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O Inquilino

Um filme verdadeiramente hitchcockiano!

Conhecido como “O Mestre do Suspense”, Alfred Hitchcock defendia a ideia de que não há o elemento do suspense na surpresa, mas sim na antecipação do que pode ou não acontecer. Presentear o espectador com uma informação enquanto seus personagens não estão cientes da mesma, cria muito mais tensão do que a surpresa em si. Rotulá-lo apenas como um mestre na arte de fazer suspense seria muito superficial, uma vez que sua grande habilidade técnica a favor do visual de seus filmes favorecia a narrativa e a destacava, muitas vezes com elementos nas entrelinhas.

O Próprio Hitchcock considerava o diálogo bem menos importante na narrativa, acreditando que uma boa história pode ser bem contada com elementos visuais bem construídos. Desde que as primeiras imagens projetadas pelo cinematógrafo dos irmãos Lumière foram exibidas, o mundo nunca mais foi o mesmo: nascia o cinema. A experiência adquirida por Hitchcock no cinema mudo tem forte influência na sua linguagem, caracterizando assim seu estilo fortemente visual.

Após ler uma revista corporativa, Hitchcock soube que a empresa Famous Players-Lasky abriria uma filial em seu país e lá iniciaria a construção de estúdios e um programa de produções. Quando começou a trabalhar na indústria cinematográfica, Hitchcock escrevia e desenhava intertítulos para filmes em uma época em que o cinema ainda era algo muito recente. Cinéfilo muito antes de seu primeiro emprego, ele já acompanhava as pré-estreias dos filmes de Chaplin e Griffith (sua grande influência), além de ler publicações profissionais sobre cinema. Conforme as oportunidades foram surgindo, Hitchcock foi crescendo na indústria cinematográfica e com isso surgiram os primeiros filmes dos quais assumiu a direção. Mas foi em “O Inquilino” (seu terceiro filme) que o diretor nos mostra uma forte característica do seu estilo: o apuro visual.

Uma vez em que no cinema mudo o visual era o elemento chave na arte de contar histórias e encantar plateias do mundo todo, Hitchcock mostrou que tinha talento e sabia dominar esse cinema puramente realizado com imagens. Esse apuro fortemente visual, continuou acompanhando o cineasta mesmo quando o cinema falado se fez presente.

Considerado pelo próprio Alfred Hitchcock como o primeiro filme que reúne os elementos que compõem seu estilo, “O Inquilino” (The Lodger, 1927) conta a história de um serial killer que está à solta em Londres e que tem preferência por assassinar mulheres loiras. O longa é baseado no romance de Belloc-Lowndes e na peça “Who Is He”, co-escrita também por Lowndes.

Drew (Ivor Novello) se hospeda na pensão do casal Bounting (Arthur Chesney e Marie Ault). Eles são os pais de Daisy (June Tripp), uma jovem modelo que é cortejada por Joe (Malcolm Keen), um policial que busca pistas sobre o assassino. A excentricidade de Drew e suas saídas durante a noite levantam suspeitas da dona da pensão e de Joe, que acredita que o novo inquilino seja o serial killer. No filme, Hitchcock entrega um filme de forte visual, técnicas inteligentes e várias simbologias.

Existe uma cena interessante em que Drew anda pelo quarto enquanto os outros personagens no andar de baixo, escutam seus passos. Como representar isso no cinema mudo, sem a utilização de intertítulos que expliquem essa ação? Hitchcock sabiamente faz uso de um piso de vidro (no qual Novello caminha por ele) que nada mais nos sugere a noção do som dos passos do personagem.

Não podemos deixar de mencionar também elementos na fotografia do filme que fazem parte do expressionismo alemão, como o uso de sombras distorcidas na janela do quarto da dona da pensão e os próprios intertítulos que apresentam fontes variadas junto com formas geométricas disformes. Mais uma influência na carreira do diretor, que trabalhou no estúdio alemão Universum Film Aktiengesellschaft (UFA), em Neubabelsberg, nos anos 1920. O estúdio foi responsável pelo filme “O Gabinete do Doutor Caligari”, dirigido em 1919 por Robert Wiene, grande clássico do cinema expressionista.

Hitchcock também faz uso de simbologias religiosas no longa, como uma cena em que uma possível culpa de Drew é representada por sombras de uma grade em seu rosto que formam a imagem de um crucifixo.

O diretor sempre acompanhou a mudanças e inovações técnicas na indústria do cinema que iam surgindo com o passar dos anos e sempre as encarou como um desafio. Mais do que a importância da história, estava em como contá-la e surpreender o espectador.

O suspense, marca registrada de Hitchcock, está presente durante todo o filme, incluindo outros elementos típicos de suas obras, como a perseguição de um homem acusado de cometer um crime e até uma cena em um banheiro que facilmente fará o espectador se lembrar de “Psicose”.

“O Inquilino” é uma boa indicação para quem quer começar a conhecer os filmes da carreira de Alfred Hitchcock e perceber que sua inteligência e domínio técnico vieram para marcar o cinema para sempre.

 

 

 

Written by Tarcísio Araújo

Formado em Cinema pelo CEUNSP - Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio. Escreve para o blog Canal Simulacro e site Cinetoscópio.

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