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Full Metal Jacket e a Dualidade do Homem

“Semper fi, do or die. Gung ho. Gung ho. Gung ho.”

Texto contém spoilers e será melhor compreendido após a visualização do filme.
Contém texto em inglês.

“Semper fi, do or die. Gung ho. Gung ho. Gung ho.”
Escolhi entender o filme “Full Metal Jacket” pela fala de Joker (Matthew Modine), aos 65 minutos do filme, quando ele é questionado por um oficial:
Oficial: “Marine, what is that button on your body armor?”
Joker: “A peace symbol, sir.”
Oficial: “Where did you get it?”
Joker: “I don’t remember, sir.”
Oficial: “What is that written on your helmet?”
Joker: “Born to kill, sir.”
Oficial: “You write born to kill on your helmet and wear a peace button. What’s that supposed to be, some kind of sick joke?”
Joker: “No, sir.”
Oficial: “What is it supposed to mean?”
Joker: “I don’t know, sir.”
Oficial: “You don’t know much.”
Joker: “No, sir.”
Oficial: “Get your head and your ass wired together or I will take a giant shit on you.”
Joker: “Yes, sir.”
Oficial: “Now answer my question or you’ll be standing tall before the man.”
Joker: “I was trying to suggest something about the duality of man, sir.”
Oficial: “The what?”
Joker: “The duality of man. The Jungian thing, sir.”

“The duality of man”, ou a dualidade do homem é uma idéia criada pelo psicanalista suíço Carl G. Jung¹ que se dizia um cientista, um empírico, que bebeu em múltiplas fontes, construiu sua teoria a partir da prática da psicoterapia e de suas experiências com os sonhos e estudo das imagens e símbolos do inconsciente. Ele sugere que dentro de nós temos uma dualidade, a do nosso inconsciente – conteúdos inconscientes de nossa trajetória pessoal, inclusive emoções, sentimentos, memórias sendo alguns reprimidos- e a do inconsciente coletivo – local onde ficariam os símbolos primários de nossa civilização, os arquétipos.

No caso do filme “Full Metal Jacket” a dualidade é mostrada de diversas maneiras, expressando que dentro de nós está a possibilidade nua e crua de matar, como de ser bondoso e benevolente, que não é como se houvesse uma verdade ou apenas um caminho, mas sim diversos que se entrelaçam e se unem fundindo um só, a vida. Desta forma, nessa análise, pretendo demonstrar, a partir de cenas e falas, como Stanley Kubrick se utilizou desta idéia, para fazer um dos filmes mais impressionantes e magistrais da nossa época. Algumas falas e cenas terão explicação e outras, por uma questão de contexto, não.

A segunda cena do filme, após a cena inicial, onde os recrutas têm seus cabelos raspados, é a primeira apresentação da dualidade no filme. A cena consiste no Sargento Hartman (Ronald Lee Ermey), fazendo um discurso de apresentação, onde ele desqualifica os recrutas com os mais obscenos adjetivos e comentários possíveis, degradando a imagem que cada um possui de si mesmo, colocando em cheque a individualidade de cada um. “You are the lowest form of life on Earth. You are not even human-fucking-beings”. Esses recrutas, que antes eram indivíduos únicos, que possuíam suas diferenças peculiares de sentimentos que formavam suas personalidades, agora tinham seus cabelos raspados, e suas seguranças corrompidas transformando-os aos poucos em soldados e não mais em indivíduos. A indiferença e a repressão, as quais são submetidos, faz com que, de pouco em pouco, outras facetas, que esses jovens recrutas não sabiam existir dentro de si, aflorem. O personagem Joker aparece pela primeira vez nesta cena quando Hartman faz um comentário racista ao Private Snowball (Peter Edmund) e Joker faz uma piada. Hartman vem em direção a onde ele escutou o comentário – pois estava de costas, do outro lado da sala- e pergunta quem fez a piada. Joker diz que foi ele e Hartman diz: “Well, no shit. What have we got here? A fucking comedian. Private Joker. I admire your honesty. Hell, I like you. You can come over to my house and fuck my sister.” Ele da um soco na barriga de Joker e após mais algumas ameaças e xingamentos ele pergunta: “Private Joker, why did you join my beloved Corps?” Joker: “Sir, to Kill, sir” Hartman: “So you’re a killer?” Joker: “Sir, yes, sir”. Este é o primeiro momento que a dualidade de Joker é mostrada, o mesmo homem que faz uma piada ridicularizando o instrutor por fazer um comentário racista, diz que se candidatou para ir a guerra matar. Mais a frente Joker é questionado pelo Hartman sobre o seu amor pela virgem Maria e Joker diz que não acredita nela, Hartman fica possesso, mas admira a coragem de Joker de expor a sua opinião mesmo sabendo que seria retalhado pelo sargento. Joker é apresentado como um homem que, de alguma forma, possui um estudo teórico, possivelmente marxista pelo seu posicionamento ateu, mas mesmo assim ele vai para o Vietnã matar comunistas.

