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Moonlight: Sob a Luz do Luar

Uma celebração do humano em meio a uma vida cheia de dificuldades

O texto contém spoilers!

A edição do Oscar 2017, sem dúvidas, ficou na história. Ninguém nunca havia errado o nome de um vencedor. “La La Land” levou seis prêmios, além de ser eleito como melhor filme de 2017. Momento esse que durou alguns minutos. Com Moonlight: Sob a Luz do Luar, sendo o verdadeiro e merecido vencedor do Oscar de melhor filme, podemos dizer que tivemos uma premiação quase justa (“Star Trek” deveria ter ganho por melhor maquiagem, assim como Isabelle Huppert como melhor atriz, pelo filme “Elle”).

Opiniões à parte, ainda é cedo para sabermos se “Moonlight” irá se manter atual com o passar dos anos, mas podemos ter certeza de que no presente o longa é extremamente necessário ao retratar a comunidade negra longe de estereótipos e através da humanidade que dá aos seus personagens que somado ao prêmio, contribui para uma grande visibilidade de uma comunidade tão marginalizada.

Mas não pense você que ainda não assistiu ao filme, que ele traz na sua forma uma narrativa carregada de vitimismos ou até mesmo panfletária. Tudo foi realizado com muita sensibilidade e poesia, tocando em assuntos como homossexualidade, bullying, autodescoberta, a importância da afetividade e da conexão entre as pessoas e a tentativa de se encontrar no mundo, garantindo assim um desabafo universal capaz de criar fácil empatia com o público.

O longa se destaca por sempre buscar a humanidade e a beleza em meio a um ambiente violento e que oferece poucas chances ao personagem principal. Dividido nas três fases da vida de Chiron (Alex Hibbert), conhecido por todos como “Little”, o filme conta a história desse garoto que mora em um bairro periférico de Miami. Nessa primeira fase somos primeiramente apresentados a Juan (Mahershala Ali), que também foi premiado, levando o Oscar de melhor ator coadjuvante. O ator interpreta um traficante de craque que terá total significância na vida de Chiron, que logo em sua primeira cena, é visto por nós correndo dos colegas de classe que estão sempre o provocando.

O encontro do menino com Juan acontece em uma casa abandonada onde o garoto se escondeu para não apanhar dos colegas. Acuado em um canto, Juan tira um pedaço da madeira que cobria a janela da casa, deixando a luz entrar no local. Elementos visuais e sutis como esse, fazem total diferença para a narrativa ao reforçar aspectos da relação entre os personagens.

Acuado e sempre falando pouco, Chiron costuma andar de cabeça baixa, trazendo na sua expressão corporal uma autoestima fragilizada gerada pela violência sofrida na escola. Essa característica do personagem parece refletir também na fotografia, que em alguns momentos, a câmera parece evitar o personagem (ao filmá-lo de costas), respeitando assim seu espaço.

A partir desse encontro, Juan terá um papel muito importante na vida do garoto, que resultará na tentativa de resgatar sua identidade, começando por chamá-lo pelo nome. A relação de ambos traz diálogos de extrema importância no que diz respeito a consciência negra e acima de tudo, na base de uma construção de identidade do menino. A confiança fica estabelecida em uma linda cena em que Juan ensina Chiron a nadar.

Já a mãe do menino, Paula (Naomie Harris), é usuária de crack e faz programas dentro da própria casa. A personagem costuma abusar emocionalmente de Chiron quando está sob efeito da droga. Essa primeira fase da vida do protagonista, bem como a segunda, encerra com momentos de rupturas. Em uma cena em que Paula grita com Chiron, podemos observar ao fundo uma iluminação arroxeada, vinda do quarto da personagem. No cinema é comum a ligação da cor roxa com a morte. Se aqui a morte não ocorre de forma física, ela acontece de forma simbólica, já que parece marcar o fim dessa fase da vida de Chiron e de uma possível relação saudável com sua mãe, que vai se entregar ao vício com o passar dos anos. O mesmo rompimento acontecerá entre Chiron e Juan, quando o garoto descobre que o único homem que ele conheceu e que sabia que poderia confiar, vende drogas e tem sua mãe como uma das consumidoras. A cena é uma das mais emocionantes e deve ter tido um grande peso para que Mahershala Ali ganhasse o prêmio da academia.

Chegando na segunda fase, Chiron (interpretado agora por Ashton Sanders) agora é um adolescente que continua a sofrer bullying na escola. O menino se esforça para manter a confiança, porém, o meio em que vive continua não facilitando para que sua vida seja menos difícil. Seu amigo Kevin (Jharrel Jerome), é agora o responsável pela descoberta de sua sexualidade, uma vez que Chiron nutre sentimentos pelo rapaz.

