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Reasons to See – Youth (A Juventude)

A suspensão de um tempo irónico.

Youth (2015), com argumento e direção de Paolo Sorrentino, retrata a triste, exótica, e um tanto cómica divergência entre idades, ritmos e vidas. Vidas estas que se cruzam num único espaço – um hotel.

Não vos irei mentir, é um daqueles filmes que deixará uma mancha enorme de dúvidas. Parecerá, nos seus primeiros momentos, um filme que resume trivialmente diferenças entre ser-se jovem e ser-se velho, mas ao longo da narrativa todas as máscaras são retiradas, e afinal o que parecia ser já não o é.

O caminho percorrido pelas personagens é guiado por um trabalho impecável de cinematografia, de som e de realização. É uma obra enquadrada num passo moderado, numa composição visual magnífica, e numa montagem sonora insuperável. Não deixa que nos esqueçamos que estamos perante uma experiência audiovisual sem chegar ao ponto de nos fazer sentir a cadeira onde nos sentamos, é o limbo perfeito. A interpretação é sublime. Exagero? Sentirão o mesmo, acreditem.

Com direção de fotografia de Luca Bizagui, cenografia de Ludovica Ferrario montagem de Cristiano Travaglioli, composição musical de David Lang, aqui deixo algumas das razões para verem esta grande obra de Paolo Sorrentino:

  1. Ironia.

    Ao longo do filme temos momentos de pura ironia, uma ironia que aparenta ter como sujeito a própria vida. Como no começo desde texto referi, existem passagens cómicas mas de tom negro, através da interação entre as personagens. Mick Boyle (cineasta) e Fred Ballinger (maestro) são aqui a dupla de amigos, com já bastante idade, que neste espaço físico e temporal, recordam momentos passados e perguntam-se, em vários momentos, o que foi a vida, o que é e o que será.

  2. Cinematografia e Música.

    Este filme trata a juventude, como o seu título indica, mas de forma perversa, como já devem de ter entendido. Esta perversidade, de mãos dadas com a ironia, constroem a imagem temperada e organizada da obra. Nada é por acaso e, talvez perversão minha, sempre notei a cor vermelha como um símbolo bastante presente e bem distribuído pela narrativa que me levou a entender que se tratasse de uma metáfora para a força da vida.

    Especulações de lado, a fotografia deste filme é escrupulosamente conduzida por pequeníssimos detalhes, que trazem um enorme poder aos elementos que os envolvem. Teremos momentos em que é diretamente apresentado isto, como se estivessemos perante quadros, momentos estagnados no tempo, pausas, como se as personagens ali pintadas encontrassem-se encurraladas, presas áquele momento que parece prolongar-se dolorosamente sobre o infinito.

    Para ligar tudo isto, temos a majestosa composição e montagem musical, que é arrebatadora. Para que não haja spoilers diretos não mencionarei dados específicos, mas decerto que saberão o que aqui falo. Embarco toda a composição, desde a banda de abertura até á música que remata esta obra, quando falo que está tudo no seu devido sítio, cada corte que existe sobre o sonoro, cada entrada deste que está ali para nos confundir ou incitar algo. É sem dúvida um trabalho supremo, não exagero nem um pouco quando me adjetivo o que quer que seja neste texto, e sei que concordarão comigo assim que assistirem ao filme. Não há muitas mais palavras para definir o excelente trabalho das pessoas que já aqui referi, basta só mesmo experienciar.

  3. Michael Caine e Harvey Keitel.

    Sem tirar qualquer importância a todos os outros intérpretes, M. Caine (Fred Ballinger) e H. Keitel (Mick Boyle) são simplesmente magníficos! As suas atuações enquanto dupla é de cortar o fôlego, por um lado temos a personagem Mick que é cheia de energia, corrompendo as linhas da idade que atravessam o seu corpo, um homem cheio de emoção, com uma grande paixão pelo seu ofício e pelo encanto da vida. Por outro lado temos Fred, apático – como a filha Lena (interpretada por Rachel Weisz) o adjetiva, completo oposto de Mick, já sem vontade de viver e de praticar o seu trabalho, apenas caminha com o vento da vida sem esperar nada desta.

    A narrativa é quase dividida entre o ritmo de cada um deles. O lado febril e movimentado que Mick acarta consigo, e o lado preciso, calmo, ritmado de Fred. Descobrimos uma fluidez de sensações e emoções que são despertas consoante o calor de cada um.

  4. Tom e Tempo.

    Para rematar um pouco o que acima falei, é mesmo incrível como tomamos em atenção o tom que, por exemplo, Fred nos traz. A sua postura, o modo como coloca a voz, o modo como se dirige a alguém, toda a trama que se envolve sobre este muda automaticamente, muda de acordo com este mesmo, muda para as suas necessidades serem preenchidas, como em todas as outras personagens acontece, mas com real ênfase nesta.

    O tempo é aqui uma dádiva, tudo é colorido por este. Penso que este filme tenha como principal foco o estudo do tempo, pelas personagens e pela montagem de tais. Tudo aqui parece padecer do tempo, e este faz o que quer de nós, somos constantemente dirigidos por ele. Ficamos suspensos, assim como as personagens, no tempo, é um filme que aguarda algo. Tudo aqui está em permanente repouso físico mas em constante movimento psicológico.

  5. Choro Convulsivo.

    Não choramos porque o final é triste ou porque uma ou outra personagem está mal, não. Choramos porque é tudo real, tudo fértil, quente, cru. Todos os problemas, todos os pensamentos que ali sobrevoam são tão forte, tão sinceros que choramos. Choramos porque sentimos a dor através da compreensão, entendemos que aquele era o seu fim pois o seu ser assim o era, sem o sustento da sua alma nada mais valeria a pena. Sabemos que aquele ou aquela tomou certa decisão porque na observação dos outros entendeu o seu verdadeiro ser.

    Convulsivamente porque é forte, é repetitivo, vemo-lo em todo o lado. Observamos como é incrível a vida, não se trata apenas de um vida idealizada para passar na tela, é a vida. É assim que, num hotel, tudo acontece. É a pureza do convívio coletivo, do olhar, da fala, do toque, da troca de palavras e carinho. Muitas lições aqui se aprendem.

 

Qual será a pergunta e/ou sentimento que mais ficará consigo após o filme?
Veja aqui o trailer:

Written by Daniela Maia

Entusiasta por tudo o que é belo, espetacular, sensível e por tudo o resto que me é difícil nomear.
Nasceu e vive, para já, em Portugal.

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