Deixando Joker de lado por um momento, outro personagem muito importante na narrativa do filme é o Private Pyle (Vincent D’Onofrio). Pyle é um jovem alto, acima do peso, provavelmente nasceu em alguma fazenda nos EUA. Ele é apresentado como um personagem inseguro, meio bobalhão que no momento que o Hartman esta fazendo sua apresentação não consegue manter a cara séria e ri dos comentários obscenos que Hartman faz. Hartman vem ao encontro de Pyle e pede para ele tirar o sorriso da cara. “Do you think I’m cute, Private Pyle? Do you think I’m funny? Wipe that disgusting grin off your face.” Pyle: “Sir, I’m trying, sir” Hartman: “Private Pyle, I’ll give you three seconds, exactly three fucking seconds to wipe that stupid-looking grin off your face or I will gouge out your eyeball and skull-fuck you. One. Two. Three.” Pyle: “Sir, I can’t help it, sir” Hartman “Bullshit. Get on your knees, scumbag.” Nesse momento Pyle fica de joelhos e Hartman pede para Pyle se enforcar –a mão de Hartman meio fechada como que segurando um pescoço e Pyle, atrás, ajoelhado- Pyle que não entende muito bem o pedido e coloca suas próprias mãos no pescoço, finge se enforcar. Hartman o chama de estúpido e diz que é com a sua mão que ele deve se enforcar, então Pyle aproxima seu pescoço da mão semi fechada e Hartman o enforca por um tempo e depois solta. Essa é a apresentação do personagem que mais tarde será a semente para que a violência e a intolerância se alastrem pelo resto dos recrutas. O filme continua após a fala de apresentação do sargento, mostrando os recrutas treinando, há duas coisas muito interessantes na cena seguinte a fala do sargento. A primeira é a maneira com que Joker explica o local onde eles estão. “Parris Island, South Carolina, the United States Marine Corps Recruit Depot. An eight-week college for the phony-tough and the crazy-brave”. Novamente, mas de outra maneira, Kubrick coloca duas possibilidades, outros duais, como se tivesse que ser idiota ou maluco para estar ali. A segunda é que enquanto Joker esta fazendo sua explicação, a cena mostra os recrutas correndo e o sargento esta falando “left, right, left, right, left, right…” para marcar o ritmo. Logo na terceira cena do filme, a dualidade das coisas aparece repetidamente, e na cena seguinte a questão de direita e esquerda se esclarece quando eles estão marchando e fazendo movimentos com os rifles, trocando eles entre direita e esquerda. Hartman percebe que Pyle errou o movimento trocando os lados. “You are dumb Private Pyle, but do you expect me to believe that you don’t know left from right?” Nesse momento Pyle está pela primeira vez entrando em conflito com aquilo que ele é para com aquilo que ele esta se tornando, é muito mais do que meramente saber direita ou esquerda, é uma relação entre quilo que tu sabe que és e aquilo que não sabes que és capaz. Essa metáfora não é apenas para o personagem, mas uma demonstração do erro humano, e de como é dura e transformadora a percepção da dualidade humana. Durante todo o processo de Pyle no curso ele se depara com obstáculos e dificuldades e é sempre repreendido pelo sargento que o humilha de diferentes maneiras.

