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Amor, Plástico e Barulho

A brevidade dos momentos em um contexto musical

Dirigido por Renata Pinheiro, Amor, Plástico e Barulho (2013) é um filme brega. Não me entenda mal. O termo usado aqui faz todo o sentido, uma vez que o pano de fundo do longa não tem preconceitos em abraçar por completo o universo do tecnobrega, que vai muito além da narrativa, tomando conta também de toda a a plasticidade do filme.

Em meio a esse universo cheio de sensualidade, música, cores e luzes, Shelly (Nash Laila) é uma jovem dançarina recém-chegada à banda “Amor com Veneno”, e que sonha em um dia se tornar cantora. Já Jaqueline (Maeve Jinkings), vocalista veterana da banda, percebe que seu sucesso começa a declinar.

Como tema principal, o filme traz a busca pelo sonho e a rotatividade de pessoas, amores e sucessos musicais do momento e como tudo isso pode afetar suas personagens principais. Shelly e Jaqueline estão em meio a essa rotatividade que  também envolve Recife, cidade onde ocorre a trama. Como já abordado em Aquarius e O Som ao Redor, somos aqui surpreendidos por imagens de uma propaganda de um enorme shopping que está aos poucos sendo construído na cidade, trazendo mais uma vez o tema da especulação imobiliária. As imagens mostram casas sendo derrubadas e a imponência da estrutura do shopping em meio as residências.

Existe uma mistura de imagens quase documentais (com a câmera na mão que está sempre próxima dos atores) com imagens que permitem uma licença poética ao quebrar o realismo para frisar a rapidez com que tudo acontece em momentos de pura imaginação de Shelly. Essas observações podem ser conferidas em uma cena em plano sequência onde Shelly está dançando com Allan (Samuel Vieira), ex-vocalista da banda “Amor com Veneno”, que deixou de cantar com Jaqueline para começar sua própria banda. Em um mesmo plano o casal vai da pista de dança para um quarto de motel. Essa rápida transição de eventos, são propositais na abordagem da brevidade dos acontecimentos na vida desses personagens, mas acabam ecoando na vida das pessoas de uma forma geral. E se no mundo do entretenimento vivemos aquilo que está na moda e que é logo descartado, nas relações essas observações não são diferentes.

Essa mesma transição acontece com Shelly, que está no ônibus e ao se contentar em ser apenas a musa inspiradora de uma das canções de Allan (agora com a banda “Amor com Mel”), se permite sonhar com um veículo dominado por luzes, glitter e música, enquanto dança e canta com Jaqueline. A rápida mudança acontece aqui com um simples pensamento da jovem que volta para casa abraçada à cadeira do ônibus enquanto sonha com a fama. Vale perceber como a narrativa também não se preocupa em fazer com que essas transições pareçam meio tolas, até porque a direção de Renata Pinheiro é bem competente para que isso não ocorra.

A rivalidade Shelly e Jaqueline é algo mais ameno na narrativa. Felizmente o roteiro não optou por um caminho mais fácil e óbvio. Não que haja atrito entre as personagens, mas o longa procura focar mais como cada mulher encara também seus próprios conflitos. “Se Jaqueline ensaia a música “Chupa que é de Uva” em tom melancólico enquanto chora por saber que seu sucesso está acabando, Shelly vai ao mercado comprar tintura, e as caixas do produto ganham uma iluminação especial com direito a mudança na cor do batom da modelo que aparece na foto do produto, como um “sinal” simbolizando que é aquela cor que deve ser escolhida.

Em meio a tudo isso há espaço também para uma redenção da amizade em uma mesa de bar. Enquanto Shelly continuará a perseguir o seu sonho, Jaqueline vê a possibilidade de ser mais participativa na vida da filha que mora com a avó. Em uma cena simples durante um telefonema para saber como a menina está, Jaqueline descobre que a filha não gosta mais de um determinado brinquedo que ela pretendia comprar, possivelmente por a mesma já estar um pouco mais crescida e ter mudado seus gostos. Esse momento explora também a rapidez com que tantas pessoas mal percebem o que acontece em sua volta, como acompanhar a vida de seus filhos e a qualidade da relação que elas mantêm com eles, priorizando sempre o trabalho.

Um tom bem popular está nas imagens de vídeos cômicos da internet que às vezes surgem entre algumas cenas. Propositalmente em baixa qualidade, o mesmo ocorre com os vídeos em que mostram as bandas se apresentando no programa “Brega Show”. O filme em nenhum momento usa esse artifício como forma de satirizar as situações, pois ele abraça e nos envolve nesse universo do brega ao mostrar os personagens e seus desejos como muita verdade e naturalidade.

Amor Plástico e Barulho aborda a busca pelos sonhos e a facilidade com que coisas e pessoas são descartadas, além da rotatividade das músicas e bandas do momento, que podem facilmente se comparar a qualquer coisa que faça parte da nossa pós-modernidade. Tudo feito com muita naturalidade através de personagens que não desistem de seus sonhos, que abraçam seus mundos e a música que tanto gostam de se dedicar. Tudo claro, ao som de muito tecnobrega que independente dos gostos musicais de cada um, representa uma das diversas facetas do nosso país.

Written by Tarcísio Araújo

Formado em Cinema pelo CEUNSP - Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio. Escreve para o blog Canal Simulacro e site Cinetoscópio.