação demonstra o engano e a preocupação sem dizer uma só palavra ou até sem a necessidade de um plano detalhe dos cadernos que poderia facilmente tornar o equívoco mais explícito para o espectador. Mais uma vez a incompreensão se faz presente quando a mãe de Ahmed não dá a mínima para a preocupação do filho em ajudar o amigo na escola e o impede de sair de casa para que ele devolva seu caderno. O impulso do garoto em ajudar é mais forte e ele decide procurar a casa de Mohamed ao invés de ir comprar o pão que sua mãe pediu.

Por mais simples que isso pareça, a narrativa que é do ponto de vista de uma criança de oito anos, transforma a busca de Ahmed em uma grande odisseia. Planos abertos priorizam caminhos em ziguezague, morros, pequenas florestas e um labirinto de ruas e casas. Em cada porta, a esperança de encontrar o amigo para lhe devolver o caderno. Os adultos que não sabem onde vive o menino, ajudam como podem, mencionando o bairro certo para que o garoto possa encontrar a casa de Mohamed. E é nessa busca que alguns personagens vão aparecendo e trazendo em suas cenas questões também pertinentes. O serralheiro que tenta convencer alguns senhores a trocarem suas portas de madeira por portas de ferro, pouco dá atenção ao menino, ignorando-o completamente quando o garoto pergunta se ele seria o pai de Mohamed, restando a Ahmed seguir o homem até sua casa.

Ao conseguir uma informação com o filho do homem, o menino encontra um dos personagens mais interessantes do filme. Um senhor que demonstra ser o único adulto a se solidarizar com as boas intenções do garoto e decide levá-lo até a casa de seu amigo. No caminho o conflito entre o velho e o novo fica mais óbvio. O senhor se lembra das portas e janelas que havia feito para as casas em que passa durante a caminhada e aponta o fato das mesmas estarem agora sendo trocadas por portas e janelas de ferro. Sua sensibilidade e saudosismo fazem do personagem o único a ter uma sensibilidade mais notória para compreender o objetivo de Ahmed e acompanha-lo, talvez até pela solidão do personagem que logo nos é mostrada quando o senhor volta para casa.

Abbas também tinha o dom de trazer em seus filmes uma atmosfera que ficava entre a realidade e fantasia. Em um determinado momento, já á noite, o roteiro dá uma leve mudada no tom, mas ainda permanecendo no realismo com que vinha contando a história desde então. O menino se sente acuado nas ruas da cidade e toda essa sensação de medo é passada também para nós que vemos o filme com os olhos de Ahmed. Sombras e latidos nos parecem uma ameaça assim como para o garoto.

“Onde Fica a Casa do Meu Amigo? ” é o tipo de filme que traz o calor humano para um mundo que muitas vezes parece ter se tornado um lugar hostil, além de contemplar uma amizade sincera entre duas crianças que ainda não se depararam com a dificuldade de ser adulto. Sem dúvidas é uma verdadeira odisseia rumo a solidariedade.

 

Written by Tarcísio Araújo

Formado em Cinema pelo CEUNSP - Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio. Escreve para o blog Canal Simulacro e site o Cinetoscópio.