Na cena que Hartman questiona Joker sobre sua devoção a virgem Maria ele, ao reconhecer a coragem de Joker, o nomeia líder do esquadrão dos recrutas e coloca Pyle sobre a sua supervisão. A partir deste momento Joker começa a dar atenção individual a Pyle, ajudando-o a superar as dificuldades do treino. Ensina ele a colocar os cadarços nas botas, a montar o rifle, como arrumar a cama, superar os obstáculos de treinamento físico e os movimentos de formação. Pyle sempre está com uma cara de bobalhão como se ele não entendesse o que esta acontecendo e apenas repete o que o Joker faz, seus medos parecem inocentes. Porém Pyle consegue progredir e aparentemente supera suas dificuldades.

Aos vinte e dois minutos tem uma cena que eu acho importante citar que é o primeiro momento que começa a ficar clara a transformação que o curso pretende para os recrutas. Hartman esta com os recrutas no campo de tiro, os soldados estão sentados no chão e Hartman esta no meio deles. Hartman começa seu discurso: “The deadliest weapon in the world is a Marine and his rifle. It is your killer instinct which must be harnessed if you expect to survive in combat. Your rifle is only a tool. It is a hard heart that kills. If your killer instincts are not clean and strong you will hesitate at the moment of truth. You will not kill. You will become dead-Marine, and then you will be in a world of shit, because Marines are not allowed to die without permission. Do you maggots understand?” Para que eles consigam matar, eles precisam esquecer quem eles são, precisam perder suas sensibilidades com o mundo e com os outros, para despertar o matador que tem dentro deles.

Quando falei que Pyle seria a semente para a violência e a intolerância no grupo, eu me refiro a cena que em que o Sargento Hartman esta fazendo uma vistoria nos soldados para ver se eles estão corretamente limpos. A cena começa com os soldados divididos em duas fileiras, virados para o centro, eles estão em cima de seus baús, onde guardam seus objetos pessoais, apenas com suas roupas de baixo. Seus braços estão à altura da cintura com as mãos retas para frente e seus pés descalços. Hartman esta no meio entre as fileiras olhando para as unhas de seus pés e mãos quando nota que o baú de Pyle esta destrancado. Ele se enfurece dizendo que não há nada no mundo que ele odeie mais que um baú destrancado, manda Pyle descer e abre o baú. Dentro ele acha um donut. Hartman então, após humilhar Pyle chamando-o de “disgusting fat-body”, fala: “Private Pyle has dishonored himself and dishonored the platoon. I have tried to help him, but I have failed. I have failed because you have not helped me. You people have not given Private Pyle the proper motivation. So from now on, whenever Private Pyle fucks up, I will not punish him. I will punish all of you, and the way I see it, ladies, you owe me for one jelly doughnut. Now get on your faces.” Virando-se para Pyle ele diz: “Open your mouth. They’re paying for it, you eat it”. Desta forma toda vez que Pyle comete um erro todo o batalhão é penalizado, enfurecendo os recrutas que já estão sobre pressão. Na cena seguinte Pyle diz para Joker: “Everybody hates me now, even you.” Joker: “Nobody hates you Leonard. You just keep making mistakes, getting everybody in trouble” Pyle: “I can’t do anything right, I need help.” Nesse momento começa a ficar claro que para Pyle, toda essa humilhação, essa destruição da personalidade, para se transformar em um matador, não funciona para ele. Ele não entende porque ele não consegue, chegando ao ponto de dizer que ele precisa de ajuda, como se ele estivesse errado em ser ele mesmo, ou aquilo que ele esta acostumado a ser. As próximas cenas são os recrutas pagando pelos erros do jovem recruta.

