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Good Time

Novo filme dos irmãos Safdie dá uma cara de blockbuster às narrativas intrigantes do cinema independente americano.

Para aqueles que não estão familiarizados com os irmãos Josh e Ben Safdie, eles são jovens cineastas de Nova Iorque cujos filmes normalmente abordam temas humanistas e sociais que levam seus personagens ao limite físico e/ou mental. Além disso, eles executam diversas tarefas em suas produções, não se contentando apenas com direção e roteiro, mas também atuando, editando, desenhando o som e por aí vai. O último filme da dupla foi o aclamado Amor, Drogas e Nova York (Heaven Knows What), que infelizmente passou muito despercebido pelo público brasileiro apesar da ótima data de lançamento (outubro de 2015), chegando antes aqui do que no Reino Unido, por exemplo.

Cito Amor, Drogas e Nova York porque este foi o cartão de entrada deles para o Festival de Cannes 2017, onde concorreram à Palma de Ouro com Good Time, título representado pela A24, mesma distribuidora de Moonlight (2016). Lá pude conferir o filme com bastante antecedência e expectativa, ainda que a divulgação não tivesse nem começado (o filme tinha acabado de ser finalizado). Pode-se dizer que os Safdie continuam a explorar uma Nova Iorque sem glamour, em que a cidade como reflexo de um sistema é força muito mais determinante do que o desejo de mudança dos personagens observados.

A primeira cena apresenta muito bem os protagonistas e suas características de maneira sutil mas objetiva. Um psiquiatra tenta analisar seu paciente, Nick Nikas (Ben Safdie), a partir de simples perguntas e respostas, como interpretação textual e comparação entre palavras. As dificuldades de Nick são explicitadas pelo close-up no rosto do personagem, que nos revela um trauma. Ao longo da trama entendemos que houve problemas na casa de Nick, onde mora com sua avó e seu irmão, Connie (Robert Pattinson). A paciência do psiquiatra se vai logo que Connie entra na sala; sua personalidade explosiva fica clara pelo uso de um zoom rápido e fechado em seu rosto. Connie discute e força seu irmão a sair com ele. Então, em poucos minutos, não só já conhecemos bem nossos personagens como também somos introduzidos à “montanha-russa” de emoções que o filme há de se tornar.

A trama é simples e por causa dessa cena extremamente funcional, as motivações e necessidades dramáticas de cada personagem são facilmente compreendidas. Eles vão roubar um banco para fugir da cidade e deixar de depender da avó. Pelo menos esse é o plano de Connie e lógico que dá errado, obrigando Connie a mudar seu objetivo e dando início a uma série de eventos que não decepcionam em suas camadas de ação, humanidade e retrato social.

Vários personagens passam a ganhar importância na trama, pois se tornam obstáculos na jornada de Connie, e é então que Robert Pattinson tem espaço para entregar sua melhor performance até hoje. Ele manipula, briga, foge, seduz, se disfarça…. É um show de repertório, mas em momento algum esquecendo o que faz seu personagem cativante: o coração. Lembra muito Sonny, o lendário personagem de Al Pacino em Um Dia de Cão (Dog Day Afternoon, 1975), cujas decisões questionáveis são negligenciadas pela relação fraternal convincente que ele desenvolve com outros personagens. A relação entre Connie e Nick é o principal trunfo do filme, pois ainda que eles estejam separados e o filme entregue pouquíssima história pregressa, é possível sentir a confiança que um tem no outro, o carinho e principalmente o sofrimento que ambos compartilharam, a diferença é que Connie pode mascarar sua sensibilidade enquanto Nick, devido a uma deficiência, não.

Todo o elenco é colocado numa posição de vulnerabilidade a partir dos planos fechados e diálogos agressivos e ainda assim nunca duvidamos da credibilidade do que vemos. Destaque para a novata Taliah Webster interpretando a curiosa adolescente Crystal, que participa de duas das cenas mais intimistas e importantes do filme, as quais apontam para o racismo e machismo invisíveis numa comunidade mais pobre, pois parecem justificáveis enquanto não deveriam ser.

Enquanto A Qualquer Custo (Hell or High Water, 2016) mostrou uma história entre irmãos na luta por uma mudança de vida em meio ao julgamento e consequências morais que a sociedade oferece num formato de “faroeste moderno”, Good Time oferece um olhar mais alternativo para este mesmo tema, fugindo da sombra do faroeste e embarcando numa explosão de referências, que começam na pop-art e chegam até o cinema de Martin Scorsese (que vai produzir o próximo filme da dupla) – veja Caminhos Perigosos (Mean Streets, 1973) e Depois de Horas (After Hours, 1986). Ao longo de seus precisos 100 minutos, os diretores não deixam a peteca cair e contagiam o espectador com um visual vibrante e altas doses de energia a partir de sequências de tirar o folego, não pelo número altíssimo de cortes (como na maioria dos filmes hoje em dia) mas pela relação entre a música eletrônica oitentista, o prazo (deadline) estabelecido e a sensação de perigo constante, afinal, Nova Iorque é a cidade que nunca dorme e não só há muitos policiais nas ruas mas muitas testemunhas também, então não há para onde ir, mas ainda assim o espectador espera ser surpreendido. Irônico, não?

Tal como A Qualquer Custo, Good Time começa seguindo a jornada do herói, só que enquanto o primeiro consegue seguir a jornada até o final de seus 12 passos, o filme dos irmãos Safdie foge dela. Se este continuasse a jornada até o final seria apenas mais uma grande história contada através de uma experiência de imersão, mas esquecida depois de horas. A nota amarga ao final é tão injusta para o espectador quanto é para o personagem, pois ambos investem na história que querem acreditar e são frustrados justamente por não terem controle da narrativa.

Written by Nate Buzelli

Cinéfilo empenhado, Nate começou a escrever artigos e resenhas ainda em 2008 no seu primeiro blog. A exposição que teve ainda jovem a filmes como "O Sétimo Selo", '8 1/2", "Laranja Mecânica" e "A Primeira Noite de um Homem" o ajudou a decidir seguir carreira na área e também o deixou um tanto perturbado. Nate é formado em cinema e audiovisual e hoje se dedica a carreira de cineasta ao mesmo tempo que continua escrevendo suas críticas de TV e cinema.