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Crítica: A Cura (2016)

Podia ser bom, mas é só mais um filme do gênero

A proposta de A Cura não é nem um pouco inovadora. A ideia de um personagem que se desloca para dentro de um ambiente desconhecido e tende a questionar sua própria sanidade já foi abordada por muitos diretores e em épocas distintas. O próprio Scorsese fez um ótimo trabalho com o tema em Ilha do Medo. Kubrick também já havia realizado o grande O Iluminado. Com bons exemplos, fica complicado produzir um filme que se destaque entre seus antecessores. Complicado, não impossível.

O enredo é sobre Lockhart (Dane DehHaan), um jovem executivo recém-promovido que recebe a missão de trazer de volta o CEO da empresa em que trabalha. Ele então viaja para a Europa a fim de encontrá-lo no “Centro de Cura”, uma espécie de spa com tratamento médico especializado. Depois de sofrer um acidente, Lockhart se vê preso e dependente do spa que parece esconder segredos bizarros.

A ideia do filme vem acompanhada por uma excelente e apurada técnica. A fotografia muito clara e limpa enchem os olhos e preenchem a tela de maneira muito bonita e orgânica. O uso de tons sempre suaves, com um verde acolhedor por quase todas as cenas, auxiliam no objetivo de construir a ideia de um local muito receptivo. Há também uma brincadeira de câmera com a questão dos reflexos e a presença de espelhos, na qual nem tudo é exatamente aquilo que parece. O longa consegue transmitir a impressão de que existe algo errado dentro do spa, mesmo que seus olhos tentem convencê-lo do contrário.

Apesar de situar-se bem com os elementos técnicos, o roteiro é frouxo, repetitivo e preguiçoso. O filme pula de um produto com um visual bem trabalhado, muito atraente, para uma história desinteressante. São clichês e mais clichês entre o protagonista e os demais personagens. O longa não evoca o medo ou o suspense preciso para que a história seja provocativa, instigante. Quando parece encontrar um bom desenvolvimento, o diretor opta por tentar outro caminho, para depois tentar outro mais uma vez, esvaziando qualquer tipo de esforço em adotar uma abordagem coerente. Gore Verbinski, apesar de ter um currículo com bons filmes, como a animação Rango (2011) ou Piratas do Caribe: A maldição do Pérola Negra (2003), aqui parece desleixado e ambicioso, um trabalho que aspira ser maior porém não cria bases para tal, o que deixa seu filme pouco estimulante.

A escolha do elenco piora a situação. Dane DeHaan não é carismático e não tem peso o suficiente para dar vida ao seu personagem. Ele se esforça para parecer um jovem homem de negócios, obstinado em galgar posições sociais e cargos mais elevados na empresa, mas o máximo que consegue é parecer um menino perdido dentro de toda a trama. Jason Isaacs, que vive o diretor do centro de cura Henrich Volmer, é melhor trabalhado, porém isso se desgasta com o tempo, vítima do roteiro indeciso e previsível que o torna caricato. Mia Goth, a misteriosa e introspectiva Hannah, é a mais bem resolvida. Ela é cativante com sua beleza natural e sua inocência, mas não é o suficiente para carregar um filme com tantos problemas.

Há alguns momentos pontuais em que o longa arrisca o uso de violência gráfica, beirando o gore, pequenos desvios que podem chocar, mas são poucos e na maioria das vezes suavizados nas cenas seguintes.

Dentro de más escolhas, o filme tenta forçar alguns plot twists, mas são pontos de virada tão secos e precipitados demais, ou tardios demais, que não condizem com o que havia sido mostrado até então. Piora quando essas mesmas situações se resolvem de forma brusca. Como se não fosse o suficiente, o vilão é canastrão e lembra muito um antagonista de histórias em quadrinhos. Com tantos problemas, pouco se sustenta dentro do longa. Tendo que se contentar em ser um ótimo trabalho visual, A Cura é esquecível e deve agradar a um público que não cria grandes expectativas com produções do gênero.

Written by João Neto

Estudante de jornalismo, jauense, apaixonado por cinema e estranho como um personagem de Wes Anderson. Produtor de conteúdo do site Universo DC 52, crítico do PisoVelho e do Cinetoscópio.