Aos vinte e oito minutos acontece uma cena que é chave para o desfecho desses dois personagens, quando os recrutas decidem punir Pyle pelos seus erros. O momento que a violência e a intolerância tomam conta definitivamente dos recrutas. A cena é o seguinte: Está escuro, luz noturna dentro do quarto a única fonte de luz é alguma lâmpada ou a lua pela janela. Aparece a mão de um dos recrutas, ele esta colocando um sabonete em uma toalha, em seguida ele fecha o sabonete na toalha fazendo uma espécie de porrete. Joker está deitado em seu beliche, ele se levanta e olha para Pyle que está deitado no beliche acima do seu. O recruta Cowboy (Arliss Howard) está deitado, olhando para os outros recrutas do seu lado, ele se levanta. Ao se levantar o resto dos recrutas se levanta com ele e eles caminham em direção ao beliche de Joker e Pyle. Eles se aproximam, Cowboy coloca um pano na boca de Pyle e outros recrutas colocam um pano por cima do corpo puxando para baixo, deixando-o completamente imobilizado. Então os outros recrutas começam a espancá-lo com os porretes de sabão. Pyle está gemendo de dor e Joker está a sua esquerda, meio temeroso, sem saber se quer ou não fazer aquilo. Depois que todos batem em Pyle, Cowboy fala para Joker “Do it, do it” e então ele começa a bater, e bater muito, com muita raiva. Ele é o que mais bate. Quando Joker para de bater ele se abaixa para deitar na cama e Cowboy fala para o Pyle: “Remember, it’s just a bad dream, fat-boy” saindo e deixando-o ali, chorando. Há um ultimo plano fechado no rosto de Joker que mostra ele tenso e agoniado, tapando seus ouvidos para não ouvir Leonard chorando. Essa cena é excepcional para mostrar a dualidade dos personagens. Joker tapando os ouvidos depois de espancar Pyle, é a de uma força imagética fantástica, mostrando a dualidade do homem que é capaz de um ato extremamente violento e depois tapar seus ouvidos para não ouvir os gemidos. Assim como em muitas outras cenas ao longo do filme a personalidade de Joker é montada com alguém que não sabe muito sobre si mesmo, que pretende ser aquilo que não é, ou que tem duvida do que é ou do que é capaz. “Ele está sempre negando, se abstraindo, ironizando e se distanciando da dualidade dentro dele” (Gordon Dahlquist²). Agora em relação à Pyle, ele se da conta de que ele não é aquilo, que aquelas pessoas não são ele, que ele não quer isso, porém ele não tem forças para lidar com a dualidade dentro dele e enlouquece.

As próximas cenas são para deixar clara a mudança dos recrutas em Marines, pois as cenas antecedem a cena da formatura. Na primeira cena estão todos em formação e as falas são as seguintes. Hartman: “Do we love our beloved Corps, ladies?” Recrutas: “Semper fi, do or die. Gung ho. Gung ho. Gung ho.” Hartman: “What does the grass grow?” Recrutas: “Blood. Blood. Blood.” Hartman: “What do we do for a living, ladies?” Recrutas: “Kill. Kill. Kill”.
Na próxima cena Hartman pergunta para os recrutas quem foi Charles Whitman, Cowboy responde que foi um homem que matou varias pessoas do alto de uma torre em Austin, Texas. Depois Hartman pergunta quem foi Lee Harvey Oswald, Private Snowball responde que foi o homem que matou Kennedy. Em ambas as respostas, Hartman, fala o quão bem feito foram os tiros, referindo-se a dificuldade e a distância dos tiros. Depois ele pergunta: “Do any of you people know where these individuals learned how to shoot?” Joker responde: “Sir, in the Marines, sir” Hartman: “In the Marines. Outstanding. Thouse individuals showed what one motivated Marine and his rifle can do. And before you ladies leave my island you will all be able to do the same thing.” Nota que nessa ultima fala de Hartman há uma aproximação da câmera no rosto to Private Pyle, que esta com uma feição horrível, completamente louco. Deixando claro, então, a incapacidade de Leonard de lidar com tudo que esta acontecendo e, ao mesmo tempo, mostrando como todos os outros estão completamente transformados e absortos pelo processo.
Em outra cena soldados estão em duas fileiras voltadas a Hartman, que esta ao centro. Eles estão cantando: “Happy birthday to you, happy birthday to you, happy birthday dear Jesus, happy birthday to you”. Essa é uma cena para mostrar a ironia da dualidade, nesse caso da dualidade entre os militares e a religião. Após cenas de conteúdo extremamente violento, beirando o absurdo, estão todos cantando “feliz aniversario Jesus”, homem a quem é atribuída à fala “ame o próximo como a ti mesmo”. Nesta mesma cena Hartman diz: “Today is Christmas. There will be a magic show at 0930. Chaplain Charlie will tell you about how the free world will conquer communism with the aid of God and a few Marines. God has a hard-on for Marines because we kill everything we see. He plays his games, we play ours. To show our appreciation for so much power we keep heaven packed with fresh souls. God was here before the Marine Corps so you can give your heart to Jesus, but your ass belongs to the Corps.”
Há uma fala de Joker antes da formatura que mostra novamente a mudança dos recrutas. Joker fala o seguinte: “Graduation is only a few days away and the recruits of Platoon 3092 are salty. They are ready to eat their own guts and ask for seconds. The drill instructors are proud to see that we are growing beyond their control. The Marine Corps does not want robots. The Marine Corps wants killers. The Marine Corps wants to build indestructible men. Men without fear.”

