, ,

Love

Reasons to See – Paterson

A beleza do mundano.

Jim Jarmusch regressa novamente para nos mostrar tudo o que deveríamos ver à nossa volta. Paterson, retrata diretamente o mundano como algo de extraordinário. Como tudo o que nos rodeia encaixa perfeitamente para que cada um de nós possa criar, com beleza, o seu caminho.

Este é o filme perfeito para todos aqueles/as que sintam que a luz natural da vida fugiu, ou que existem agora nuvens negras que a ocultem. Assim que assistirem, irão olhar com paixão e brilho nos olhos até para o despertador que tanta dor de cabeça vos dá!

Sem mais demoras, aqui vão as razões para veres Paterson (2016), com argumento e realização de Jim Jarmusch:

  1. Paterson, és tu.

    Paterson (Adam Driver) é um condutor de autocarro na pequena cidade de Paterson, no entanto a sua verdadeira vocação é a poesia, embora Paterson lute contra si mesmo na aceitação de que é bom no que escreve. Para isso temos Laura (Golshifteh Farahani), companheira de Paterson, completo oposto do inseguro e realista Paterson, Laura é destemida, sonhadora, “cabeça no ar” e extremamente apaixonada pela vida e bastante segura, embora oscile entre várias vocações é claramente uma artista. Laura ajuda-o a ter confiança no seu trabalho poético e incentiva a publicação do caderno secreto onde Paterson regista todas as suas palavras.

    Não estamos todos nós também submersos na realidade, a lutar pela procura do nosso significado neste espaço terrestre? Mesmo que aparentemente este secreto poeta (para ele mesmo e para os outros) não se interesse particularmente por este pensamento existencial, irá mesmo assim questionar a verdadeira importância da sua escrita ao longo do decorrer do filme aquando de vários infortúnios e encontros.

  2. Poesia.

    Como já deu para entender, a poesia está bastante presente, não apenas como escrita, mas também na estrutura da linguagem das vidas representadas no filme e na composição cinematográfica deste mesmo.

    Tudo aqui é poesia, desde o modo como o enredo é trabalhado, a repetição presente nas cenas que representam a rotina do dia-a-dia, o ritmo destas, as pequenas diferenças que distinguem os dias… Podemos associar tudo isto a uma sequência poética que nos embala e nos movem ao longo do tempo.

    É também sentido nos pequenos versos que vão sendo narrados por Paterson, acompanhados pela paisagem da viagem rotineira do pequeno autocarro e pela música.

  3. Música.

    Como sempre, Jim Jarmusch tem o cuidado e amor pelo sonoro dos seus projetos. É sem dúvida respeitado por isto e podemos encontrar em todos os seus filmes a tentativa de incutir um cheirinho de cultura musical ao espectador, com especial destaque a Iggy Pop (do qual realizou o documentário Gimme Danger, em 2016).

    Neste caso o cenário principal de tal partilha é o bar de Doc, jogador e próprio adversário de xadrez, onde todas as noites Paterson, ao levar o seu cão a passear, pára para tomar o seu copo de cerveja e ocasionalmente dar a sua opinião sobre quem colocar na “Wall of Fame” de Doc.

    O soundtrack nesta longa metragem, como disse, é sensivelmente escolhida, acompanha na perfeição o ritmo das vidas aqui representadas e o ritmo da poesia rabiscada por Paterson.

  4. Argumento incrível. Representação ainda melhor.  


    Pensemos, depois de tudo isto lido, como será que não nos aborrecerá ver o mundano, o dia-a-dia com todo o ritmo chato do quotidiano, com cenas que se repetem, durante 1h de filme. Aí entra o génio Jarmusch, este escreve e representa o que tanto vemos, de uma forma bela, suave, cómica, apaixonada, realística e mágica ao mesmo tempo. Tudo o que queremos fazer é, assim que acabe o filme, sair da sala de cinema, do quarto ou até da casa do vizinho, e prestar atenção a tudo, apreciar e agradecer por tudo o que temos, entender que talvez aquilo que um dia pensamos ser de pequena relevância, é agora algo que tem todo o valor para existir na nossa vida e que, se calhar, são estes breves momentos, gargalhadas, obstáculos, que fazem da vida, a vida.

    Nota-se claramente que os atores foram escolhidos a dedo. Adam Driver é mais uma vez excecional, a sua postura e figura encaixam mesmo bem com a personagem Paterson. Golshifteh Farahani, é igualmente perfeita, representa a personagem mística Laura com todo o carinho, calma e sensibilidade que esta precisa. Doc, Barry Shabaka Henley, transporta-nos comicamente para o mundo dos problemas a resolver, com grande fascínio pelo apreço do que lhe é querido e com orgulho do que é da sua cidade. Até o cão é estranhamente certo para ser o cão ciumento, entre muitas outras personagens, que desde a primeira vez que entram em cena mostram que têm um lugar nesta.

  5. Destino.


    Como não poderia faltar, ao falar de poesia fala-se de romance e de tudo o que é, talvez, intocável, belo, irracional. Penso que Paterson é um bom exemplo do que poderá ser uma das interpretações de “destino”. Todas as peripécias encontradas no caminho de Paterson levam à realização do corpo que este acarta na sua lancheira, na sua mão e no que guarda no seu mini-escritório de casa. Este caderno secreto esconde em si o que Paterson é, sem ainda o saber ou acreditar. Mais uma vez, já todos fomos um Paterson em algum momento da nossa vida, certo?

    É lindo o modo como Jarmusch dá a conhecer a mudança da rotina de Paterson e o que, como por destino, acontece a seguir.

    O remate do filme é sem dúvida o que todos nós, um dia ou outro, sentimos.
    Ah-ham!“.

 

Veja aqui o trailer:

Written by Daniela Maia

Entusiasta por tudo o que é belo, espetacular, sensível e por tudo o resto que me é difícil nomear.
Nasceu e vive, para já, em Portugal.

Comments

Leave a Reply

Your email address will not be published.

Loading…

Loading…

Comments

comments