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Crítica: Game of Thrones – 7° Temporada (2017)

O sétimo ano é bom, mas confirma seu enfraquecimento e prepara o terreno para uma conclusão abaixo do esperado.

Essa análise da sétima temporada está lotada de SPOILERS, então recomendo assistir os episódios antes da leitura.

Game of Thrones, ao longo de suas 7 temporadas, conseguiu quebrar recordes e mais recordes de audiência, atraindo fãs de todo o mundo e transformando os domingos à noite no evento mais esperado da semana. Se cada episódio das primeiras quatro temporadas provavam um amadurecimento da série e de seus personagens, as três últimas confirmam seu enfraquecimento.

Famosa pela coragem de matar personagens-chave, pelos diálogos inesquecíveis e pela trama imprevisível, Game of Thrones foi aos poucos se acovardando em clichês do gênero, roteiro mal amarrado e temporadas inconsistentes. A sétima temporada chegou ao fim ontem, 27 de agosto, e trouxe consigo pouca novidade, poucas mortes, pouco carisma, pouca empolgação para a próxima temporada; pouco Game of Thrones.

Os problemas ficam mais evidentes quando paramos para pensar: o que essa temporada realmente acrescentou para história que já não sabíamos ou prevíamos? Se a justificativa de uma nova temporada é acrescentar novas camadas a trama e responder perguntas, GoT fica devendo dessa vez. Nessa temporada não tivemos um momento como um “HOLD THE DOOR”, ou um casamento vermelho; não tivemos sequer uma season finale verdadeiramente empolgante. Torna-se cada vez mais fácil imaginar um final de série cheio de fan service e com pouca inspiração, algo que não faz jus à obra na qual foi baseada e muito menos às incríveis 4 primeiras temporadas. Entretanto, como bons fãs, óbvio que esperamos uma carta na manga guardada para a próxima temporada. Algo realmente cativante, sejam revelações, subversões ou as mortes na qual estamos tão acostumados.

Para o sétimo ano, foram encomendados sete episódios. Uma decisão financeira provavelmente motivada pelas toneladas de efeitos de pós-produção utilizados tanto nas criaturas fantásticas quanto nos cenários. E se podemos tirar algo de bom disso é que nesse quesito a temporada beira à perfeição. Computação gráfica imperceptível, design das criaturas sensacional. Basta olhar qualquer um dos making offs que HBO disponibiliza em seu canal no YouTube para sair impressionado com o desempenho dos produtores e da equipe técnica responsável (recomendo o making off do episódio 6 dessa temporada, incrível). Em questão de maquiagem e direção de arte a série é uma das melhores da história da televisão, e o figurino chamou atenção especialmente nessa temporada.

Todavia, como já dizia o ditado que se aplica aqui como uma luva: A pressa é inimiga da perfeição.

A decisão de filmar sete episódios foi fundamental para o fraco ano da série. Se o primeiro episódio pouco entregou de novidade e exagera na lentidão, os outros são extremamente corridos. Essa correria atrapalhou por não parar para o desenvolvimento pessoal de seus personagens coadjuvantes, uma das marcas mais fortes de Game of Thrones. Além disso, a continuidade da ação e a movimentação dos personagens no mapa ficaram extremamente confusas, já que, enquanto um personagem demora dias ou até mesmo semanas para ir de A para B, em outro momento ela o faz na duração de 1 episódio sem qualquer tipo de suavização no corte para tentar simular uma ideia de tempo transcorrido.

Isso a gente perdoa.

Falta de desenvolvimento em GoT? Falta de coragem? Não.

Injustificável a falta de pelo menos uma menção a Rickon Stark por parte dos seus irmãos. Injustificável a falta de desenvolvimento dos poderes de Bran, na relação entre Theon e Yara, Arya e Sansa (essas mais prejudicadas ainda pelo roteiro), Euron e sua tripulação que prometiam ser os grandes antagonistas da temporada, passam episódios fora de tela sem motivo algum.

Conveniências que desafiam os limites da verossimilhança foram usadas e abusadas nessa temporada, e a falta de mortes importantes acaba tornando toda situação menos urgente do que realmente é. Exemplos disso são Tio Benjen aparecendo à lá deus ex machina e o Rei da Noite preferindo focar um dragão que voa de um lado para o outro ao invés de um parado no chão. Se antes GoT matava seus personagens como fazia dinheiro, agora a série os poupa, o que é estranho já que sendo um desfecho deveria ser exatamente o momento em que as mortes são necessárias para criar peso dramático.

