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Crítica – Sonhando acordado (2006)

O mergulho no onírico de Michel Gondry

O diretor e roteirista Michel Gondry ganhou reconhecimento após seu O brilho eterno de uma mente sem lembranças, em 2004, filme que abordou de maneira diferenciada nossa relação com as memórias. Dois anos depois, o retorno para dentro da cabeça humana. Uma viagem onírica, divertida e apaixonante.

Diferente do seu longa anterior, o roteiro não é de responsabilidade de Charlie Kaufman, mas do próprio Gondry. Ele nos convida a acompanhar a vida e sonhos de Stéphane Miroux (Gael García Bernal), um jovem que acabara de mudar para Paris a fim de trabalhar desenhando calendários. Em sua mudança, ele se apaixona por sua vizinha Stéphanie (Charlotte Gainsbourg). Acontece que seus sonhos são sempre muito vívidos, a barreira entre eles e a realidade é sempre tênue, o que faz com que sua vida seja afetada numa relação em que real e irreal se confundem.

Stéphane é criativo e sensível, Bernal soube dosar bem seu carisma inocente e entusiasmado. O personagem transita de forma fluída entre um mundo surreal, povoado de características singulares, e o real, que mesmo assim ainda carrega alguns traços do mundo onírico. Charlotte se destaca por construir uma personagem que abraça a inventividade, mas, ao mesmo tempo, tem um vínculo mais forte com o mundo concreto, palpável. É a imaginação impulsiva de Stéphane e a capacidade de abraçar os devaneios de Stéphanie que instiga o relacionamento conturbado. Ainda que os personagens tenham conexões fortes, o rapaz se autossabota por lhe faltar segurança. Sonhar, desejar, tudo isso é rotineiro para ele, mas a realização é mais difícil e complexa. O que deixa a moça confusa, é realmente duro entender quais são os propósitos de seu vizinho. Um amor em que dado momento parece platônico, mas no seguinte é convincente, correspondido.

O filme que é marcado por transições, do real para o surreal, do amor acolhido ao amor negado, oferece ótimas composições de cenários. O baixo orçamento, o filme custou apenas 6 milhões de dólares, é compensado pela engenhosidade de Gondry. Ele usa o stop-motion aliado aos materiais simples e diversos, como papelão e papel-celofane, além de efeitos práticos. Sua montagem também é destaque, é graças a ela que a imersão nos sonhos se confunde com a realidade repetidas vezes. O longa estabelece uma narrativa própria e tende a desorientar os desavisados. Os personagens podem estar realizando suas atividades normalmente para, na cena seguinte, um elemento surreal ser inserido em cena. É uma perturbação necessária que se torna divertida a medida em que o filme avança. A câmera quase sempre na mão também auxilia nas investidas de dar dinamismo ao filme e se alinhar a proposta dos sonhos.

A trilha sonora composta por Jean-Michael Bernard é agradável e se limita a ser uma das peças que compõem o filme, ela não tenta emular sentimentos no público ou se sobrepõe aos personagens. Ela parece um pouco apagada em alguns momentos, mas se posiciona antes de ser esquecida.

O longa é uma proposta arrojada e sensível. Ainda que o mundo dos sonhos já tenha sido explorado e se reinventado dentro e fora de correntes como o Surrealismo, Sonhando acordado tem identidade própria, marcada principalmente pelos maneirismos de seu diretor e roteirista. Uma viagem deliciosa ao mundo dos sonhos e que dialoga com a paixão, os desejos e os medos em relação ao outro.

Esse é um trabalho tão forte e marcante na carreira de Gondry quanto seu anterior. Cativante e dedicado, o longa é mais uma contribuição apaixonada e única de seu cineasta.

Written by João Neto

Estudante de jornalismo, jauense, apaixonado por cinema e estranho como um personagem de Wes Anderson. Produtor de conteúdo do site Universo DC 52, crítico do PisoVelho e do Cinetoscópio.