Após a formatura, é a ultima cena antes de eles irem para a guerra. É à noite e o Joker está fazendo a guarda. Ele escuta um barulho no banheiro e vai investigar. Dentro do banheiro ele encontra Pyle, que esta carregando um rifle sentado em uma das privadas. Pyle está completamente possuído pela loucura, sua feição é sinistra. Joker pergunta se as munições são reais. Pyle diz: “Seven-six-two millimiters. Full metal jacket.” Joker então diz: “Leonard if Hartman comes in here and catches us we’ll both be in a world of shit.” Pyle então diz a frase que é a confirmação da sua incapacidade de aceitar a transformação que ele esta passando: “I’am in a world of shit”. Eu acredito que o Leonard é a representação de um ser humano que não consegue lidar com as suas dualidades internas e que ao enxergar que dentro de si também mora um matador, ele perde o chão. Por isso Leonard entra em colapso. Ele, depois de dizer “I’am in a world of shit”, levanta e começa a recitar as falas que eles aprenderam no curso e os versos que foram obrigados a decorar, parte da lavagem cerebral do curso. Ele fala tão alto que acorda todo o batalhão inclusive Hartman que entra no banheiro enfurecido e pergunta o que esta acontecendo, Joker avisa que Pyle esta com sua arma carregada. Hartman então pede para Pyle dar a arma para ele ou botar ela no chão. Ele fala para Pyle: “What is your major malfunction, numb-nuts? Didn’t mommy and daddy show you enough attention when you were a child?” No mesmo momento Pyle atira em Hartman, matando-o. Ele então aponta a arma para Joker, que diz: “Go easy, man”. Leonard então abaixa a arma senta no vaso, coloca a arma na boca e se suicida. Uma das cenas mais fortes do filme em intensidade dramática, a atuação de Vincent D’Onofrio é tão intensa que o corte desta cena para a próxima é quase como se estivéssemos vendo outro filme.

A demonstração da dualidade humana passa a ser mostrada de maneira diferente a partir da segunda parte do filme. O enfoque não é mais no grupo, e sim nas características dos personagens que aparecem, individualizando mais cada um.
Minhas demonstrações, a partir deste momento, não seguirão a mesma linearidade que segui na primeira parte, pois, como descrevi, a segunda parte é mostrada de maneira individual. Não é mais necessária a utilização da linearidade do processo, como é necessária na primeira parte do filme. Desta maneira irei me referir às cenas a partir dos personagens e o minuto da cena.

Gostaria de fazer uma observação da maneira dual com que as mulheres são mostradas. As primeiras são prostitutas, aparecem apenas para dar prazer e serem alvo de piadinhas, porém, a última é a atiradora. É importante notar que poucas vezes é mostrado um soldado acertando diretamente outro soldado, a maioria das cenas são tantos atirando em um alvo que não mostra quem matou quem. Porém a atiradora nós sabemos quem ela mata, fica bem clara a capacidade dela e a coragem, tanto que a ultima fala da atiradora é “Shoot me” mostrando que ela não tem medo de morrer, diferente dos soldados que aparecem pedindo ajuda e chorando de dor. Não seria uma questão de falar bem ou mal, mas da capacidade de cada um, que as mulheres não são como muitos homens pensam, objetos de prazer, e que são capazes de fazer o mesmo que os homens, no caso, ainda melhor.