Já a relação com sua mãe, é marcada pelo vício da personagem que está mais avançado do que antes. Agora adolescente, tanto Chiron quanto nós, encaramos o vício de Paula de forma mais direta e explícita. Em uma cena de abstinência em que Paula precisa de dinheiro para comprar drogas, a mulher aparece desorientada. A câmera subjetiva de Chiron e de Paula, frisa bem o estado de mãe e filho. Se com os olhos de Chiron, vemos uma mulher alterada, precisando se drogar, pelos olhos de Paula temos um filho ciente do que acontece com sua mãe e que não sabe o que fazer.

Aos poucos a fotografia vai ganhando luzes mais quentes, provenientes dos postes das ruas da cidade. Essas cores estão presentes em uma das cenas mais significativas para o personagem que é quando ele beija Kevin e um contato mais íntimo entre os dois personagens acontece. Segundo o próprio diretor, Barry Jenkins, a fotografia do longa não optou por seguir talvez o que seria o mais óbvio, como “banhar” os personagens somente em luzes mais frias ou sombras. Jenkins cresceu em bairros periféricos assim como o protagonista, mas disse em entrevista, se lembrar sempre da beleza das luzes da cidade. Como já dito no início, “Moonlight” retrata uma dura realidade, mas sem nunca deixar a beleza da vida que pode existir em meio ao sofrimento e também sem deixar que seu protagonista perca sua sensibilidade e essência, características essas que parecem refletir na fotografia, que também não deixa de retratar a melancolia da vida, fazendo uso de uma fotografia mais azulada em determinados momentos.

A ruptura acontece mais uma vez no final da segunda fase do protagonista. Dessa vez o bullying é o grande responsável por isso. Como se não bastasse, o grande causador de tudo é justamente Kevin, que por medo de ficar mal com os colegas, aceita dar uma surra em Chiron. Fica claro como as pessoas que parecem dar esperança para que o protagonista possa mudar sua realidade, são as mesmas que acabam lhe fazendo mal.

E finalmente chegamos na terceira fase. Chiron, agora conhecido como “Black” (interpretado na fase adulta por Trevante Rhodes), vive em Atlanta. Depois de ficar um tempo na prisão juvenil, foi ajudado por um traficante e agora tem uma vida muito semelhante à de Juan. Mais musculoso e respeitado por todos, ele usa uma espécie de prótese dourada por cima de seus dentes reais e anda em seu próprio carro. Se o filme parece nos fazer pensar, mesmo que por um segundo, que a narrativa irá cair em algum estereótipo que retrata personagens negros apenas como traficantes, a terceira fase de Moonlight nos mostra ainda mais porque o filme é um dos melhores do ano.

A partir daqui iremos acompanhar a desconstrução da nova imagem de Chiron, que irá revelar mais uma vez sua essência, sensibilidade e humanidade, independentemente do que a vida o levou. Um telefonema de Kevin, que agora trabalha em um restaurante, e um convite para jantar, trará à tona todo o seu passado e a possibilidade de um futuro melhor para o protagonista. Essa fase é também marcada como um momento de se fazer as pazes com o passado. Antes de ir se encontrar com o amigo, Chiron visita a mãe em uma clínica de reabilitação onde o encontro serve como um pedido de perdão da mãe e a possibilidade de um novo recomeço.

No encontro entre Kevin e Chiron, é possível percebermos mais uma vez o poder das luzes da cidade e do próprio restaurante que reforçam através de cores quentes, a relação do protagonista com seu amigo, que também está disposto a pedir desculpas pelo o que fez. O azul também não é esquecido, ao aparecer nas luzes da cozinha, da geladeira e até pela janela do restaurante.

Chiron leva um tempo para sair do carro e quando o faz, está usando a prótese dourada.  Ele resolve vestir uma camiseta por cima da regata que usava, reforçando mais uma vez o visual como forma de representar questões emocionais do personagem, que parece usar uma armadura para se proteger da vida. Voltando ao restaurante temos outra questão: a comida. O ato de oferecer comida é algo bem forte em Moonlight, já que nas três fases da vida de Chiron, alguém oferece uma refeição a ele, simbolizando esse afeto e conexão dele com esses personagens. Agora com Kevin, a preparação do jantar e a montagem do prato feito pelo próprio, ganha destaque e até música, fortalecendo sua importância na narrativa. Já Chiron, retira os dentes de ouro para poder jantar, adicionando assim mais um elemento para esse “desarmamento” do personagem.

No final, no apartamento de Kevin, Chiron se abre e revela algo que resume todo o filme: a jornada desse personagem em busca de afeto e de conexão com as pessoas. Independentemente do destino de seus personagens, Moonlight: Sob a Luz do Luar é mais que uma narrativa sobre a vida de um garoto até a fase adulta, é também um retrato da esperança no outro. Em tempos de frases como: “Tá com dó? Leva pra casa! ”, o filme busca trazer uma humanização de estereótipos que caem facilmente em julgamentos quando não nos damos o trabalho de procurar entender o contexto da vida alheia.

O filme está disponível na Netflix!

 

 

 

Written by Tarcísio Araújo

Formado em Cinema pelo CEUNSP - Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio. Escreve para o blog Canal Simulacro e site Cinetoscópio.

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