    

Se um personagem fadado a morte como Jorah é curado milagrosamente da noite para o dia (pelo clima agradável), o que esperar de personagens mais importantes? Jaime escapa da morte no último segundo pelo menos duas vezes, o mesmo com Bronn e Tormund, a passo que, personagens “menos importantes” para o enredo morrem facilmente. Algo que nunca foi da índole da série já que independente da “importância” todos os homens devem morrer.

Game of Thrones nunca foi uma série de protagonistas. Sim, havia os que chamavam atenção para si, os nossos favoritos, mas às vezes a decisão de um personagem coadjuvante era a catalizadora dos acontecimentos. Personagens cinzas, nem bons, nem maus. Para sobreviver em Westeros não se pode transparecer bondade em excesso ou maldade em excesso. A honra de Ned Stark o decapitou, a maldade de Joffrey o envenenou, a sede de vingança de Oberyn Martell o fez cair, a emoção em detrimento da razão de Robb o fez perder a batalha e levar junto o que restava do Norte.

A série que sempre condenou o comportamento de herói, agora coroa Jon Snow (ou Aegon Targaryen) como seu protagonista. Após ressuscitá-lo e transformá-lo em Rei do Norte, tudo se encaminha para que o personagem esteja ligado à lenda do príncipe que foi prometido, o grande herói que salvará Westeros dos frios e temidos Caminhantes Brancos. E incomoda justamente pela quantidade de vezes em que a série coloca Jon em uma situação de morte iminente para depois salvá-lo no último momento.

Contudo, voltando ao começo da temporada, esses problemas não parecia tão perceptíveis. A temporada, mesmo que sem novidade, começa bem. Sansa e Jon tem diálogos interessantes, Daenerys tem tempo de questionar a lealdade de metade de seu grupo, algo que por mais que estranhamente tardio, ainda é valido; Arya concluindo sua vingança em um previsível, mas grande momento, e se questionando sobre voltar ou não para casa; Jaime e Cersei discutindo política e seus próximos passos e Euron exibindo uma canastrice, com seu “pirata malvado”, muito bem-vinda.

Aliás, algo de novo que devemos aplaudir é a quantidade de referências ao passado da série e do universo de Westeros, muito presente nos primeiros episódios dessa temporada. A adaga de Mindinho volta a aparecer, a loba Nymeria, o encontro de Sandor Clegane, o Cão, com as pessoas que deixou para morrer algumas temporadas antes, o retorno de Gendry, muitas menções ao personagem de Ned Stark. Esses links com o passado funcionam como adequados fan services e muitas vezes fecham muito bem arcos de personagens já esquecidos.

Se alguns momentos pareciam ter o tempo exato para o desenvolvimento de uma ação, outros estavam completamente perdidos pela falta de tempo. Um exemplo disso é cena de batalha entre a frota de Euron e os irmãos Greyjoy. Rápida, mal filmada, sem o peso necessário, mas salva pelas belíssimas atuações de Alfie Allen e Gemma Whelan e a loucura do intérprete de Euron, Johan Philip Asbæk. Outro exemplo é a revelação feita de maneira preguiçosa da verdadeira identidade de Jon Snow por meio de dialogos de Bran e Sam, intercalados por flashbacks. Ainda sobre isso, a cena da morte de Viserion desperta poucos sentimentos, e intercalada com a sobrevivência de Jon e a morte de Benjen acaba deixando um gosto amargo na boca.

      

E então chegamos aos momentos em que mais questiono na temporada. O Norte e o arco de Jon e Daenerys.

No arco do Norte, há um dos reencontros mais esperados. As crianças Starks voltam à sua casa com direito a uma das mais emocionantes cenas da temporada: Arya sentada admirando o castelo de Wintefell e os nortenhos antes de encontrar com Sansa.  Se esse foi o ponto alto do arco de Winterfell, Bran mostrando-se um zumbi sem emoção da noite para o dia foi uma das primeiras decepções. Certo que Bran Stark morreu e agora estamos diante do novo Corvo de Três Olhos, porém não faz sentido nenhum o personagem demonstrar tanta frieza ao relatar o estupro da própria irmã como quem não quer nada e decidir ocultar uma das mais importantes revelações da temporada anterior só para no final da temporada decidir que Jon precisa saber que é um Targaryen urgente. Como se não bastasse, o núcleo do Norte chega ao seu pior momento ao decidir focar-se quase inteiramente em Sansa e Arya enganando um personagem que há muito não tem nada a oferecer. Ora, todo arco das irmãs nessa temporada se resume a fingir que caíram na armadilha de Mindinho só para depois dizer “arrá, te peguei”? Foi para isso que a série desenvolveu personagens que se tornaram tão maduras? Para logo depois serem limitas a um arco infantil, previsível e pouco importante?

