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Krisha

Uma mulher entre a desorientação e a tentativa de se regenerar

Primeiro longa-metragem do americano Trey Edward Shults, “Krisha”, foi nomeado em diversos festivais de cinema independente e venceu 15 prêmios. A produção do longa é curiosa, pois conta com o diretor atuando no seu próprio filme que foi filmado na casa da sua mãe, que também atuou no projeto junto com outros integrantes da família, tendo apenas alguns atores contratados.

Shults estreou seu segundo longa “Ao Cair da Noite” (2017), que caiu no gosto da crítica, que tem elogiado o desconforto da narrativa e a sensação de paranoia. Desconforto é a palavra certa que também caracteriza “Krisha”. Inspirado (segundo Trey) em acontecimentos de sua própria família, a história, claro, é sobre Krisha (Krisha Fairchild), uma mulher que depois de um tempo afastada da família, está de volta a convite de sua irmã, Vicki (Victoria Fairchild) para passar o dia de ação de graças com todos na casa.

O primeiro plano já coloca a protagonista nos olhando. Seu semblante cansado, já nos diz que há algo errado com a personagem. Quem é essa mulher? Qual o seu passado? Essa imagem é claramente um reflexo de como a personagem está se sentindo por dentro, pois estamos ali prestes a conhecê-la mais intimamente e aceitamos embarcar em sua história.

Quando a narrativa de fato se inicia, Krisha chega de carro na rua onde fica a casa de sua irmã e onde se passará o jantar. Agora vamos notando Krisha como um parente atrapalhado, que deixou parte da roupa presa na porta do carro enquanto dirigia, que toca a campainha da casa errada, ou que pisa na poça d’água momentos antes de chegar na casa certa. O que aparentemente dará um tom de comédia, irá aos poucos se transformar em um drama desconfortável e triste sobre alguém que está tentando fazer com que as coisas deem certo na vida.

Todo o trajeto de Krisha do carro até a casa e até ao entrar no local e cumprimentar todos, foi feito em plano sequência que ao mesmo tempo que nos faz acompanhar a personagem e descobrir o lugar junto com ela, também traz uma forma de percepção de todo o ambiente, deixando tudo mais natural ao mesmo tempo em que todos os integrantes da família falam alto e ao mesmo tempo, dando mais naturalidade quando se pensa em uma família reunida.

A chegada de Trey (Trey Edward Shults), que mais para frente descobriremos sua forte ligação com Krisha, já vai aos poucos revelando o passado da relação da personagem com o rapaz. Um pouco frio com a chegada da mulher, ele guarda muita mágoa de seu passado. A partir de diálogos expositivos, sem serem explícitos, e das ações da personagem, vamos descobrindo cada vez mais sobre essa mulher que tenta esquecer seus erros e de como prejudicou e preocupou toda sua família. Sua caixa com diversos remédios que vive trancada e cuja chave ela leva sempre consigo pendurada no pescoço, é algo interessante de como a personagem procura “esconder” um lado de sua vida e tenta fazer com que o dia de ação de graças termine bem.

Mesmo com todo seu esforço, o espectador já percebe que tudo não deve sair como planejado. A música desconfortante nos coloca no mesmo desconforto da protagonista que constantemente se sente deslocada  na casa e os enquadramentos reforçam isso ao “enclausurar” o rosto da personagem pelo vidro da porta do quarto onde ela está. A câmera também faz uso de um movimento em 360 graus no teto, que surge do nada entre algumas cenas, para reforçar a sensação de desorientação da personagem e consequentemente a nossa, que nos vemos na pele dela.

Mesmo tentando, a personagem não tem muita sorte na socialização, que resulta numa tentativa frustrada de reaproximação de Trey. A ida a casa pode também ser entendida como a tentativa da personagem em tentar se socializar novamente com o próprio mundo, depois de se recuperar de seus vícios. Não há uma hostilidade coletiva, com exceção de Trey e Doyle (Bill Wise), seu cunhado que se em um primeiro momento parece acolhedor enquanto conversa com Krisha, repentinamente mostra que não acredita na sua recuperação. Isso acaba abalando mais a autoconfiança da personagem que resolve se entregar mais uma vez ao que tanto a prejudicou: o álcool.

A partir daí mais elementos simbolizam a alteração da personagem diante do vício e de como ele a afasta ainda mais de seus familiares. Isso se reflete nos planos por exemplo, que passam a ter uma duração mais curta como se fragmentassem a mente da protagonista. A câmera que passeia por um corredor com diversos retratos da família pendurados na parede, entra em uma sala totalmente escura e o afeto da mulher de um dos sobrinhos de Krisha, enquanto canta para seu bebê recém-nascido, faz um contraponto com a relação frágil da protagonista com seu filho. O slow motion da família se divertindo na casa, mesmo quando não são um ponto de vista de Krisha, acaba representando também o nosso próprio olhar que facilmente nos faz criar empatia com a personagem.

Com inspiração dos filmes de John Cassavetes, em especial, “Uma Mulher Sob Influência” (1974), Trey Edward Shults mostra todo seu domínio em criar uma boa atmosfera de deslocamento e desconforto, mas também de sensibilidade com sua protagonista. É um interessante filme sobre personagens e sua relação com as pessoas e o ambiente que os cerca. Krisha está disponível na Netflix!

 

Written by Tarcísio Araújo

Formado em Cinema pelo CEUNSP - Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio. Escreve para o blog Canal Simulacro e site Cinetoscópio.

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