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Cidadão Kane: O Rei da Mídia

O que as Teorias da Comunicação têm a dizer sobre o filme?

[CONTÉM SPOILERS]

Cidadão Kane é considerado por muitos críticos de cinema como O Melhor Filme de Todos os Tempos. Tal título pode ser contestado, mas não há dúvidas de que o filme é excelente em diversos aspectos, desde a direção, ­produção e atuação de Welles, que impressionam, principalmente por se tratar do primeiro longa-metragem de sua carreira, até a fotografia de Gregg Toland e a trilha de Bernard Hermann. Mas este texto não tem como objetivo analisar tais aspectos da obra, mas sim criticá-­lo através das teorias da comunicação.

Uma das primeiras teorias sobre a influência da mídia em relação ao público –que sequer chegou a ser escrita, por falta de credibilidade — é a Teoria da Agulha Hipodérmica. Nela, acredita-se que as mídias são onipotentes, com a capacidade de influenciar completamente o pensamento e o comportamento das pessoas. Charles Kane, o protagonista que dá nome ao filme, exemplifica essa crença na cena em que está conversando com a primeira esposa na mesa de café da manhã. Ela diz: “Mas Charles, as pessoas vão pensar…” e ele completa “… o que eu disser para elas pensarem.” Contudo, nenhum teórico da comunicação jamais defendeu essa ideia. A mídia não possui poder absoluto sobre seu público, nem Kane possuía sobre os leitores de seu jornal. O magnata se candidatou a governador, mas ao primeiro escândalo em que se viu envolvido, a opinião pública se voltou contra ele, mostrando que sua influência é limitada e que as pessoas não pensam necessariamente o que ele “disser para elas pensarem”.

Ainda que a mídia não seja onipotente, como afirmava (e ainda afirma) essa forte crença popular, ela possui um forte poder sobre aqueles que atinge. Uma teoria de fato aceita pelos estudiosos é a da Agenda-­Setting, que afirma a influência dos meios de comunicação sobre os assuntos que serão discutidos pelas pessoas. De fato, em Cidadão Kane, isso se mostra verdadeiro: sua segunda esposa estreia na ópera que ele mesmo construiu, mas foi um fracasso; no entanto, Kane insistiu que ela continuasse com o espetáculo, e seu jornal continuou publicando matérias sobre as apresentações. Ele não possuía poder de fazer as pessoas gostarem, mas tinha o poder de fazer as pessoas falarem sobre aquilo.

Analisando a obra sob a Teoria do Campo dos Media, no qual as mídias seriam um campo não independente, mas sim medidor entre outros campos, o jornal de Kane não parece ter essa preocupação. Ele não publica diferentes visões de um evento, mas sim a opinião de Kane. Isso já é expressado logo no início do filme, na matéria especial sobre sua morte: “durante 40 anos, não apareceu no jornal de Kane problema público para o qual ele não tivesse uma opinião, nenhum homem público que Kane não apoiasse ou denunciasse […]”. Seus interesses eram colocados acima da chamada “neutralidade jornalística” e da mediação entre os campos sociais. Na trama, ele chega a acabar com monopólios em seu país devido a suas próprias ideologias (e rixas pessoais).

Por fim, podemos também perceber no filme a Teoria da Cultivação de Gerbner, na qual as mídias transformam a visão que o público tem da realidade (por exemplo, se as pessoas forem muito expostas à violência nos meios de comunicação, acreditarão que o mundo é mais violento do que realmente é). Um exemplo, que ronda a entrada de Kane no comando do jornal The Inquirer, é o da vilanização dos ricos para os pobres. A visão de que o grande “câncer” da América eram os monopólios foi disseminada pelo jornal e entrou para o senso comum depois disso.

Charles Foster Kane era, efetivamente, um formador de opinião (e, ao mesmo tempo, formado pela opinião pública), com enorme poder midiático, embora não absoluto. Amado por uns, odiado por outros. No entanto, a influência da mídia é sempre temporária (como é visto no modelo da curva em S de Chaffee), e Kane vê seu império jornalístico ruir antes de morrer.

O filme, por sua vez, não perdeu seu poder. Desde seu lançamento, ele se mantém atual às questões midiáticas do mundo todo. Não só por sua direção ou fotografia ele é marcante. A obra é igualmente genial em suas abordagens sobre a realidade em que vivemos.

Written by Alan Soares

Bebo água e assisto filmes. O resto é trivial.

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