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Crítica: Dois Caras Legais

Anos 70 + Buddy Cops + Industria pornô + ação e comédia bem feita? Tô dentro!

Shane Black! O controverso roteirista de Máquina Mortífera e diretor de Beijos e Tiros e Homem de Ferro 3 retorna aqui ao gênero que ele mesmo criou lá nos anos 80. O Buddy Cops nascido com o já citado Máquina Mortífera que parece ter perdido um pouco de força após a trilogia Hora do Rush retorna aqui com um divertido e surpreendente exemplar.

A trama gira em torno de um investigador particular (Ryan Gosling) e um detetive de aluguel (Russel Crowe) investigando o suicídio de uma atriz pornô nos anos 70. E o diretor não poupa recursos – muito bem elaborados, por sinal – para situar seu espectador nesta época de embalos de sábado à noite: a fonte disco que apresenta seu elenco, a fotografia e o figurino dos atores e principalmente a deliciosa trilha sonora que revive a nostalgia dos mais velhos e, por que não, dos mais novos que com certeza se sentem em casa com um visual ao estilo GTA: VICE CITY.

Entre drogas, sexo e questões sobre o meio-ambiente, a simples trama se desenvolve de uma forma muito elaborada, com um humor certeiro pontuado a todo momento, mas nunca parecendo deslocado. Um quebra-cabeça digno de um bom suspense noir, o que começou com uma investigação simples e um pouco de extorsão para proteger uma garota de um stalker se transforma em um complô envolvendo a indústria pornô, Hollywood e o governo. O que gera não só situações divertidas por si próprias, como também abusa da veia cômica da dupla protagonista para criar momentos hilários.

A própria indústria pornô é responsável por uma das sequencias mais interessantes da trama. Na casa de um produtor de filmes “alternativos”, os investigadores se deparam com situações nada convencionais e um cenário hilário e perturbador ao mesmo tempo – com direito a um Pornócchio(!) –, que logo se transforma em sequência de ação de deixar o espectador na ponta da cadeira. Antes que a cena termine, claro que o humor volta ao epicentro, arrancando novas risadas. Essa mudança, entretanto, não soa forçada em nenhum momento, contribuindo ainda mais para o delicioso ritmo do filme. Claro que nem suas cenas, nem suas frases de efeito seriam os mesmos se não fosse o ótimo elenco.

Ryan Gosling aqui surge com um humor certeiro que pode incomodar o espectador que prefere um humor mais “sério” como o visto, por exemplo, em Birdman. Entretanto, para os mais atentos, é notável ver como Gosling equilibra momentos de histeria com cenas sóbrias, em que o ator consegue extrair uma risada com pequenos detalhes na composição de seu personagem. Se em um momento, o público ri do ator apontando uma arma em um banheiro tentando parecer um profissional, em outro a risada vem naturalmente com um erro linguístico e um trocadilho inteligente com a capital da Alemanha – ainda que a piada seja efetivamente menos engraçada se a pessoa não entender a língua inglesa.

Russel Crowe faz o papel do casca grossa para contrastar com o humor de Gosling. Contido, sério e, em alguns momentos, assustador, Crowe consegue equilibrar bem o filme. A química entre os dois protagonistas é sensacional, o que torna as piadas mais orgânicas e prazerosas em tela. O destaque, entretanto, fica para a jovem Angourie Rice. A garota interpreta Holly Marchs, filha do personagem de Gosling, de uma forma fascinante: entre a canastrice do pai e a brutalidade do parceiro, Holly surge como uma detetive melhor que a dupla, arrancando pistas e se mostrando essencial para a trama, agindo de forma madura, mas nunca perdendo o carisma de criança, lembrando o trabalho de Chloe Moretz no primeiro Kick-Ass.

Se for necessário voltar aos “gloriosos anos 70” para que um gênero que veio perdendo força se levante e continue entregando bons produtos como esse, que seja. O importante é salientar que Dois Caras Legais, foi uma grata surpresa até o momento, sendo um dos filmes mais engraçados de 2016. E nos bastidores já deve estar rolando algumas conversas sobre uma continuação. Se for surpreendente e divertida como este primeiro caso – que já tem cara de franquia, aliás –, é melhor é que os anos 70 não fiquem pra trás tão cedo.

Written by Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", preferindo o termo "Filmmelier". Quer ser o Homem-Aranha quando crescer. Acha que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar, faz turismo na Terra Média e torce pela Grifinória.

Criador do blog Desventuras Cinéfilas | Instagram: @_awilliam