Com tanta coisa acontecendo nos sete reinos fica difícil engolir tudo envolvendo a disputa de quem é mais inteligente entre Sansa, Arya e Mindinho. Esperava um arco mais focado na preparação para a batalha, nas dificuldades de Sansa em governar, no choque de Arya ao se ver de volta ao lar em uma condição de vida que há muito tempo não tinha, no melhor estabelecimento dos poderes de Bran e na revelação de coisas mais importantes para o andamento da série.

 

 

 

 

 

 

Provavelmente pela ausência de George R.R. Martin, antes ligado diretamente à série, e à falta de um material para se sustentar houve uma queda de qualidade. Já foi revelado que os showrunners David Benioff e D. B. Weiss sabem a conclusão dos personagens e, provavelmente, as motivações e os caminhos que esses personagens irão seguir para chegar à conclusão. Contudo, a sensação ao assistir os episódios dessa temporada é a de que eles tentaram, a todo custo, amarrar suas história a fim de encaminha-las para conclusão desejada pelo escritor dos livros.

Provavelmente os produtores sabiam que Jon e Daenerys precisavam se conhecer, para que ele explicasse a existência dos Caminhantes e para, logo depois, obter o resgate dela, culminando, por fim, na morte de um dos dragões da rainha Targaryen.

O problema é a maneira forçada como que todas essas etapas acontecem. Poderia ter sido diferente, já que certamente esse foi o arco mais prejudicado pela falta de desenvolvimento de seus protagonistas. Se no começo Daenerys se recusa a negociar com Jon Snow até que ele se ajoelhe e declare submissão, é difícil, logo em seguida, comprar uma amizade entre os dois e muito menos um romance ou uma tensão sexual. Por isso, diálogos como o que antecede a ida de Jon além da muralha (“Eu me acostumei com você”), ou mesmo o diálogo no qual Jon a chama de “Dany”, simplesmente não funcionam por soarem tão artificiais. Se nem a amizade dos dois protagonistas foi dignamente construída, o romance entre personagens tão diferentes ligados por uma novela fizeram-me questionar se o que eu estava assistindo era mesmo Game of Thrones.
Com as coisas indo de mal a pior no arco de Dany, a season finale tratou de ao menos entregar uma conclusão de temporada decente, mesmo que não tão empolgante como um finale de GoT deveria ser.

O episódio começa com diálogos saudosos envolvendo reencontros de personagem que há muito não vemos interagindo entre si. Com destaque para tudo envolvendo o Cão de Caça, um dos melhores personagens da temporada, e todo o arco dos irmãos Lannisters envolvendo o reencontro de Tyrion com a irmã e a tão desejada despedida de Jaime, tomando um rumo contrário à sua irmã.
Infelizmente, o romance de Daenerys e Jon mostra-se novamente muito artificial por mais que o roteiro tente criar um momento íntimo de diálogo entre os dois no começo do episódio, ao mesmo tempo em que uma voz em off de Bran acaba firmando toda característica novelesca do arco (digo isso no pior sentido da palavra “novelesca”).

O encerramento do episódio reflete tudo que a última temporada vinha construindo. É agradável ver o Rei da Noite montando no Viserion zumbificado, porém de maneira apressada a sequência é construída sem nenhuma força dramática e o grande evento que seria a queda da Muralha. O fim da separação dos homens, sejam bons ou maus, dos frios Caminhantes, acaba virando um momento como qualquer outro.

Resta esperar a oitava e última temporada que promete fechar arcos de seus personagens, apesar de seu encaminhamento se dar de maneira pouco satisfatória. Não que a sétima temporada tenha sido um desastre. Como vimos, tivemos momentos dignos de uma boa temporada de Game of Thrones, mas o potencial de um universo tão bem-criado exige que os fãs, ou o público que acompanha a série, ao menos critique e cobre momentos mais inspirados. Momentos de arregalar os olhos, seja por causa de mortes inesperadas, ou por uma fala incrível. Por revelações menos previsíveis e por um melhor acabamento em relação a direção e roteiro. Acima da média em relação a maioria das séries atualmente. Abaixo em relação a Game of Thrones.

Afinal, faltam apenas 6 episódios para a conclusão. E que seja a conclusão que uma das melhores séries dos últimos anos mereça!

Cinéfilo, estudante de Cinema e Audiovisual. Sempre buscando aprender mais sobre a sétima arte.

Descobri meu amor por cinema com os mestres Hitchcock, Kubrick e Scorsese, uma fascinação quase doentia por filmes de horror e uma obsessão de colecionador. Aos poucos comecei a compreender o que me fascinava tanto em filmes como "Chinatown", "Evil Dead" "A Sombra de uma Dúvida" e "Três Homens em Conflito", agora me dedico a escrever e estudar o máximo possível do universo audiovisual.