Aos 58 minutos tem uma cena que é importante citar, pois ela mostra a nossa capacidade “nua e crua” de matar. Refiro-me a cena do helicóptero, uma das cenas mais horríveis, onde Joker e Rafterman estão com um soldado em um helicóptero e ele esta com uma metralhadora atirando em civis que passam abaixo. O soldado fica repetindo: “Get some, Get some.” Em certo momento ele fala: “Anyone who runs is a V.C.(Viet Cong), anyone who stand still is a well-disciplined V.C. You guys ought to do a story about me sometime”. Joker pergunta: “Why should we do a story about you?” Soldado responde: “Because I’m so fucking good. That ain’t no shit neither. I’ve done got me 157 dead gooks killed, and 50 water buffaloes too. Them are all certified”. Joker pergunta: “Any women or children?” Soldado responde: “Sometimes.” Joker “How can you shoot women and children?” Soldado: “Easy. You just don’t lead them so much. Hahaha. Ain’t war hell? Hahaha”. “Lead them so much” ele quer dizer que quando se está em um objeto em movimento, no caso o helicóptero, é preciso mirar um pouco distante do alvo para que o tiro acerte, por isso é preciso “seguir” o alvo, no caso de mulheres e crianças, por serem mais lentos, não é preciso botar a mira tão distante. O mesmo soldado que está atirando nos civis, comenta que a guerra é um inferno, constantemente a dualidade humana é mostrada. Rafterman, fala, em uma cena que antecede esta, que está cansado de ficar na base e quer ir para o campo de batalha para ter um “trigger time”, mas ao ver o soldado atirando nos civis começa a vomitar.

Aos 63 minutos de filme é a cena que me levou a escrever essa analise, quando Joker vai a um local onde corpos de civis estão cobertos com cal e sendo enterrados. A cena começa com um close no rosto de Joker, ele está com uma cara de náusea, de uma aparente incredulidade com o que esta vendo, nota que só se vê seu capacete escrito “Born to Kill”. Conforme a câmera vai abrindo e conforme o quadro se torna maior, o broche com o símbolo da paz aparece e Joker vai perdendo a sua feição de angustia e começa a escrever no seu caderno: “The dead have been covered with lime. The dead know only one thing: it is better to be alive”. Joker é o maior enfoque na segunda parte do filme, nesta cena estamos vendo novamente como ele não tem, dentro dele, certeza sobre quem ele é ou o que ele quer. Alguns segundos ele está perplexo, mas logo ele já está escrevendo em seu caderno como se nada tivesse acontecido. Ao mesmo tempo ele fala que melhor que estar morto é estar vivo, mesmo tendo “Born to Kill” escrito no capacete. Em seguida ele começa a conversar com um oficial, que está do seu lado, sobre o numero de mortos sendo enterrados. O oficial a principio está sério e pergunta de onde eles são, Joker e Rafterman respondem que são do jornal e no momento que o oficial escuta isso ele muda de postura e começa a sorrir. Então aparece um segundo oficial, que pergunta para o Joker porque ele tem um capacete escrito “Born to Kill” e um símbolo da paz no colete. Segue então a fala descrita no inicio do texto.

Aos 69 minutos, após Joker encontrar Cowboy, ele conhece o Animal-Mother (Adam Baldwin) em uma cena bastante cômica em que um fica desafiando o outro com piadinhas. Animal-Mother de alguma maneira é como Pyle, se ele tivesse aceitado a dualidade dentro dele. É grande, forte e não é muito esperto. Ele é o novo antagonista do Joker, até porque o Animal-Mother já aceitou a sua dualidade enquanto Joker não sabe bem. Logo na mesma cena um soldado chama a atenção de Rafterman para que ele tire a foto de um soldado vietnamita que está morto ao seu lado. O soldado começa a brincar dizendo que é aniversario do morto. Ele diz: “This is my bro. This is his party. He’s the guest of honor. Today is his birthday.” Os soldados em volta brincam: “Happy birthday” Animal-Mother diz: “Happy birthday, Zipperhead” O Soldado continua: “I will never forget this day. The day I came to Hue City and fought one million NVA gooks. I love the little commie bastards, man, I really do. These enemy grunts are as hard as slant-eyed drill instructors. These are great days we’re living, bros. We are jolly green giants, walking the earth with guns. These people we wasted here today are the finest human beings we will ever know. After we rotate back to the world we’re gonna miss not having anyone around who’s worth shooting”. Para mim essa ultima fala se refere a cena onde Hartman compara os Marines com o homem que matou Kennedy, porém deixo essa questão em aberto.

