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Filmes Para Ouvir – De Canção em Canção

A vida em modo aleatório

Desde que abandonou de vez o exílio voluntário que o afastou do cinema por quase duas décadas com Além da Linha Vermelha (1998), Terrence Malick venceu a Palma de Ouro em Cannes por A Árvore da Vida (2011) e – quem diria – se tornou um cineasta voraz e produtivo neste século (já são cinco filmes desde 2005). Embora a sua obra gere os mais calorosos debates e adjetivos que vão de genial e vanguardista a enfadonho e pretensioso, a única constatação diante deste panorama é: impossível ficar alheio a um filme dirigido por ele.

Assim como a ordem de execução das músicas é o que menos importa em uma playlist, as escolhas estéticas e narrativas feitas por Malick (Cinzas do Paraíso, Amor Pleno) para construir De Canção em Canção (2017), seu mais novo filme, rompem qualquer comprometimento com a linearidade para entregar uma história de amor em fragmentos.

A cidade de Austin, capital do Texas, recebe anualmente um dos maiores festivais de música da atualidade, o South By Southwest (SXSW). Lá bandas pequenas do mundo inteiro buscam oportunidades e reconhecimento enquanto artistas consagrados se apresentam para milhares de pessoas. E é em meio a toda esta ebulição cultural que o filme acontece.

Sem a presença de uma trama concreta, cabe ao quarteto a missão de fornecer o mínimo (mesmo) de informações para situar o espectador. Pouco é exteriorizado em diálogos. A narração em off segue um fluxo de consciência em que as frases fariam mais sentido caso tivessem saído de letras de músicas. As cenas são peças de um quebra-cabeça em que a audiência é convidada a interpretar e montar.

Sabemos que Cook (Michael Fassbender) é um produtor musical de sucesso que leva uma vida de excessos. O magnetismo que o poder cria ao seu redor é, segundo ele mesmo afirma em determinada cena, “uma arma para vingar-se das crueldades do mundo“. BV (Ryan Gosling) é um compositor que aspira a fama e também o novo protegido de Cook. O epicentro deste inevitável triângulo amoroso é Faye (Rooney Mara), secretária e amante do produtor e namorada de BV. Rooney Mara toma para si todo o protagonismo e brilha intensamente. São suas as mais interessantes digressões do filme. É ela quem vive o vazio, as idas e vindas, a frustração pela necessidade de emoções reais que levam a sua personagem de canção em canção. Rhonda (Natalie Portman) é a moça sonhadora seduzida por Cook e acaba em um turbilhão de autodestruição. A sinergia entre o elenco é espetacular!

A câmera vertiginosa filma sempre de perto, por vezes perto demais, potencializando a sensação de imersão do espectador nas cenas e expondo as motivações mais implícitas nos gestos dos atores. Os planos raramente abrem, mas quando isso acontece, é de tirar o fôlego! O diretor de fotografia Emmanuel Lubezki reedita a parceria com Malick (ambos trabalharam juntos nos cinco filmes lançados desde 2005) e realiza aqui mais um belíssimo trabalho na concepção de imagens quase oníricas.

E como tudo no filme gravita em torno da música, as cenas de shows e bastidores são puro deleite! As luxuosas pontas contam com nomes como Iggy Pop, Red Hot Chili Peppers,Val Kilmer (em performance ensandecida), Florence Welch, Lykke Li, Johnny Rotten (ex- Sex Pistols) e a deusa Patti Smith no papel de confidente da personagem de Rooney Mara.

   Terrence Malick, embora contestado por muitos, é um dos diretores americanos mais importantes de todos tempos e ainda tem muito a oferecer. De Canção em Canção não é fácil e nem pretende ser, mas sem dúvidas merece (e muito) ser visto, ouvido e principalmente sentido.

 

Título Original: Song To Song

Diretor: Terrence Malick

Elenco: Rooney Mara, Natalie Portman, Michael Fassbender, Ryan Gosling

Ano: 2017

País: EUA

Written by Danilo Carbone

Jornalista, cinéfilo e fã de Iggy Pop, Danilo acredita que o cinema e a música são artes complementares capazes de mudar o mundo e as pessoas.