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Crítica: Annabelle 2 – A Criação do Mal (2017)

Diretor de “Quando as Luzes se Apagam” até tenta, mas roteiro medíocre entrega os mesmos sustos programados e clima tedioso.

Chega a ser complicado esperar alguma coisa do novo filme da franquia Annabelle. Considerando o histórico que hollywood tem com prequels de terror, já temos uma ideia do que nos esperava nesse filme. Entretanto, Annabelle 2: A Criação do Mal trata-se de um prequel do prequel, o que aparentemente torna as coisas ainda mais difíceis.

A boa notícia é que esse prelúdio de Annabelle de 2014 é superior ao “original” (nada muito difícil), graças a direção de David F. Sandberg, diretor do divertido Quando as Luzes se Apagam, que imprime na trama um pouco da astúcia necessária para torna-lo ao menos digerível. Isso inclusive me animou para ver esse novo filme, pois esperava algo no mínimo criativo. No entanto, Annabelle 2 continua com o mesmo roteirista Gary Dauberman, que se mostra novamente preguiçoso ao recontar a história da boneca assombrada da forma mais óbvia e genérica possível. Todavia, não posso isentar completamente Sandberg desse fraquíssimo filme, já que se este fosse comandado por James Wan, é provável que Annabelle 2 entregaria algo menos esquecível.

Logo no início somos apresentados à família principal, formada por um artesão de bonecas e sua esposa, que aceitam hospedar algumas meninas desalojadas de um orfanato 12 anos após a morte acidental de sua pequena filha. Depois de algumas noites, as meninas presenciam as ações de uma antiga e familiar entidade que se manifesta através de uma boneca.

Se em Invocação do Mal, Wan e sua equipe de roteiristas fazem um belo trabalho para que criemos simpatia com a família principal, em Annabelle 2 os personagens são apresentados em diálogos forçados e sequer temos tempo suficiente para compartilhar de suas alegrias ou tristezas, já que em seguida há um salto no tempo e esses personagens se tornam apenas presenças bidimensionais e insuportáveis vagando pela casa. Ao se limitar a uma única cena em que casal brinca com a filha chamando-a pelo apelido de abelhinha, Gary Dauberman busca da forma mais preguiçosa possível criar um envolvimento emocional com o público, que obviamente não funciona. Além disso, ao sequer explorar a reação e os efeitos da morte da filha na família logo no início do filme, o longa perde tempo e força dramática.

Logo em seguida, as meninas chegam à casa e Sandberg introduz os objetos e partes da casa que consequentemente irão nos causar medo (ou tentar) na pouco mais de 1 hora restante de filme. Conduzido em um plano-sequência entrando pela porta da casa, o espectador entra finalmente no filme, ao mesmo tempo em que a técnica estabelece a mise-en-scene – a localização dos quartos, da escada, dos objetos importantes e etc. Esse plano de entrada na casa é algo que Wan utiliza em seus filmes, mostrando que Sandberg provavelmente teve que utilizar alguns recursos já presentes em Invocação do Mal para manter uma certa coerência dentro do universo em que Annabelle 2 está inserido.

Com a chegada das meninas do orfanato, o filme ganha certo fôlego ao criar uma amizade palpável entre Linda e Janice, muito bem interpretadas por Lulu Wilson (Ouija – A Origem do Mal) e Talitha Bateman (A 5ª Onda). No entanto, a partir daí, o festival de sustos programados e situações inverossímeis começa.

Quando digo sustos programados, me refiro aos jumpscares usados à exaustão o filme todo, algo que por mais que James Wan também faça, sempre procura ter um cuidado estético maior, sem se tornar repetitivo, alternando planos fechados e abertos, utilizando sons diegéticos e uma multiplicidade de movimentos de câmera, assim criando uma atmosfera assustadora e não simplesmente aumentando acordes da trilha e jogando algo em cima de um personagem. Destaco apenas duas cenas, que ao meu ver tem um cuidado maior na criação da tensão, e é aí que destaco a astúcia de Sandberg: a cena da cadeira de rodas presa à escada e a cena do beliche. Essas conseguem ser inventivas o suficiente para invocar certa tensão, por mais que ainda se utilizem os jumpscares, mas acabam transformando-os em algo mais orgânico do que um simples susto sem sentido.

Assim, apenas essas duas cenas chamam atenção ao longo das quase 1 hora e 50 minutos de projeção. De resto temos diálogos pobres, personagens secundarias irritantes, conveniências e cenas esticadas demais até se tornarem inverossímeis, como por exemplo, as cenas de Janice do quarto de Annabelle. Como se não bastasse, o miolo do filme trata ainda de apresentar um personagem absolutamente descartável feito em computação gráfica malfeita (à lá Homem-Torto), introduzido, obviamente, para tentar gerar mais uma sequência ou prequel ou derivado, ou seja lá que como os executivos da Warner chamem.

A falta de desenvolvimento dos personagens pesa ainda mais no ato final, que entrega justificativas óbvias e sem mistério algum, tornando-o insuportavelmente longo e cansativo. Nada parece funcionar no roteiro de Annabelle 2, o que leva a concluir que em alguns momentos pareça estar atirando para todos os lados com várias cenas curtas, tentando criar tensão sem nenhuma coerência com a história principal.

A grande questão é que isso já era esperado para esse filme. É provável que nunca estivesse no plano de produção uma história bem contada e amarrada, ou personagens interessantes, por isso devo admitir que Annabelle 2: A Criação do Mal acaba cumprindo seu objetivo com seu público-alvo: entreter através de seus sustos previsíveis, personagens dispensáveis e roteiro preguiçoso. Se você curte esse tipo de terror, ou gostou de Annabelle, vale a pena dar uma conferida, pois pode se divertir.

É uma pena, porém, que esse filme esteja dividindo a crítica que o aponta como “acima da média”, já que este não tem um pingo de originalidade, não assusta ou sequer cria uma atmosfera coerente para se enquadrar nessa categoria. Minha teoria é que subestimam o gênero de terror a ponto de considerar projetos como esse acima da média. Óbvio que comparado a filmes como Os Sete Desejos, O Quarto dos Esquecidos, Boneco do Mal e O Chamado 3, esse ainda sai na vantagem. Porém, filmes como Corra!, Invocação do Mal 1 e 2, e até mesmo alguns que considero mais problemáticos como A Autopsia, Ouija 2 e Quando as Luzes se Apagam mostram que existe espaço para um terror pipoca mais elaborado, criativo, que fuja de sustos baratos, confiem em seus personagens, construam uma atmosfera operante, e, acima de tudo, respeitem seu público.

Cinéfilo, estudante de Cinema e Audiovisual. Sempre buscando aprender mais sobre a sétima arte.

Descobri meu amor por cinema com os mestres Hitchcock, Kubrick e Scorsese, uma fascinação quase doentia por filmes de horror e uma obsessão de colecionador. Aos poucos comecei a compreender o que me fascinava tanto em filmes como "Chinatown", "Evil Dead" "A Sombra de uma Dúvida" e "Três Homens em Conflito", agora me dedico a escrever e estudar o máximo possível do universo audiovisual.