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O Estranho que Nós Amamos (The Beguiled)

Sofia Copolla corrige os problemas do original mas não sai de sua zona de conforto.

Don Siegel foi um cineasta de Chicago que “nasceu” nos filmes B americanos, começando a carreira em Hollywood, por sinal, como diretor de montagens do melhor filme B que o cinema já viu, Casablanca (1942)Durante a década de 1960, ele iniciou uma parceria de 5 filmes com Clint Eastwood. No mesmo ano em que Eastwood se consagrava como Dirty Harry (1971)ele trabalhou em outro filme de Siegel, outro filme marcante do início da década de 70: O Estranho que Nós Amamos (The Beguiled). Este é marcante não por ser uma obra-prima, pelo contrário, ele reúne elementos extremamente questionáveis dentro de uma trama que parece ter sido tirada de um filme pornô. É uma fantasia masculina que encontra uma linha de ação inspirada no horror gótico, que ganhara fôlego durante a década de 60. É machista e misógino, desenvolve seus personagens muito mal e por esses e outros motivos, eu não assistiria novamente.

Todavia, em 2016 Sofia Copolla anunciou que estaria dirigindo uma nova versão do filme. Uma cineasta independente de assinatura moderna dirigindo o remake de um filme B dos anos 70? Fiquei animado para vê-lo; eu sabia que ela corrigiria os problemas morais do filme de Siegel, mas o que Copolla poderia acrescentar ao gênero do horror gótico, esquecido há tanto tempo?

A trama se passa em 1864, terceiro ano da Guerra Civil Americana, num internato feminino em Virginia, estado confederado (sulista). Neste contexto, praticamente todos estudantes, professores e escravos foram embora, deixando apenas algumas alunas e a professora Edwina Morrow (Kirsten Dunst) junto com a diretora do local, a senhorita Fansworth (Nicole Kidman).

Num belo dia, em busca de cogumelos, Amy (Oona Laurence), uma das alunas, encontra um soldado do exército da União (Colin Farrel) ferido, caído ao chão. Compadecida pela situação do soldado, ela decide levá-lo para o internato, onde inicialmente pensam em fazer dele um prisioneiro de guerra e entregá-lo para o exército confederado assim que estiver recuperado. Só que aos poucos, todas as mulheres e garotas no internato se vêem fascinadas pelo soldado, passando a se questionarem se ele deveria ser realmente entregue às autoridades.

Assim como Good Timevi O Estranho que Nós Amamos em maio e desde então não pensei muito sobre ele. É fato que essa nova versão corrige os problemas do original – falarei sobre isso logo mais – contudo não me convenço que este filme seja necessário, pelo menos não como obra individual. Copolla tem em seu currículo filmes importantes como As Virgens Suicidas (The Virgin Suicides, 1999) e Encontros e Desencontros (Lost in Translation, 2003), outro não tão importante mas, na minha opinião, igualmente interessante – Maria Antonieta (Marie Antoinette, 2007); e outros dois filmes que ao meu ver são repetitivos e genéricos para uma cineasta que tem uma visão tão forte. Se O Estranho que Nós Amamos apresenta qualidade estética em sua composição e impecável design de produção (como Maria Antonieta), criando um ambiente digno do horror gótico, este nunca se materializa numa atmosfera de tensão e enquanto a história se desenrola, fica a sensação de que o filme está pulando etapas. Pode-se dizer que a simbologia por trás dos planos minuciosamente pensados e a relação ambígua que a imagem tem com o desenho de som fazem do filme uma experiência rica, mas do que adianta construir tanto se na hora de “entregar” o clímax é fraco e o desfecho muito previsível?

Por outro lado, Sofia Copolla faz com o elenco um excelente trabalho de construção dos personagens, marca registrada em seus filmes. Ao contrário do original, dessa vez há desenvolvimento no arco das mulheres do internato, principalmente de Edwina, interpretada com muita sensibilidade por Kirsten Dunst. Mesmo sem falar muito durante o filme, entendemos seus problemas no passado e o arrependimento que leva de algumas decisões, as quais a transformaram numa pessoa triste, com poucas expectativas. Com a chegada do soldado John McBurney, seu humor muda e nele ela acha uma possibilidade de fuga da sua realidade. O desfecho é importante para ela, ainda que pareça trágico.

O restante do elenco funciona muito bem, sempre contrastado uns com os outros. A performance de Colin Farrel traz muito mais sedução, suspeita e é mais coerente do que a de Clint Eastwood conseguiu ser no filme de 71, ainda que Farrel não seja hoje um símbolo sexual como Eastwood costumava ser em sua época. Já Elle Fanning interpreta Alicia, a garota de desejos ambíguos, que podem parecer paixão e provocação ao mesmo tempo (depende de como você olhar) enquanto Nicole Kidman emprega sutilezas para se mostrar hesitante sobre seus sentimentos para com o soldado, um trabalho que só uma atriz que tem controle total de seu potencial pode entregar.

Não dá pra negar que o clima de erotismo está presente de maneira ainda mais forte do que no filme de 1971, uma vez que neste caso há mais sugestão, mas as sugestões nunca se tornam machistas ou de gosto comprometedor, pelo contrário, Copolla vira o jogo. Tanto no filme de 1971 quanto neste os problemas no internato começam assim que o soldado chega no local, mas a diferença é que neste remake o anfitrião nunca é retratado como vilão. Se analisarmos o pensamento da época, a opinião do personagem de Colin Farrel pode até fazer sentido, mas não deve ser tratada como certa, e esse acerto já faz deste filme muito superior ao original.

No final das contas, o filme poderia ter alçado vôos muito maiores se Copolla quisesse. O elenco afiado e a ambientação virtuosa (que lhe rendeu um merecido prêmio de mise-en-scène em Cannes) são qualidades que ela já exibiu anteriormente e que se mantiveram presentes, mas a resposta para a questão que levantei ao iniciar esta resenha é simples: ela não acrescentou nada ao gênero, nem sequer uma experiência memorável. Enquanto o filme de 1971 é marcante por motivos errôneos, este nem marcante é.

Written by Nate Buzelli

Cinéfilo empenhado, Nate começou a escrever artigos e resenhas ainda em 2008 no seu primeiro blog. A exposição que teve ainda jovem a filmes como "O Sétimo Selo", '8 1/2", "Laranja Mecânica" e "A Primeira Noite de um Homem" o ajudou a decidir seguir carreira na área e também o deixou um tanto perturbado. Nate é formado em cinema e audiovisual e hoje se dedica a carreira de cineasta ao mesmo tempo que continua escrevendo suas críticas de TV e cinema.