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Filmes Para Ouvir Entrevista : Marcelo Aliche

Diretor artístico e idealizador da edição brasileira do In-Edit, Marcelo Aliche bateu um papo comigo sobre sua relação com a música, cinema e um pouquinho dos bastidores de um dos maiores e mais prestigiados festivais de documentários musicais do mundo. Confira!

 

Você é publicitário, radialista e já publicou fanzines. Qual é a sua relação com a música?

Sempre gostei de música. Desde pequeno trocava discos com os amigos da escola, gravava fitas, comprava revistas, enfim… vivia muito em função do universo musical. Comecei a tocar baixo, mas a disciplina nunca foi minha companheira.

Então coloquei toda essa paixão no Rádio. Em Barcelona, onde morei por 16 anos, fiz programas em 2 emissoras. Foram 12 anos de emissões.

Agora, com o In-Edit, minhas ânsias por estar próximo ao universo musical estão satisfeitas e fico muito à vontade com isso.

 

O In-Edit começou em Barcelona em 2003 e o Brasil teve a sua primeira edição em 2009. Como foi o processo e qual é o seu envolvimento com o festival desde então?

Em 2007, eu tinha uma namorada que estava produzindo uma mostra de filmes brasileiros em Barcelona. Nesta produção, quem se ocupava da assessoria de imprensa era a En Silencio, empresa irmã do In-Edit. Num desses dias do evento, perguntei se eles gostariam de levar o festival para o Brasil, já que rolava no Chile fazia alguns anos.

Eles me explicaram os processos, as condições e as dinâmicas de trabalho. Fiquei com aquilo na cabeça e fui tocando a vida até que a crise econômica golpeou forte a Espanha e perdi meu programa de rádio, meus freelances e meu emprego. Foi aí que decidi vir a SP para ver se poderia realizar o In-Edit no Brasil.

 

Qual é o critério para a escolha dos filmes? O quanto do gosto pessoal é envolvido no processo?

A escolha dos filmes é o resultado de uma equação cheia de variáveis. Primeiro de tudo, o filme deve ser bom. Depois disso tem a relevância histórica do documentário, do músico, do momento histórico e inclusive se o festival, naquele ano, está propondo um tema específico, como foi o caso dos 40 anos de Punk em 2017.

 

No Brasil fazer cinema é um verdadeiro ato de resistência. Embora tenhamos excelentes documentaristas como o saudoso Eduardo Coutinho, o gênero não é tão difundido ao grande público. Quais as dificuldades de realizar um festival de documentários no Brasil e o que pode ser feito para mudar este panorama?

O documentário não é um filme qualquer e raramente é um entretenimento. Sendo assim, o apelo deste tipo de filmes é mais cultural, educativo, informativo e entre outros aspectos. Isso afasta em certa forma o “grande” público. Por isso é tão importante os festivais de documentários como o É Tudo Verdade, o In-Edit, o Ecofalante, o Feed Dog. Esses eventos atraem uma atenção de públicos diferentes e ajudam a formar público.

Eu, Meu Pai e Os Cariocas, da diretora Lúcia Veríssimo, foi o filme vencedor do Prêmio do Júri do In-Edit Brasil 2017. O documentário será exibido em Barcelona com a presença dela. O quanto este prêmio abre portas para os documentaristas brasileiros lá fora?

É muito difícil de dizer o quanto o vencedor do In-Edit consegue abrir portas fora do Brasil. Cada filme é um filme e desperta diferentes interesses por onde passa. O fato de levar um filme para Barcelona, Santiago do Chile, Atenas ou Bogotá é um início de um relacionamento do cinema nacional com outras audiências. E isso é um processo lento.

O Brasil tem produzido muitos documentários musicais?

Sim. Muitos. O fato das plataformas brigarem por conteúdo hoje em dia tem ajudado muito para isso acontecer.

 

Qual banda ou artista brasileiro merece um documentário?

São muitas! Mas deixo aqui uma “Whishlist”: Mutantes, Racionais MC’s, João Gilberto, Roberto Carlos, a Jovem Guarda de maneira geral, Astrúbal Trouxe o Trombone, Joelho de Porco, o Rock brasileiro dos anos 1960 e 1970, a “geração Rock In Rio”, um mapa sobre o Rock feito no Sul, um filme sobre a história do Sertanejo, Heitor Villa Lobos, entre tantos outros.

Parte dos filmes, tanto os nacionais quanto os estrangeiros mostrados no festival dificilmente conseguem adentrar o circuito exibidor. O In-Edit pretende criar uma alternativa para que o acesso do público seja ampliado?

Na Espanha existe um Video On Demand (VOD) chamado In-Edit TV. É como um Netflix do documentário musical. No momento estamos procurando investidores para trazê-lo ao Brasil.

 

De qual banda ou artista estrangeiro você acredita que falte um documentário?

Tem um monte! Alguns artistas já tem um documentário mas, ou não são muito bons, ou tem um caráter muito televisivo. Se eu parar pra fazer uma lista não vai caber aqui…

 

Tem algum filme ou convidado que tenha te marcado ao longo desses 9 anos de In-Edit?

Searching for Sugarman (2012) acho que foi o filme que mais me marcou. Seja pela maneira como ele entrou na minha vida ou pelo impacto que causou no festival.

Recebi o filme muitos meses antes do festival de Barcelona e todos no escritório me perguntavam “e ai, já viu Sugarman?”. Estavam muito excitados com o assunto e deixei para vê-lo em tela grande de propósito. Resisti bravamente e fui pro cinema.

Porra! Que filme! Chorei, me emocionei, enlouqueci com as músicas… serviço completo.

Seis meses depois, quando era hora de fazer as contratações para o In-Edit Brasil, eu estava em Barcelona esperando meu amigo e coordenador de contratações internacionais do festival, Johannes Klein, para almoçar. Enquanto esperava ele terminar uma ligação telefônica, fiquei folhando um número da revista Hollywood Report que estava por ali. Nesta edição havia as apostas dos críticos para o Oscar que ocorreria naquele fim fim de semana. Na categoria Documentários o vencedor era unânime: Searching for Sugarman.

Quando o Johannes desligou o telefone e me disse “vamos”, eu falei: “antes de sair, manda um e-mail pra galera do Sugarman. Todas as apostas estão dando ele como ganhador e na segunda vai ser mais difícil fazer esta contratação”.

Dito e feito. Na segunda quando chegamos ao escritório, havia ligações e e-mails de Los Angeles, Johannesburg, Londres e mais um monte de lugares.

O filme tinha sido vendido naquela noite pelos antigos proprietários dos direitos e eles precisavam emitir suas últimas faturas antes de entregar a papelada a seus novos donos.

Foi assim que o filme passou no Brasil e fiquei muito contente de poder ver tantas pessoas.

 

Em 2018 o In-Edit Brasil chega á sua décima edição. Pode nos adiantar alguma surpresa?

Que coisa mais deselegante estragar uma surpresa! 🙂

 

Written by Danilo Carbone

Jornalista, cinéfilo e fã de Iggy Pop, Danilo acredita que o cinema e a música são artes complementares capazes de mudar o mundo e as pessoas.

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