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Grave

Você tem fome de quê?

Nós humanos nos distanciamos dos demais animais por dois motivos e uma consequência: nosso desenvolvimento intelectual, nossos polegares opositores e, como resultado, nossa capacidade de barrar instintos e nos guiarmos pela razão. Mas será que somos capazes de burlar nossa natureza mesmo quando ela se torna algo maior do que nossa consciência e capacidade de discernimento? O que fazer quando tendemos ao incomum involuntariamente? Grave é o filme franco-belga que fez muito barulho nos festivais pelo qual passou, exatamente por trabalhar sobre a essência anômala quando exteriorizada.

Justine (Garance Mariller) é a jovem caloura vegetariana na universidade de medicina veterinária. Ao submeter-se ao ritual de iniciação dos novos estudantes, sob influência de sua irmã mais velha Alexia (Ella Rumpf), ela ingere um fígado cru como parte do trote, mas algo inusitado ocorre: lhe aflora um apetite insano por carne crua. A partir de então, ela tem de lidar com sua insaciável fome, e seus desejos que se tornam cada vez mais insólitos, dentro de um ambiente pouco favorável.

Julia Ducournau, responsável pelo roteiro e direção, adota um ritmo lento para desenvolver e manifestar a avidez canibal de Justine. A iniquidade surge dentro de uma crescente da atmosfera criada. É nesse processo lento que está o ponto chave para o horror. Aproveitando-se da relutância de sua protagonista em aceitar sua particularidade, suas vontades são negligenciadas inicialmente, Ducournau se apoia na naturalização da faceta pouco ortodoxa recém-descoberta. É dentro desse processo vagaroso que o anormal se torna o comum. Utilizando de recursos visuais para construir sua narrativa, Julia insere um subtexto nas cores, elas traduzem o cerne animalesco da febre por carne: o vermelho está quase sempre presente, acompanhando e contaminando Justine.

Apesar da aparência franzina e delicada, Justine demonstra em momentos oportunos, quando não há ninguém por perto, a selvageria contida e mascarada por seu visual pouco ameaçador. É nítida sua dificuldade em aceitar sua essência, ela sofre, se sente culpada e aterrorizada ao perceber o que tem acaçapado dentro de si – Garance sabe dar a sua personagem essa sensação de pânico da autodescoberta. E a tentação pela carne se mistura entre o sexo e a vontade de comer, um leva ao outro, como resultado e obtenção do orgasmo. As necessidades bestiais de Justine se incorporam em seus olhares, ela é a fera que observa suas presas.

Diante da possibilidade de trabalhar a violência contida no ato canibal, a opção por não explorar em excesso seu uso, com a finalidade de apenas chocar, fortalece o filme. As cenas são fortes e trabalham o sentimento de repulsa aos hábitos da garota, mas sem expor o que ocorre. A deixa é para que o público preencha as lacunas visuais. Não é que não existam momentos impressionantes, eles existem e são bem construídos, mas é que esse não é o motor do filme. A trilha sonora certeira evoca o espanto e o asco, é como se fixasse as cenas pesadas e a estranheza em nosso inconsciente.

O filme respeita suas propostas e surge como um ótimo drama de horror. O maior problema talvez esteja em sua publicidade. Ao alardear sobre pessoas que desmaiaram ao assisti-lo em festivais, o público pode esperar uma produção recheada de clichês, jump scare ou a presença de muitas cenas de gore e se decepcionar.

Ao tratar daquilo que é inerente ao ser humano, por mais incomum que possa ser, Grave representa o horror da aceitação e do convívio com a natureza que escondemos, mas ainda existe. Ainda está lá e pode florescer.

Written by João Neto

Estudante de jornalismo, jauense, apaixonado por cinema e estranho como um personagem de Wes Anderson. Produtor de conteúdo do site Universo DC 52, crítico do PisoVelho e do Cinetoscópio.