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Crítica – Entre Abelhas (2015)

Análise metafórica da depressão

A fixação com uma poltrona vermelha na boate e as caixas amontoadas num canto da sala da mãe já denunciam que existe um problema na vida do protagonista. O diretor Ian SBF utiliza-se de metalinguagem e metáforas para tratar de um assunto caro a nossa atual sociedade: depressão.

Existem em nossas vidas diversos problemas que preferimos ignorar. Em outros casos buscamos soluções simplistas demais para situações muito complexas e, é nesse ponto que esbarramos nas consequências que aparecem nas formas mais diversas. Em Entre Abelhas, acompanhamos a vida de Bruno (Fábio Porchat) que está passando pelo fim do casamento e ainda não descobriu como lidar com isso. Sua situação piora quando as pessoas deixam de existir para ele, tornando-se invisíveis e inaudíveis.

O diretor escolhe representar os sintomas do protagonista através de objetos e em uma anomalia de sua psique, retratando de forma sutil sua vida deprimida. Ele utiliza esse recurso quando apresenta os problemas conjugais de Bruno. que se acumulam sem que ele perceba, e isso é refletido pelas caixas empilhadas na sala de estar da mãe (Irene Ravache), que cobra uma providência do filho para dar fim à bagunça. Em sua cabeça o fim do relacionamento se deu por conta de uma poltrona que deixou de comprar para sua ex-esposa e, numa tentativa absurda de salvar magicamente seu casamento, ele cria obsessão pelo item, transformando-o em totem, ícone capaz de redimir seus erros. O problema se agrava e a sua falta de interesse por aqueles que o cercam é transfigurada na invisibilidade das pessoas, que vão desaparecendo aos poucos.

Em diversas tentativas de não transparecer o problema, Bruno ignora o fato de que vive uma situação delicada. Ele não compartilha seus problemas nem com o melhor amigo, Davi (Marcos Veras), e só procura ajuda após a insistência da mãe. O longa se torna um exercício de interpretação e estabelece relações abstratas entre alguns personagens, como a prostituta Letícia (Letícia Lima), representando aquilo que o protagonista consegue ver mas não enxerga; o melhor amigo Davi, com seu egocentrismo exacerbado em contraste com Nildo (Luis Lobianco), atendente de restaurante que acompanha as investidas da mãe de Bruno para solucionar o problema do filho.

O maior problema do filme vem do elenco, Veras parece destoar do restante dos atores e seu personagem só consegue ser irritante. Suas aparições podem tirar o público da atmosfera que o longa consegue criar. O ritmo também oferece alguma quebra dentro da imersão da história, às vezes parece lento demais em momentos que poderiam ser suprimidos, mas não chega a ser algo que estrague o resultado final ou sua experiência com o filme.

Nos deparamos com o perfil de muitas pessoas que sofrem silenciosamente dessa doença e ao optar por uma abordagem indireta, Ian adquiri aqui um papel de guia, caminhando pelas barreiras que surgem na trajetória do personagem e apontando, de maneira discreta, os sintomas e seu agravamento. Com um elenco forte, o filme passa as dificuldades do quadro de depressão mas não pega atalhos fáceis, investindo pesado na elaboração de situações mas sempre deixando espaço para momentos pontuais de alívio cômico. Trocando o concreto pelo abstrato, a película ganha em conteúdo e forma, um passo importante para se estabelecer como produção referencial.

Written by João Neto

Estudante de jornalismo, jauense, apaixonado por cinema e estranho como um personagem de Wes Anderson. Produtor de conteúdo do site Universo DC 52, crítico do PisoVelho e do Cinetoscópio.