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É um mundo estranho

David Lynch, cineasta do onírico, dos sonhos, ganha novo documentário intitulado “Art of Life”.

Jon Nyugen, antigo colaborador de Lynch, vai lançar um documentário que acompanha o dia a dia do artista, onde poderão ser vistas imagens raras do mesmo.

Oniríco, instigante, intrigante, sureal?? Faltam palavras para definir suas Obras.

O próprio Lynch nunca teve essa intenção, longe de ser um cineasta fácil, ele nunca teve a pretensão de ser um diretor consagrado, ele dedicou sua carreira a poucos filmes. Para quem acompanha o trabalho de Lynch, sabe como esse documentário é importante, uma vez que ele sempre foi avesso a entrevistas. Muitas vezes em que foi entrevistado, recebia as mesmas perguntas que eram sempre sobre o significado de seus filmes, ao passo que Lynch sempre respondia que seus filmes eram pra ser sentidos e não entendidos.

Seus filmes sempre foram marcados por uma estética visual muito característica, por personagens imersos em universos únicos, permeados pelo mistério. Lynch opta pela forma, em detrimento do conteúdo, levando sua ideia da concepção da imagem como foco principal de suas obras, cabendo ao público então a difícil tarefa de interpreta-las. Lynch utiliza vários métodos para conduzir suas narrativas, alguns claros e outros nem tanto, desde aos que se assemelham a base freudiana e também alguns que parecem saídos da mente de Gregor Sansa.

Após estudar Pintura na Academia de Belas Artes da Pensilvânia na Filadélfia, onde ele fez a transição para a produção de curtas, ele lançou seu primeiro filme, o terror surrealista Eraserhead (1977), onde já demonstrava um cinema que tinha a estranheza como meio de representação, nesse caso uma alegoria sobre a paternidade. Esse trabalho repercutiu muito no circuito alternativo e serviu de alavanca para a entrada de Lynch em Hollywood com o filme O Homem Elefante (1980), inspirado no drama real de John Merrick, sendo uma incursão do diretor ao universo das pessoas com deformidades físicas, que eram exibidas como atrações em feiras e circos no século 19.

Indo para seu segundo trabalho, Lynch foi agraciado com sucesso de público e crítica, recebendo oito indicações ao Oscar e foi consagrado com o prêmio do Festival de Cinema Fantástico de Avoriaz, na França. Com o sucesso alcançado pelo Homem Elefante, Lynch foi convidado pelo famoso produtor Dino de Laurentiis para dirigir Duna (1984) adaptação cinematográfica do best-seller de ficção científica do escritor Frank Herbert.

Desde o início uma produção conturbada, Duna fracassou nas bilheterias e recebeu duras críticas. Lynch renegou o filme, alegando que foi impedido de assinar o corte final e que Laurentiis mutilou o mesmo. Desiludido com as grandes produções Lynch lançou seu próximo filme como independente, Veludo Azul (1986), um neo-noir que nasceu cult e consolidou o estilo de Lynch!

Nesta Obra estão presentes os elementos oníricos e a volta do surrealismo, desde a famosa sequência inicial, da orelha encontrada pelo personagem de Kyle Maclachlan. Este filme também marcou o início da parceria com o compositor Angelo Badalamenti, colaborador frequente de Lynch.

A consagração definitiva veio com o filme Coração Selvagem (1990),
ganhador da Palma de Ouro no Festival de Cannes, um road movie que mescla Pedro Almodóvar com a atmosfera de O Mágico de Oz. Paralelo a isso, Lynch lançou um seriado para a Tv chamado Twin Peaks, com o ator Kyle M., tratando sobre o choque provocado pelo assassinato da adolescente Laura Palmer, numa cidade interiorana. Visto como um marco na história da televisão americana, Lynch voltaria a esse universo mais uma vez em Twin Peaks: Os Últimos dias de Laura Palmer (1992), mas sem o sucesso de outrora.

Após Lynch lança Estrada Perdida (1997), onde se aproxima do cinema experimental e subverte os meios da narrativa clássica, explorando as possibilidades abstratas da linguagem cinematográfica. Seu filme seguinte História Real (1999), pode ser considerado seu trabalho fora da curva, baseado na história verídica de um ancião que cruzou os Estados Unidos em um trator. Após esse filme diferente, Lynch lançou o Impactante Mulholland Drive (2001) denominado Cidade dos Sonhos no Brasil. O projeto original foi criado para ser o piloto de um seriado para a rede televisiva ABC, mas foi rejeitado pelos executivos da emissora.

Sendo assim o material voltou para as mãos de Lynch, com a ajuda do produtor francês Alain Sarde, ele filmou cenas adicionais e o reeditou, criando assim uma Obra Ímpar, repleto de cenas antológicas, contando a história de uma aspirante a atriz em Hollywood (Naomi Watts) em um relacionamento conturbado e complexo com uma mulher sem memória (Laura Elena Harring), Lynch criou uma Obra Prima sobre a perda da identidade e os meandros do sistema hollywoodiano. Tanto que por esta Obra ele ganhou o prêmio de melhor Diretor em Cannes.

Depois com o advento da tecnologia digital, Lynch aprofunda a sua pesquisa da linguagem em seu trabalho seguinte Império dos Sonhos (2006), contando a história de uma atriz interpretada por Laura Dern, que tem a chance de recuperar sua carreira em crise ao ser escalada para um projeto maldito. Com este filme forma uma trilogia sobre a temática dos sonhos, onde a estrutura não-linear se utiliza da “lógica do sonho”.

Justamente por usar essas imagens de sonho e um meticuloso desenho sonoro, Lynch desenvolveu um estilo próprio chamado de “Lynchiano”. Suas Obras são significativas, instigantes e por isso permeiam o imaginário coletivo de muitos apaixonados por cinema, que ora se deslumbram com as qualidades de seus filmes, ora tentam resolver os seus intrincados quebra-cabeças.

Importante ressaltar que Twin Peaks retornou com uma nova temporada.
E com o lançamento deste documentário sobre Lynch, só nos resta aguardar para assisti-lo e adentrar a mente de um dos mais importante Diretores de Cinema de nossa época.
Lynch já havia lançado um livro intitulado ” Em Águas Profundas-Criatividade e Meditação”, sobre seu metódo de criação. Agora junto ao documentário, os cinéfilos e fãs de carteirinha poderão preencher as lacunas e conhecer mais sobre o processo criativo do mesmo.

Há titulo de curiosidade, em Paris existe um local temático inspirado no Clube Silêncio.

“No Hay Banda”.

Written by Keitarô Urashima

Cinéfilo inveterado, critico, nerd, cineclubista.
Vindo de uma galáxia muito distante após uma longa jornada na Terra Média.
De volta a Batcaverna.