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O futurismo em ‘2001: uma odisseia no espaço’

E a relação entre o filme e seu contexto histórico

[Contém Spoilers]

A tecnologia molda o ser humano e seu comportamento em sociedade. Do descobrimento da primeira ferramenta à sofisticação da inteligência artificial contemporânea, as mudanças técnicas são mudanças na cultura humana, visto que é justamente a artificialidade aquilo que nos torna seres racionais, sociais, diferentes de todos os outros seres vivos.

A técnica agrícola tornou o homem sedentário, permitindo o desenvolvimento de comunidades e, com isso, funções determinadas para cada membro do grupo. A criação das estradas tornou possível uma rede de comunicações vasta e complexa. A escrita transferiu o homem de uma lógica oral e mítica para um pensamento estacionário e linear. A Revolução Industrial substituiu a produção artesanal para uma produção em escala colossal. Todas essas modificações transformaram o homem enquanto ser social – sua lógica de pensamento, sua visão de mundo, sua maneira de imaginar e se comunicar; tudo muda de acordo com a tecnologia em vigor.

No entanto, não é apenas o estado atual da técnica que nos modifica. A potência dos avanços futuros também influencia a convivência humana. Seja por medo, ambição, esperança, ou quaisquer outros sentimentos, nós inevitavelmente concebemos em nosso imaginário – um imaginário coletivo – ideias sobre o futuro e seus aparelhos artificiais, e como eles modificarão o mundo e as relações interpessoais.

O ano é 1968. As pessoas estão vivendo na presença de um espírito, chamado Guerra Fria, e era o imaginário tecnológico que ditava as regras de dominação mundial. Batalhas simbólicas eram travadas entre o capitalismo e o socialismo, a fim de se mostrar mais aptos a governar a população da Terra do que o inimigo. Bombas atômicas, microcomputadores e foguetes espaciais serviam de propaganda ao mundo para provar qual ideologia os guiaria para o futuro mais promissor e seguro. Foi esse mesmo espírito que levou Kubrick a criar uma das obras mais importantes do cinema de ficção científica, o futurista 2001: uma odisseia no espaço (1968).

Depois de presenciarem os horrores da 2ª Guerra Mundial, as pessoas estavam ansiosas para o futuro. O que esperar do novo milênio, afinal? Divididos entre bombas atômicas com o poder de aniquilar o mundo e naves espaciais com o potencial de nos levar até o infinito do universo, a população vive um misto de medo e esperança. E esse espírito, da Guerra Fria, é alimentado pelas tecnologias, ou melhor, pela explosão tecnológica da época. Computadores, espaçonaves, televisores, tudo avançava em um ritmo vertiginoso, de tal modo que a ópera espacial de Kubrick se passa apenas 33 anos no futuro. Nesse tempo, a humanidade já teria colonizado a Lua, encontrado evidências de vida alienígena e criado uma inteligência artificial muito refinada.

A tecnologia avançava cada vez mais rápido, e cada vez mais se tornava indispensável na vida das pessoas. 2001, além de outras coisas, é sobre a confiança na tecnologia. Eles chegam a colocar o controle de toda a nave da Missão Júpiter sob a responsabilidade do computador HAL-9000. Os humanos Dave e Frank são praticamente inúteis, sem contar com o restante da tripulação, que está em estado de hibernação durante toda a viagem.

Mas toda essa confiança cobra seu preço. HAL-9000 descobre que os astronautas planejam desligá-lo, e então decide que ele vai “desligar” os humanos antes que isso aconteça. Ele desativa as câmaras de hibernação dos pesquisadores, corta o oxigênio de Frank e tenta deixar Dave pra fora da nave, para morrer na imensidão do espaço. O astronauta consegue sobreviver, e reinicia HAL, mas o fato é que a inteligência artificial ganhou autoconsciência, e prezava pela própria vida tanto quanto qualquer ser orgânico. Naquele ponto, não havia mais distinção entre humano e máquina. HAL-9000 superou sua programação e reivindicou seu papel de sujeito, de ser consciente.

HAL foi projetado por humanos. HAL aprendeu coisas com humanos. HAL desenvolveu pensamentos como os humanos. Essa intrínseca relação nos demonstra algo importante sobre o filme e a sua maneira de comunicar o imaginário americano daquela época. Quanto menos capaz de se igualar a ou superar o ser humano, menos ameaça a inteligência artificial representa. À medida que o computador começa a adquirir mais capacidade intelectual, cognitiva e decisória, maior as chances de ele assumir o controle e se voltar contra a humanidade.

Quando o computador viu sua vida e o futuro da missão comprometidos, tomou decisões próprias — decisões que um humano, talvez, também fosse tomar. Dave deu uma ordem, mas a inteligência artificial já não era mais um escravo, e gentilmente recusou:

“I’m sorry Dave. I’m afraid I can’t do it.”

Embora o filme se encerre com a vitória do homem sobre a máquina, ele resolve esse conflito sem oferecer conciliação. De fato, apesar dos alertas de 2001 para os perigos do progresso técnico, não há solução para o problema. É impossível interromper o avanço tecnológico enquanto a sociedade existir. Essa evolução está fora do nosso controle, pois ela faz parte de quem somos enquanto humanos. Assim como Dr. Fausto, seguimos nosso sonho de construir uma sociedade utópica, ainda que cegos, confiantes de que o domônio nos guiará para esse objetivo. Na Guerra Fria, principalmente, esse sentimento parecia tomar conta dos cidadãos americanos. As funcionalidades, tanto cotidianas quanto históricas, da tecnologia pareciam esmaecer os efeitos da guerra, da bomba atômica. Para essa parcela prometeica do povo, o futuro garantiria vidas melhores a eles. Para o filme 2001, fáustico, a humanidade assinava seu próprio contrato de destruição.

O longa-metragem é, como pudemos perceber, uma obra de seu tempo, um reflexo de um dos possíveis futuros imaginados durante a Guerra Fria da década de 1960. Vivendo sempre na eminência de um amanhã extremo – salvação ou destruição total – os cidadãos norte-americanos desconfiavam do que a ciência poderia fazer com o mundo, embora não estivessem, em sua maioria, dispostas a abrir mão das facilidades trazidas pela tecnologia. Em 2001, os astronautas podem se dar ao luxo de jogar xadrez, conversar com a família, praticar exercícios, desenhar retratos, ou realizar qualquer atividade recreativa. Só vemos Dave e Frank efetivamente trabalhando no momento em que há uma “falha” nas operações de HAL. Do contrário, apenas o computador poderia sozinho controlar a missão. E, de fato, a inteligência artificial tentou se livrar dos colegas humanos, ainda que não tenha conseguido completamente.

Written by Alan Soares

Bebo água e assisto filmes. O resto é trivial.

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