Dunkirk

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Crítica – Dunkirk

As controvérsias da experiência cinematográfica

Os últimos trabalhos de Christopher Nolan me agradaram pela ambição mas me decepcionaram pelo pretensiosismo e por subestimarem seu espectador. Interestelar (2014) parecia ser uma nova ficção científica transcendental e era vendido como tal, mas não passava de um melodrama pastelão no espaço, incoerente em muitos momentos; já A Origem (2010) era vendido como “o filme mais enigmático dos últimos tempos”, ainda que fosse super didático em todo seu primeiro ato, para mim funciona muito bem como filme de ação. Dunkirk não é tão didático como A Origem nem melodramático quanto Interestelar, pelo contrário, é um filme de poucos diálogos com pouca “exploração” das emoções dos personagens, é mais natural nesse sentido, mais visceral e observador. É um exercício de tensão em que o desfile de técnica apurada encobre a proposta problemática apresentada.

A história, basicamente, segue três núcleos diferentes que se encontram em determinado tempo e espaço, o porto de Dunquerque, na França. Cada núcleo tem que enfrentar as injustiças e crueldades da guerra para atingir seus objetivos. O filme então, logo em seu primeiro minuto, deixa claro que a narrativa seria guiada por uma experiência de imersão, com um design de som e fotografia em 70 mm afiados para colocar o espectador dentro da ação (assista em IMAX), e daí em diante passamos a acompanhar os personagens em suas jornadas individuais e coletivas. Friamente, gosto do elenco, acho que todos estão bem, e gosto dos dilemas de cada personagem, as decisões difíceis que definem o caráter de cada um. O problema é que em nenhum momento eu realmente me importei pelos personagens, talvez por serem apenas peças no tabuleiro da guerra (a grande protagonista), mas ainda assim, quando a resolução chegou eu não me importava se os personagens foram bem sucedidos ou não, e para a conclusão que Nolan escreveu e conduziu essa identificação é necessária. Por sinal, uma resolução um tanto romântica para um filme até então objetivo, focado em mostrar apenas a ação crua e realista; o filme muda radicalmente de tom.

Como falei no começo, é um desfile técnico e nesse sentido Dunkirk beira à perfeição, ainda mais quando acompanhado pela trilha-sonora de Hans Zimmer, que faz o filme pulsar e rolar. Por isso, em diversos momentos você questiona se o que está vendo é real ou fictício e essa experiência se torna a principal virtude do filme. Ou seja, a “experiência sensorial da guerra” é o que entretém, diverte o público, e isso me levou a pensar sobre as questões éticas dessa proposta: seria justo tratar uma história factual, sensível e crítica como apenas entretenimento?! Seria respeitoso com todos os envolvidos vender uma “experiência de guerra”? Não sei a resposta exata, por isso é uma questão que merece atenção e discussão, mas admito que não só me incomodou mas foi o único aspecto do filme que levei comigo ao sair da sessão. Em filmes como Sem Novidades no Front (1931), Nascidos Para Matar (1987), O Resgate do Soldado Ryan (1998) e até o recente Guerra ao Terror (2009), a guerra é cruel e injusta e tudo mais, mas seus filmes propõe reflexões a partir das jornadas de cada personagem, a partir da maneira em que cada um reage à destruição que acontece ao seu redor. Por exemplo, a cena de abertura de O Resgate do Soldado Ryan é o mais próximo que se tem de Dunkirk, mas aquela cena é necessária para contextualizar a trama e apresentar o personagem principal, cujas características e necessidades dramáticas são definidas sutilmente, facilitando e realizando a identificação para com o espectador logo no começo. Novamente, os personagens em Dunkirk não funcionam assim, eles são – por incrível que pareça – coadjuvantes (como personagens de um jogo de video-game em primeira pessoa).

Se a proposta de Nolan não era essa, só pode ser a de mostrar como a guerra é cruel e atinge a todos, direta ou indiretamente. Só que para essa proposta, os filmes citados acima são muito mais interessantes e honestos. O espetáculo está presente em Dunkirk, mas falta o coração, falta a substância. Curiosamente, isso não faltou à Interestelar e A Origem, seus problemas eram outros, o que prova a “pseudo evolução” de Nolan, um diretor competente e talentoso que sempre conseguirá impactar seu espectador pelo show que consegue entregar, mas isso nunca será o suficiente para elevar o status de seus filmes à obras-primas, principalmente quando ele fala mais do que deveria sobre eles enquanto estes deveriam falar por si.

Se você que lê esta resenha não se importa com nenhuma dessas questões de linguagem e ética do cinema, provavelmente gostou muito mais do filme do que eu. Não tem problema, contudo não se limite a ser apenas mais um no meio desse hype todo que louva a “genialidade” de Nolan e não questiona suas decisões. Esse não é o papel do espectador.

Written by Nate Buzelli

Cinéfilo empenhado, Nate começou a escrever artigos e resenhas ainda em 2008 no seu primeiro blog. A exposição que teve ainda jovem a filmes como "O Sétimo Selo", '8 1/2", "Laranja Mecânica" e "A Primeira Noite de um Homem" o ajudou a decidir seguir carreira na área e também o deixou um tanto perturbado. Nate é formado em cinema e audiovisual e hoje se dedica a carreira de cineasta ao mesmo tempo que continua escrevendo suas críticas de TV e cinema.