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Planeta dos Macacos: A Guerra

A resolução emocionante de uma saga bem equilibrada

A tentativa de resgatar a série de filmes Planeta dos Macacos pelas mãos de Tim Burton não funcionou em 2001. O gosto amargo de um remake fraco e pouco inventivo poderia ter custado a vitalidade da franquia. Em 2011 uma nova investida. Planeta dos Macacos: A Origem, agora sob a direção de Rupert Wyatt, que opta por uma abordagem mais intimista e menos grandiloquente, parece um começo promissor. A sequência em 2014, Planeta dos Macacos: O Confronto, segue a proposta de seu antecessor, mas também busca diversificar-se. Dedicando esforços para construir do zero uma cultura muito particular ao redor dos primatas, sem abandonar o desenvolvimento gradual dos personagens por meio de conflitos, o diretor Matt Reeves soube tornar a produção uma peça relevante. O encerramento do ciclo acontece em Planeta dos Macacos: A Guerra, consagrando a trilogia como uma das melhores dessa década.

Dando continuidade aos acontecimentos do longa anterior, após Koba (Tobby Kebbell) iniciar uma guerra contra os humanos, César (Andy Serkis) continua sendo o macaco mais influente e respeitado no grupo de resistência aos conflitos com a raça humana remanescente. Compadecido pelos homens, mas obstinado na busca pela sobrevivência de seus iguais, ele procura um ponto de equilíbrio a fim de coexistir com os humanos, mesmo que isso signifique se deslocar para o mais longe o possível do que um dia foi a civilização. A empatia, inerente ao macaco, coloca em risco sua comunidade quando o coronel (Woody Harrelson), com quem tem travado duras batalhas, os embosca. Em um ato de vingança, César parte para encontrar seu algoz e dar fim ao embate.

Esse é um filme forte, que segue a marca da franquia. Num primeiro momento, pelos temas abordados, ora sutis, ora explícitos; num segundo, por ser cru, reservando aos personagens uma dose brutal do recorte da natureza humana. Reeves é um diretor habilidoso, ao ponto de criar em seu público sentimentos de identificação com animais que, dadas proporções, se distanciam de nós. É sua direção que garante nosso elo emocional com a causa dos macacos, nossa ansiedade provocada na imersão da trama e nossos receios, uma vez que cada decisão pode levar ao desastre. Ao tomar emprestado algumas questões sociais como o racismo, a xenofobia, o nacionalismo exacerbado e a intolerância, ele toca em feridas expostas. Como não se comover diante de injustiças?

O longa distribui seu tempo com um desenvolvimento muito maior para o núcleo dos macacos, reduzindo a participação humana para pequenas inserções nos dois primeiros atos e uma divisão mais igualitária no terceiro. Contudo, os raros momentos dos homens ainda funcionam para amparar suas demandas. A crueldade é o meio encontrado para sobreviver e, quem sabe, dar cabo da evolução dos símios e contaminação dos humanos que têm sido dizimados. Embora a simpatia para com o grupo de César seja maior, há um espaço reservado para que o público pondere a respeito dos dois lados da “guerra”.

Dentro dessa trama bem construída, Coube a Serkis entregar todo seu potencial ao papel. Seu desempenho nos trabalhos anteriores não é menor, mas a evolução do uso da captura de performance garantiu que sua desenvoltura enquanto ator fosse imprimida de forma ainda mais real no personagem. É possível enxergar seu trabalho através do símio, sem “contaminar” César, estamos realmente vendo a um macaco. Tudo funciona, sua movimentação, fala, agora ainda mais desenvolvida, e seus olhos sempre tão expressivos. Os olhos aliás são os destaques de todos os personagens, homens ou macacos. São neles que vemos principalmente o medo, o amor, o ódio, a inocência, a raiva e a esperança. Seus companheiros de elenco auxiliam na tarefa de tornar aquele mundo crível. Karin Konoval, que vive o orangotango Maurice, Terry Notary, o chimpanzé Rocket, e Michael Adamthwaite, o gorila Luca, sustentam de forma envolvente o enredo. A adição do pequeno Bad Ape, interpretado por Steve Zahn, adiciona leveza com seu tom cômico. No elenco de humanos, a garota Nova (Amia Miller) representa mais um ponto de evolução dentro da história e ainda serve como elemento conciliador. Já a interpretação de Harrelson para viver o Coronel busca referências em Apocalypse Now de Coppola, fazendo alusão ao exercício de Marlon Brando como militar que se perde dentro de sua loucura desumana.

A trilha sonora incisiva, que varia do épico ao emotivo, propicia ótimos momentos. A ternura dentro da relação dos macacos, as batalhas e perseguições na neve, tudo ganha peso com as composições de Michael Giacchino. Somada ao uso de uma paleta de cores frias e fotografia que favorece o uso do CGI, esse é um trabalho completo e que assume um lugar de destaque quando comparado aos demais blockbusters, tenham eles estreado esse ano ou não.

Dilemas morais, o uso de questões sociais como pano de fundo, uma história cativante e narrativa bem construída, reservando algum espaço para homenagear o clássico que deu origem a franquia, Planeta dos Macacos: A Guerra tende a permanecer como muito mais que um mero entretenimento. O fim do arco de César é um alívio após tantos obstáculos, mas deixa saudade.

Written by João Neto

Estudante de jornalismo, jauense, apaixonado por cinema e estranho como um personagem de Wes Anderson. Produtor de conteúdo do site Universo DC 52, crítico do PisoVelho e do Cinetoscópio.