A última cena que eu preciso citar, para finalizar a minha análise é quando Joker mata a atiradora, na penúltima cena do filme. Os soldados estão caçando a atiradora, que matou Cowboy, Eightball (Dorian Harewood) e outros soldados. Joker a encontra, ele vai realizar o disparo com o rifle, mas o rifle emperra. Acredito que o rifle emperrar é um simbolismo para mostrar que por mais que ele estivesse ali pronto para realizar o disparo, dentro dele ainda havia uma duvida, e também esse momento serve para que ele possa depois finalizar ela. A cena dele finalizando a atiradora é a conclusão da trajetória do Joker na guerra, durante toda a análise falei sobre a confusão dentro do Joker, de sua incapacidade de se decidir se era nascido para matar ou um “mensageiro da paz”, mas é nessa cena que ele, finalmente, compreende a dualidade dentro dele. Descreverei a cena para ilustrar a idéia: Os soldados se reúnem em volta da atiradora que está deitada, mortalmente ferida, porém viva. Ela está falando em sua língua nativa, um dos soldados pergunta o que ela está dizendo e Joker diz que ela está rezando. Outro dos soldados fala: “No more boom-boom for this baby-san. There’s nothing we can do for her. She’s dead meat”. Animal-Mother diz que eles têm que sair dali, porém Joker pergunta: “What about her?” Animal-Mother diz: “Fuck her, let her rot” Joker: “we can’t just leave her here.” Animal-Mother: “Hey asshole. Cowboy’s wasted. You’re fresh out of friends. I’m running the squad now and I say we leave the gook for the mother-loving rats.” Joker: “I’m not trying to run this squad. I’m just saying we can’t leave her like this.” Animal-Mother fica meio indeciso e então a atiradora fala “Shoot me” repetidamente. Animal-Mother diz: “If you wanna waste her, go on waste her”. A intensidade da cena aumenta, a musica é tensa e um close em cada um dos soldados é dado, para que fique claro que todo mundo esta olhando para Joker para saber se ele vai ou não a matar. A câmera foca no rosto de Joker, mostrando sua indecisão, escutamos ele sacando a arma, notamos seu braço esticando, a sua expressão fica mais rígida, tensa e, então, ele mata a menina agonizante. Assim que ele realiza o disparo sua feição diminui de intensidade, porém, ele fica olhando intensamente para o que ele acabou de fazer, mais triste do que tenso. Rafterman diz rindo: “Joker we’re gonna have to put you up for the Congressional Medal of Ugly.” Animal-Mother: “Hard-core, man. Fucking hard-core.” Toda essa passagem é só o rosto do Joker. Nesse momento Joker compreende a sua dualidade, ele a abraça e integra dentro de si: “Born to Kill”. A fala de Hartman “It’s a hard heart that kills. If your killer instincts are not clean and strong you will hesitate at the moment of truth” ilustra a situação e acredito que Joker estava pensando nela quando fez o disparo. Tanto ele se integra como um soldado, como um matador, que a ultima cena do filme é ele junto com o batalhão cantando, a câmera vai subindo até ele se perder no meio.

 

Bibliografia:

¹JUNG, C. G. O homem e seus símbolos. 20 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1977.

²The Kubrick Site. The junguian thing: Duality in Full Metal Jacket – A Discussion. Disponível em <http://www.visual-memory.co.uk/amk/doc/0093.html> Acesso em 20 de Setembro de 2016