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Diretores e atores que cometem abusos contra as mulheres e a capacidade da mídia – e do público – de ignorar esses casos

Esses casos realmente deveriam ser esquecidos?

Notícias de atores e diretores sendo acusados de violência física, verbal e sexual contra mulheres se tornam, infelizmente, cada vez mais frequentes. A maioria dessas acusações acabam sendo confirmadas e por vezes os próprios autores da violência a confessam. Inúmeras vezes, as mulheres que sofrem o abuso se sentem coagidas a não levar o caso à publico, ou quando levam, têm seu discurso descreditado: consequência de uma sociedade fundada na cultura do estupro, na qual homens arranjam todas as “justificativas” possíveis para culpá-las pela violência, sendo que a única e exclusiva causa de um estupro é o próprio estuprador.

Essa semana, Roman Polanski foi acusado pela terceira vez de estupro. Polanski já havia sido acusado outras vezes, a primeira vez em 1977 quando foi condenado pelo estupro de uma garota de 13 anos. Na semana passada o filme “Valerian e a cidade dos mil planetas” estreou com sucesso, fruto de Luc Besson, um diretor que, para quem não sabe, não só namorou uma garota de 15 anos (Maïween Besco) quando ele tinha 32 anos, como a engravidou. Aos 16 anos, Besco deu à luz a filha, Shanna Besson. Casey Affleck, ator acusado de abuso sexual por duas colegas de trabalho, ganhou o mais recente Oscar de melhor ator e foi abundantemente aplaudido na cerimônia (menos pela rainha Brie Larson). E a lista segue longa… Johnny Depp violentou sua ex-mulher Amber Heard e mesmo assim brilhou nas telas com a mais recente sequência da franquia “Piratas do Caribe”. O diretor Bernardo Bertolucci confessou que houve um estupro real contra Maria Schneider em uma cena horrível de seu filme “O último tango em Paris”, e que planejou o estupro juntamente com o ator Marlon Brando, que o executou. Schneider morreu em 2011 sem nunca se recuperar desse episódio, passando por longos períodos de depressão, e tendo afirmado diversas vezes, até mesmo com detalhes, que foi de fato estuprada. Porém, ninguém a ouviu. Enquanto isso, Bertolucci e Brando seguem sendo reverenciados pela mídia e por cinéfilos.

Diante disso tudo, fica o questionamento: por que as carreiras dessem homens não foram arruinadas? Por que as pessoas continuam ignorando as atrocidades que eles cometem? Por que as pessoas continuam exaltando o trabalho desses homens que estupram, espancam mulheres e cometem todo o tipo de violência misógina? É sobre isso que eu quero falar aqui.

A indústria cinematográfica os perdoa, concede chances e os mantém a todo custo nas telas. Mas quem a indústria perdoa e quem não? Lindsay Lohan e Winona Ryder, por exemplo, tiveram suas carreiras arruinadas por ter seus nomes ligados a envolvimento com drogas e furtos (enquanto homens que violentam recebem o direito ao esquecimento de seus atos). Winona ficou durante anos conseguindo somente papeis pequenos, ou participando de filmes fora do ciclo comercial, sendo que já estrelou filmes de sucesso como “Girl, interrupted” e “Os fantasmas se divertem”. Lindsay Lohan até hoje só aparece nos holofotes para ser ridicularizada por sua aparência ou para especulações sobre seu envolvimento com drogas. Ou seja, a mídia é seletiva com quem perdoar, e com quais “crimes” perdoar. Aparentemente perdoa homens brancos e violência contra a mulher, pedofilia e abuso sexual.

Além de indústria, quem também decide quem perdoar é o público, as pessoas. Muitas pessoas têm em mente que se deve, de toda maneira, separar o pessoal do profissional, desvincular uma pessoa de sua carreira (mas parece que isso só serve para homens brancos). E eu não penso dessa maneira e não defendo esse pensamento de modo algum. Dizer que um homem que comete violência contra a mulher merece mesmo assim ter suas obras enaltecidas é mostrar que a carreira de um homem vale mais do que a vida das mulheres que ele arruinou. É mostrar em atitude que a vida dessas mulheres, que muitas vezes assim como Maria Schneider, acabam entrando em depressão e nunca mais voltando a uma vida normal, não valem de nada. Que o sofrimento delas não vale nada. Porque é mais importante exaltar esses homens. É mais importante dar audiência, dinheiro e prêmios à esses homens, do que ouvir as mulheres violentadas, afinal de contas eles são “bons profissionais”.

E é isso que importa, não é mesmo? Há milhares de mulheres batalhando para se inserir na indústria machista cinematográfica, mulheres incríveis que fazem filmes maravilhosos (por várias vezes muito melhores dos que os machistas fazem), esperando para ter sua obra reconhecida. Existem travestis e pessoas trans que não têm espaço nem em frente e nem por trás das câmeras, não podendo contar a sua história. Existem mulheres negras que só conseguem papeis hiperssexualizados no cinema, e nenhum papel em cargos técnicos. Existem homens negros que nunca tiveram a oportunidade de ocupar uma função importante no cinema, que foram ditos incapazes. Existem lésbicas, bissexuais e homossexuais que só tem sua história contada por homens héteros de forma estereotipada, esperando por uma oportunidade de ter voz e participar do cinema. Sim, existem. Mas o fato é que parece que não existem, parece que as suas – nossas – existências são ignoradas. Porque eles passam tempo demais analisando, exaltando e assistindo às obras que esses misóginos fazem, e tempo de menos (ou até nenhum), ouvindo e assistindo a gente. E não desejo de modo algum tirar o espaço de fala de nenhuma das minorias, isso é só um apelo para que elas – e eu, como mulher- sejam(os) assistidas, aplaudidas e apoiadas. Que as mulheres que sofrem esses abusos sejam ouvidas e tenham seu discurso validado.

Sendo assim cabe a nós – cineastas, espectadores, críticos, seres humanos – não esquecer e nem permitir que esses casos de abuso e violência sejam esquecidos. Debater e discutir essas questões é fundamental, concordando ou não com a minha opinião. E fica o apelo para que pelo menos tentemos sair do circuito “homens brancos fazendo filmes” e comecemos a olhar para além disso, afinal o cinema está cheio de obras maravilhosas feitas por pessoas maravilhosas. Encerro esse artigo com um relato pessoal: nesse ano eu comecei a consumir muito mais filmes, livros, bandas e todo o tipo de conteúdo feito por mulheres, por travestis, pessoas trans, pessoas lgbt, e isso fez toda a diferença para mim tanto como mulher, como produtora de conteúdo cinematográfico. Valeu MUITO a pena e eu recomendo a todos que façam o mesmo.

E que nós usemos o Cinema não só como entretenimento, mas como uma ferramenta política.

 

 

 

Esta publicação foi baseada neste artigo traduzido pelo Delirium Nerd e neste diálogo da série BoJack Horseman.

Written by Rafaela Germano

Feminista e apaixonada por Cinema de Horror. Graduanda em Cinema e Audiovisual, atualmente realizando uma pesquisa sobre a Representação feminina e atribuições de gênero em filmes de vampiro.

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  1. muito bom texto, “Dizer que um homem que comete violência contra a mulher merece mesmo assim ter suas obras enaltecidas é mostrar que a carreira de um homem vale mais do que a vida das mulheres que ele arruinou.”, esse trecho é impactante e explicita a reflexão que temos que ter!
    Tinha que ter algum site que só fosse uma lista com os nomes dos diretores e atores e links para suas condenações e acusações e que fosse sendo atualizado…
    http://www.atoresediretoresquenãomerecemseurespeito.com

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