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Crítica: O Estranho que Nós Amamos (1971)

Com o novo filme de Sofia Coppola (vencedora da Palma de Ouro 2017) chegando ao cinema, vamos relembrar a primeira adaptação do livro de 1966 para as telas e os responsáveis por esse belíssimo filme, infelizmente pouco conhecido aqui no Brasil.

Esse texto contém spoilers, para evitar constrangimentos e entendê-lo melhor recomendo assistir primeiro o filme. Acrescendo também que a visão do diretor e do filme nem sempre corresponde a minha.

Don Siegel foi amplamente elogiado pelos jovens turcos da Cahiers du Cinemá, que mantinham uma grande admiração pelo seu estilo autoral, de baixo custo e ousado, mas não colheu os louros e infelizmente não é atualmente lembrado como outros diretores contemporâneos a ele, possivelmente por lidar com temas controversos. Suas obras provavelmente mais conhecidas são: Perseguidor Implacável de 1971 e Alcatraz – Fuga Impossível de 1979, ambos com Eastwood no papel principal. Entretanto, nenhum de seus filmes mais conhecidos chegam perto da grandiosidade que é O estranho que nós amamos, uma obra inesquecível, corajosa e polêmica até mesmo para os dias de hoje.

Tanto o livro quanto o filme são uma representação do subgênero gótico sulista. Ambientado no sul dos EUA no fim da guerra de secessão, esse estilo costuma retratar personagens ambíguos, dissimulados, dominados por sentimentos de alienação e culpa em um ambiente com forte atmosfera sexual. Temas envolvendo escravidão, violência e alienação (principalmente religiosa) são recorrentes e podem ser observados em filmes como Uma Rua Chamada Pecado de Elia Kazan, Mensageiro do Diabo de Charles Laughton e O Massacre da Serra Elétrica de Tobe Hooper.

Entender os elementos desse subgênero é importantíssimo para analisar o filme de Siegel mais a fundo, já que ele trata com maestria todas as essas características, que caíram como uma luva em seu estilo cinematográfico.

Finalmente, vamos ao filme.

O Estranho que Nós Amamos se passa no fim da guerra de secessão, com os Estados Unidos divididos entre norte e sul, “Yankees” e Confederados. Nesse contexto, um soldado da união, após ser baleado e perder muito sangue, é resgatado por uma menina que estuda em uma escola só para mulheres no lado sul dos EUA. A presença do soldado balança completamente a vida das habitantes da escola, já que, enquanto algumas são contra dar hospitalidade a um inimigo, outras começam a transparecer desejos sexuais pelo ianque.

Logo no início do filme existe uma atmosfera surreal, um ambiente dominado por inocência, onde uma menina chamada Amy colhe os cogumelos em um campo. Remetendo à Chapeuzinho Vermelho, a menina dá de cara com um homem sangrando na mata, o lobo mau da história. Tudo isso apresentado com zoons rápidos intensos, movimentos de câmera bruscos e um voice over típico do cinema b. O homem pede ajuda ao perceber que o exército confederado está próximo e a menina o esconde entre alguns arbustos. Então o choque. Enquanto escondidos, o ianque pergunta sua idade, e, ao saber que a menina possui apenas 12 anos ele conclui que ela “Tem idade para um beijo” e a beija. A partir daí a inocência incialmente demonstrada pela menina é roubada, e o filme aponta que Amy agora trata-se de uma mulher.

 

Somos apresentados logo em seguida ao ambiente escolar, onde a Sra. Martha, diretora da escola, se mostra uma mulher rígida e preocupada o com o rumo de sua escola. A instituição é típica daquele sul dos EUA, um ambiente perdido no tempo, onde a religião, o conservadorismo e a hipocrisia fizeram com que aquelas mulheres, privadas de uma figura masculina, reprimissem seus desejos. Com isso, Siegel contrasta muito bem como a presença daquele único homem cria uma atmosfera incomum num ambiente essencialmente feminino. Em seguida, tudo é metafórico.

Senti falta, porém, de uma maior exploração da sexualidade feminina, já que no filme o desejo só passa a ser retratado a partir do momento em que surge a figura masculina, quando na verdade o desejo sexual não deveria estar necessariamente relacionado ao homem intruso.

Na visão do ianque John McBurney, porém, adentrar naquele “jardim dos prazeres” adquire outra conotação, que fica óbvia no título original da obra, The Beguiled, e em um belíssimo plano onde o cineasta compara o personagem a um corvo preso em algumas grades da residência. Aquele homem definitivamente não está a salvo, e ele sabe disso.

  

Deixando essa ideia ainda mais clara, em outra cena Amy é perguntada por uma colega da escola: “As formigas mataram a taturana? ”, respondendo: “Não… elas se juntaram e a levaram para a toca. Provavelmente para comê-la”.

O espectador descobre, através de um intenso devaneio de Martha, que a escola era comandada por ela e seu irmão, um confederado que sumiu na guerra, e que eles mantinham uma relação incestuosa, possivelmente ocasionada pela repressão religiosa.

As intenções da diretora vão ficando mais claras à medida em que o filme avança. Primeiro ela dá o camisolão que pertencia a seu antigo amante, logo depois ela decide não entregar o ianque para o exército sulista, e, por fim, deixa o homem enclausurado no quarto advertindo-o que ele não deve ter relações com nenhuma de suas alunas. Martha, atraída pelo estranho, já demonstrava traços de ciúmes e desejo. E com isso o filme cria uma relação entre o nortista e o sulista, mostrando que independente da guerra ambos compartilham das mesmas imoralidades.

Os dias passam e as mulheres da casa passam a visitar periodicamente o quarto do homem. Edwina, a professora mais velha, é uma das mais afetadas pela sua presença e luta para não se deixar levar pelo estranho, já que a personagem mostra uma profunda e justificável desconfiança com os homens. Já Carol, uma das alunas mais velhas, é a primeira a beijá-lo e começa a fazer de tudo para dar escapadas durante as aulas e seduzi-lo. Até a pequena Amy demonstra certo desejo pelo “convidado”, visitando-o sempre que possível.

Tudo isso é metaforizado com as galinhas da propriedade, que há muito tempo não botavam ovos. Logo no primeiro dia em que John fica hospedado na casa, as galinhas finalmente ovulam; o aprisionamento daquele homem é um possível sinal de libertação para aquelas mulheres.

Encantado, mas também desconfiado, Clint Eastwood consegue transmitir com perfeição em seu personagem o contraponto entre um homem que por vezes se mostra um sedutor, e em outras seduzido. Percebendo que aquele ambiente esquisito pode “engoli-lo” a qualquer momento, ele aposta tudo em seduzir cada uma daquelas mulheres, mentindo sobre seu passado, aos poucos ele conseguindo se libertar.

O filme aos poucos revela-se um thriller psicológico, à lá Louca Obsessão (1990).  Jogadas umas contra as outras, as mulheres disputam o soldado, ao mesmo tempo em que se vingam do mesmo ao descobrirem estar sendo traídas. Esse jogo de gato e rato culmina no ápice do filme, após Siegel utilizar o quadro Lamentação sobre o Corpo Morto de Cristo de Sandro Botticelli, em mais um dos devaneios de Martha como ilustração para o desejo e a repressão daquelas mulheres.

John McBurney é atraído para o covil de Carol, onde os dois são flagrados tendo relações por Edwina, que se vinga do soldado empurrando-o da escada. O homem quebra sua perna, sangrando e ficando novamente machucado.

Enciumada, Martha descobre tudo e também trama sua vingança contra John. Usando como desculpa o fato de John poder vir a morrer devido a queda, ela o embebeda e amputa sua perna, aprisionando-o novamente. E a atuação de Geraldine Page é simplismente impressionante nesse momento.

A partir desse momento, Siegel muda novamente o tom do filme e sua genialidade é provada. Se no começo tudo parecia um tipo de conto de fadas às avessas e logo em seguida o longa vira um thriller psicológico, agora o diretor imprime suas origens ao trazer para essa obra traços de seus filmes b de terror e ficção cientifica. A escatologia, a violência e o gore tomam conta das cenas seguintes, transformando a cena da amputação em um ritual macabro inesquecível.

 

Ao acordar e descobrir sobre o procedimento ao qual foi submetido, o soldado beira à loucura, e após sua pequena vingança, ao fim do filme, é condenado por completo. O resultado para ele enfim, é uma derrota neste embate entre os sexos.

Beirando a um politicamente incorreto, o filme é notavelmente um dos mais corajosos deste período e também um dos mais injustiçados na carreira de Eastwood e Siegel. Uma mistura de gêneros e personagens complexos transformam este jogo de gato e rato em uma guerra dos sexos enervante.

Surpreende, mesmo com algumas visões distorcidas provenientes de sua época, mas ainda assim é um exemplar muito à frente de seu tempo.

Para o espectador fica a interpretação: para alguns a obra pode soar ofensiva, para outros um tipo de feminismo distorcido, e ainda para outros um retrato da libertação feminina. Todavia, é unânime que ao chegar aos últimos segundos o espectador estará paralisado de choque.

Agora é esperar o filme de Sofia Coppola, que promete focar mais na visão feminina ao ter seu universo invadido pelo pecado.

Cinéfilo, estudante de Cinema e Audiovisual. Sempre buscando aprender mais sobre a sétima arte.

Descobri meu amor por cinema com os mestres Hitchcock, Kubrick e Scorsese, uma fascinação quase doentia por filmes de horror e uma obsessão de colecionador. Aos poucos comecei a compreender o que me fascinava tanto em filmes como "Chinatown", "Evil Dead" "A Sombra de uma Dúvida" e "Três Homens em Conflito", agora me dedico a escrever e estudar o máximo possível do universo audiovisual.